7: O tribunal de vidro

1166 Words
O toque do celular às seis da manhã não era um alarme; era o som de um fuzilamento. Sofia não precisou ler mais do que a primeira manchete para sentir o chão desaparecer. A foto — granulada, tirada de um jornal de província de dez anos atrás — mostrava uma Sofia adolescente, de olhos inchados e ombros caídos, sendo escoltada para fora de um salão da igreja. A legenda no portal de fofocas era impiedosa: "A Santa do Traço Perfeito: O passado obscuro de Sofia Castello e a expulsão por 'conduta pecaminosa'." Ela não tomou café. Não sentia fome. Sentia o gosto ácido da vergonha, uma substância que ela pensou ter destilado de seu sangue através de anos de terapia e sucesso. Ao chegar à sede da Castello & Vandyke, o lobby estava sitiado. Três fotógrafos tentaram barrar sua entrada, disparando flashes que pareciam relâmpagos em uma tempestade de humilhação. — Srta. Castello! É verdade que a expulsão envolveu o filho do pastor? — Sofia, como você concilia seu discurso de ética na arquitetura com sua "quebra de moral" juvenil? Ela não respondeu. Manteve o queixo erguido até que as portas do elevador se fechassem, mas, uma vez sozinha no cubículo de aço, ela se apoiou na parede e lutou para respirar. O ar parecia cheio de poeira de demolição. O andar da diretoria estava silencioso. Eric estava lá, encostado na mesa da secretária, tomando café com uma calma que beirava o s****o. — O conselho quer você fora, Sofia — ele disse, sem preliminares. — O "Escândalo da Menina da Igreja" está fazendo nossos clientes de luxo se sentirem desconfortáveis. A marca “Castello” tornou-se tóxica da noite para o dia. — Foi você — ela sussurrou, a voz cortante. — Você cavou isso para me forçar a assinar a dissolução nos seus termos. — Eu apenas facilitei a chegada da verdade — Eric deu um passo à frente, a voz baixa. — Você sempre agiu como se fosse superior a todos nós, Sofia. Mas agora todos sabem. Você é apenas uma garotinha que não conseguiu seguir as regras nem da sua própria religião de quintal. O "mundo real" não tem paciência para hipócritas. — Eu não sou hipócrita, Eric! Eu fui a vítima! — No tribunal da opinião pública, não há vítimas, apenas culpados. Assine os papéis e eu tentarei conter os danos. Saia agora e você poderá manter o que resta da sua dignidade. Sofia olhou ao redor. Seus funcionários, pessoas que ela treinou e protegeu, olhavam para o chão. O isolamento era absoluto. Até que a porta de vidro da entrada se abriu com uma força incomum. Daniel Verara entrou. Ele não estava com plantas ou ferramentas. Ele trazia um exemplar do jornal da manhã dobrado sob o braço. Ele caminhou direto para o centro do salão, ignorando a tensão elétrica. — Daniel, não é um bom momento — Eric disse, com um sorriso de escárnio. — Sua "musa" está prestes a se tornar uma nota de rodapé na história da arquitetura. Daniel ignorou Eric. Seus olhos estavam fixos em Sofia. Ele viu a palidez dela, viu o tremor quase imperceptível em suas mãos. — Eu li a notícia — Daniel disse, a voz ecoando com uma clareza que forçou todos a ouvirem. — E então? — Sofia desafiou, a amargura transbordando. — Vai citar Levítico para mim agora, Daniel? Vai dizer que o salário do pecado é a morte? Daniel caminhou até ela. Ele não parou a uma distância segura; ele entrou no espaço pessoal dela. — Não — ele disse suavemente. — Eu vim dizer que esta foto é a coisa mais bonita que eu já vi sobre você. Houve um arquejo coletivo na sala. Eric soltou uma risada incrédula. — Você enlouqueceu, Verara? Ela foi escorraçada como uma adúltera! Daniel se voltou para Eric, e por um segundo, o homem manso desapareceu, dando lugar a algo que lembrava um profeta antigo. — Ela foi expulsa por homens que usaram a lei para esconder a própria falta de misericórdia. E esta foto é bonita porque é a prova de que Sofia não pertence a esse sistema. Ela foi "cancelada" pelos homens para que pudesse ser acolhida por Deus. O que você chama de vergonha, Eric, eu chamo de libertação. Ele voltou-se para os funcionários. — Algum de vocês aqui nunca errou? Algum de vocês nunca teve um segredo que não queria ver no jornal? — O silêncio foi absoluto. — Pois eu tenho. Eu sou um homem falho, sustentado apenas por uma Graça que eu não mereço. E se esta empresa não tem espaço para quem tem um passado, então ela não tem espaço para a humanidade. Daniel estendeu a mão para Sofia. — Vamos embora daqui, Sofia. Você não precisa desse prédio para ser quem você é. — Ela não vai a lugar nenhum com você! — Eric gritou. — Se ela sair agora, perde tudo! Sofia olhou para a mão de Daniel. Era uma mão calejada, real, que oferecia nada além de companheirismo no meio do fogo. Depois olhou para Eric, que oferecia a preservação de uma imagem que já estava em pedaços. Naquele momento, algo estalou dentro de Sofia. O medo da rejeição, que a escravizara por dez anos, encontrou algo maior: a liberdade de não ter mais nada a perder. Ela não assinou os papéis de Eric. Em vez disso, ela pegou sua bolsa, deixou o capacete branco de arquiteta-chefe sobre a mesa de vidro e colocou sua mão na de Daniel. — Você tem razão, Eric — Sofia disse, as lágrimas finalmente parando de cair, substituídas por uma clareza gélida. — O mundo real não tem paciência para hipócritas. Por isso, estou saindo. Fique com o vidro e o aço. Eu vou ficar com o fundamento. Eles caminharam juntos em direção ao elevador. Eric gritava ameaças atrás deles, mas Sofia não ouvia mais. Ao saírem na calçada, os fotógrafos avançaram novamente. Daniel não tentou escondê-la. Ele apenas a manteve firme ao seu lado, caminhando com uma dignidade que parecia desviar os flashes como um escudo. — Para onde vamos? — Sofia perguntou, assim que entraram no carro de Daniel. Ela estava tremendo, a adrenalina começando a baixar. — Vamos para o único lugar onde o passado não tem poder de condenação — Daniel respondeu, ligando o motor. — Para a igreja? — ela perguntou, com um traço de medo. — Não — Daniel sorriu, um sorriso que parecia um abraço. — Vamos para a beira do rio. Você precisa ver que o sol nasce mesmo sobre as ruínas. E depois, vamos ligar para sua mãe. Sofia encostou a cabeça no banco. Pela primeira vez em anos, ela não se sentia uma "Arquiteta de Sucesso". Ela se sentia apenas como uma menina. Mas, desta vez, uma menina que não precisava mais correr. O escândalo era a sua cruz pública, mas Daniel estava ensinando a ela que, depois da cruz, sempre há uma manhã de ressurreição.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD