6: O sussurro na tempestade

1187 Words
O silêncio nos corredores da Castello & Vandyke era diferente naquela manhã. Não era o silêncio produtivo de uma empresa de sucesso, mas o silêncio pesado de um hospital após uma notícia r**m. As pessoas desviavam o olhar quando Sofia passava. Os sussurros cessavam assim que ela entrava na copa. Eric não estava em sua sala. Em vez disso, Sofia encontrou uma notificação judicial sobre sua mesa: uma dissolução de sociedade em andamento e uma auditoria interna solicitada pelos investidores. Eric não estava apenas saindo da vida dela; ele estava tentando implodir o chão sob os pés dela. Sofia sentou-se em sua cadeira de couro, a mesma onde tantas vezes se sentiu a mestre do universo. Agora, ela parecia apenas... uma cadeira. Um objeto inanimado em uma sala que parecia ter ficado subitamente grande demais. O telefone tocou. Era sua secretária, com a voz tingida de uma piedade que Sofia detestava. — Srta. Castello... O Sr. Verara está na recepção. Ele diz que precisa entregar o relatório final das fundações, mas... ele trouxe flores. Sofia fechou os olhos, sentindo uma pontada de exaustão. — Mande-o entrar, Sarah. E, por favor, não use esse tom de velório comigo. Eu ainda não morri. Daniel entrou momentos depois. Ele não trazia flores de estufa, perfeitas e sem cheiro. Ele trazia um pequeno vaso de lavanda silvestre, cujas raízes estavam firmes na terra escura. Ele o colocou sobre a mesa de vidro de Sofia, um contraste gritante com a frieza do ambiente. — A lavanda sobrevive ao gelo — Daniel disse, sem preâmbulos. — Ela precisa do inverno para florescer com mais força na primavera. Sofia olhou para a planta e depois para ele. — Eric está movendo os céus e a terra para me destruir, Daniel. Os investidores retiraram o aporte da ala leste. Eu vou ter que vender metade das minhas ações para cobrir o custo daquela fundação "correta" que você insistiu em fazer. — Eu sinto muito pelo custo, Sofia. Realmente sinto — Daniel sentou-se na cadeira à frente dela, sua presença agindo como um regulador de pressão na sala. — Mas você prefere ser uma mulher rica sentada sobre uma mentira, ou uma mulher em reconstrução sentada sobre a verdade? — Eu prefiro não ter que escolher! — ela explodiu, levantando-se e caminhando até a janela. — Por que o "certo" tem que ser tão doloroso? Por que o seu Deus não facilita as coisas para quem decide fazer a v*****e d'Ele? Daniel deu um suspiro curto, um som que carregava uma teologia inteira. — Porque Ele não quer a sua empresa, Sofia. Ele quer você. Às vezes, as coisas que usamos para nos esconder d'Ele precisam ser removidas para que possamos ouvir a Sua voz. Eric era o seu escudo. O seu sucesso era a sua armadura. Agora que você está desarmada... talvez você consiga ouvi-Lo. — Eu não ouço nada, Daniel! — ela se virou, as lágrimas subindo. — Só ouço o barulho da minha vida desmoronando. — Talvez você esteja ouvindo o barulho errado — Daniel levantou-se e entregou a ela um pequeno papel dobrado. — Não é um versículo. É um endereço. É um lugar onde eu vou todas as terças-feiras à noite. Não é uma igreja oficial. É apenas um g***o de pessoas feridas tentando entender o que a Graça significa. Sem púlpitos. Sem julgamentos. Só o Pão. Sofia pegou o papel, mas não prometeu nada. Daniel saiu, deixando o perfume da lavanda ocupando o espaço deixado pelo medo. A noite em Nova Iorque caiu com uma chuva fina e cortante. Sofia dirigiu por horas. Ela não queria ir para casa — o vazio do loft era insuportável. Ela acabou parando em frente a um pequeno café no Brooklyn, o endereço que Daniel lhe dera. Ela ficou no carro por vinte minutos. O trauma de ser julgada, de ser apontada como "pecadora", de ser humilhada em público, pulsava em suas têmporas. Mas algo em seu coração — aquela fome que Daniel mencionara — era mais forte que o medo. Ela entrou. Não havia luzes de neon ou órgãos barulhentos. Apenas umas dez pessoas sentadas em sofás desgastados, com canecas de café nas mãos. No centro, Daniel estava lendo algo em voz alta. "...porque eu, o Senhor teu Deus, te tomo pela tua mão direita; e te digo: Não temas, que eu te ajudo." Sofia parou na porta. Daniel a viu, mas não fez um espetáculo. Apenas sorriu e apontou para um lugar vazio ao seu lado. Uma mulher mais velha, com rugas que pareciam caminhos de alegria, entregou a Sofia uma caneca quente. — Bem-vinda, querida — a mulher sussurrou. — Aqui ninguém é perfeito. Estamos todos apenas tentando chegar em casa. Pela primeira vez em dez anos, Sofia não sentiu que precisava se defender. Ela ouviu histórias de pessoas que tinham perdido tudo — casamentos, carreiras, saúde — e que tinham encontrado, nos escombros, a Presença que nunca abandona. Ela percebeu que a religião que a ferira era uma caricatura distorcida da realidade que Daniel vivia. Ao final da noite, as pessoas começaram a orar. Orações simples. Orações que pareciam conversas. Sofia sentiu um impulso que não sentia desde a infância. Ela fechou os olhos. "Deus..." — ela pensou, a palavra soando estranha e pesada em sua mente. — "Se o Senhor está mesmo aqui... se o que o Daniel diz é verdade... me ajuda. Eu não sei mais quem eu sou. Eu não quero mais fugir, mas eu não sei como voltar." Foi uma oração de apenas três frases. Curta, imperfeita, quase um protesto. Mas, ao terminá-la, Sofia sentiu algo que nenhum prêmio de arquitetura jamais lhe proporcionara: uma pequena, quase imperceptível, centelha de esperança. Não a esperança de que tudo ficaria bem profissionalmente, mas a esperança de que ela não estava sozinha no escuro. Na saída, Daniel caminhou com ela até o carro. — Você está bem? — ele perguntou, o vento soprando seus cabelos. — Eu tentei falar com Ele — ela confessou, a voz baixa. — Mas acho que Ele não deve ter gostado muito do meu tom. Eu ainda estou brava, Daniel. Daniel riu, um som caloroso que iluminou a rua sombria. — Sofia, Deus prefere a sua fúria honesta do que a sua piedade fingida. Ele aguenta a sua raiva. Ele é o Pai celestial. Daniel inclinou-se e, num gesto de ternura que não pedia nada em troca, beijou a testa de Sofia. — Durma em paz hoje. Você não precisa salvar o mundo amanhã. Alguém já fez isso por você. Sofia entrou no carro. Ao olhar pelo retrovisor, viu Daniel parado na calçada, um sentinela da Graça. Mas, enquanto ela dirigia, seu celular brilhou no painel. Uma notificação de um site de fofocas de alta sociedade. "QUEDA DE UM ÍCONE: Escândalo no passado da premiada arquiteta Sofia Castello revela expulsão de comunidade religiosa por 'conduta moral imprópria'. Eric Vandyke se pronuncia: 'Estou chocado'." A foto era dela, aos dezessete anos, chorando na porta da igreja de seu pai. Eric tinha disparado a primeira flecha. O inverno estava prestes a ficar muito, muito mais frio.
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