A construção do Museu da Memória avançava com uma rapidez que desafiava o inverno de Connecticut. As vigas de aço agora se erguiam como costelas de um gigante, e a estrutura de vidro — a marca registrada de Sofia — começava a ser instalada. Mas o clima no canteiro de obras não era de celebração. Era de vigilância.
— Você está forçando demais, Daniel — Sofia disse, aproximando-se dele com dois copos de café. O vento soprava forte, fazendo as lonas de p******o estalarem como chicotes.
Daniel estava debruçado sobre a estrutura de sustentação da Ala Leste, a mesma que causara o conflito com Eric. Ele parecia exausto.
— O concreto está curando bem, Sofia, mas os sensores de pressão estão dando leituras estranhas na viga mestre. Pode ser apenas o frio afetando a calibração, mas não quero correr riscos. Não depois de Londres.
Sofia tocou o braço dele. A preocupação de Daniel era o seu trauma falando, mas ela aprendera a confiar nos instintos dele.
— Vamos encerrar por hoje. Os operários já foram embora. A luz está caindo.
— Vá para o trailer, Sofia. Eu só preciso verificar o tensionamento dos cabos de aço no quarto pavimento. Levo dez minutos.
Sofia hesitou. O pressentimento que a acompanhava desde que voltara de Londres gritou em sua mente. Mas ela apenas assentiu.
— Dez minutos, Daniel. Se não descer, eu subo para te buscar.
Enquanto ela caminhava em direção ao trailer do escritório, uma sombra se moveu perto do gerador de energia. Sofia parou. O silêncio da obra, quebrado apenas pelo uivo do vento, parecia subitamente sinistro. Ela olhou para cima. Daniel era uma silhueta pequena contra o céu roxo, movendo-se com agilidade pelas passarelas de metal.
De repente, um som metálico agudo — um “estalo” que soou como um tiro de rifle — ecoou por todo o canteiro.
— Daniel! — Sofia gritou, correndo de volta para a estrutura.
Lá no alto, um dos cabos de aço que sustentava a plataforma de inspeção se soltou. Não se rompeu por pressão; ele se soltou da braçadeira de segurança, que fora claramente afrouxada. A plataforma inclinou-se violentamente. Sofia viu Daniel escorregar, segurando-se por milagre em uma viga transversal enquanto suas pernas balançavam no vazio, a vinte metros do chão.
— Daniel! Segura firme! — Sofia sentiu o pânico subir, mas sua mente de arquiteta assumiu o controle. Ela sabia que o elevador de carga estava desativado pelo horário. Ela precisava chegar até ele.
Ela correu para a escada de emergência, os pulmões ardendo com o ar congelado. Cada degrau parecia uma eternidade. No chão, ela viu o brilho de um farol de carro se afastando rapidamente pelos portões do canteiro. Eric não estava apenas assistindo; ele estava executando sua sentença.
Ao chegar ao quarto pavimento, Sofia viu Daniel. Ele estava pendurado, sua força diminuindo visivelmente devido ao frio que paralisava seus dedos.
— Sofia... saia daqui... — ele ofegou, o rosto pálido. — O resto da plataforma... vai cair.
— Eu não vou a lugar nenhum sem você! — ela gritou, rastejando pela viga estreita.
Ela não tinha equipamentos de segurança. Não tinha força física comparável à dele. Mas ela tinha a corda de nylon que os operários usavam para subir ferramentas pequenas. Ela amarrou uma extremidade em uma coluna de aço fixa e jogou a outra para ele.
— Amarre no seu cinto, Daniel! Agora!
— Sofia, a viga não vai aguentar o peso de nós dois se a plataforma ceder de vez!
— Então nós caímos juntos! — ela rugiu, a voz carregada de uma convicção que vinha de um lugar além da lógica humana. — Eu não construí esse fundamento para te ver cair sozinho!
Com um esforço sobre-humano, Daniel conseguiu lançar a corda e prender o mosquetão de emergência. No segundo seguinte, a plataforma de metal despencou, colidindo com o solo em um estrondo ensurdecedor de aço retorcido.
O impacto puxou a corda, jogando Sofia contra a coluna de aço. Ela sentiu uma dor aguda no ombro, mas não soltou. Daniel ficou pendurado pela corda, balançando perigosamente, até que conseguiu encontrar apoio em uma saliência da estrutura.
Minutos depois, eles estavam ambos no chão, caídos sobre a terra batida e o ** de cimento, ofegantes, cobertos de poeira e suor frio. Sofia chorava descontroladamente, segurando a mão de Daniel como se sua vida dependesse disso.
— Ele tentou te m***r — ela soluçava. — Daniel, ele tentou te m***r.
Daniel a puxou para perto, protegendo-a com seu corpo. Ele olhou para o topo da estrutura, onde o cabo solto balançava suavemente ao vento.
— "Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte..." — ele sussurrou, a voz trêmula mas firme. — Ele tentou derrubar a obra, Sofia. Mas ele esqueceu que a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular, Cristo está conosco e Ele é Senhor sobre tudo.
Daniel afastou o cabelo do rosto dela e beijou sua testa.
— O museu não é mais apenas sobre a memória, Sofia. A partir de agora, ele é sobre a sobrevivência. Eric cruzou a linha. Ele não quer mais o negócio. Ele quer o sangue. É Satanás que está influenciando ele a nos destruir, Deus nos salvará com sua providência.
Sofia limpou o rosto e levantou-se. A menina que fugia da dor tinha morrido naquela queda. Em seu lugar, estava uma mulher que entendia que a Graça não é passiva; ela é uma força que resiste ao m*l.
— Amanhã, nós não vamos apenas trabalhar — Sofia disse, olhando para os portões por onde o carro de Eric fugira. — Amanhã, nós vamos à polícia com as filmagens das câmeras de segurança térmica que eu instalei em segredo na semana passada.
Daniel sorriu, um sorriso de quem finalmente entendeu que Sofia Castello era a sua melhor defesa.
— Você instalou câmeras térmicas?
— Eu sou uma arquiteta, Daniel. Eu planejo cada saída de incêndio antes mesmo de desenhar a porta. Eric acha que está jogando contra uma sonhadora. Ele vai descobrir que está jogando contra a mulher que desenhou o labirinto onde ele vai se perder.
Os dois permaneceram abraçados, ali no centro da obra inacabada, sob a luz da lua, enquanto as sirenes reais — desta vez chamadas por eles — começam a preencher a noite de Connecticut.