17: O labirinto de vidro

991 Words
O interrogatório na delegacia de Stamford durou toda a madrugada. Sofia e Daniel estavam sentados em cadeiras de metal desconfortáveis, o cheiro de café requentado e desinfetante impregnando o ar. Do outro lado da divisória de vidro, eles podiam ver Eric Vandyke. Ele não parecia um criminoso. Sentado com sua equipe de advogados de terno cinza, ele parecia um filantropo injustiçado. Quando as filmagens das câmeras térmicas de Sofia foram exibidas, Eric sequer piscou. — A imagem é inconclusiva — o advogado de Eric argumentou com o detetive. — Mostra uma silhueta perto do gerador, mas não há identificação facial. O veículo saindo da obra é de um modelo comum. Meu cliente estava em um jantar beneficente em Manhattan até as 22h. Temos testemunhas. Sofia sentiu uma onda de náusea. — Ele estava lá — ela sussurrou para Daniel. — Eu senti a presença dele. Eu vi o brilho dos olhos dele quando o carro arrancou. Daniel segurou a mão dela. Suas juntas ainda estavam esfoladas da corda de nylon. — Ele construiu um álibi tão sólido quanto uma viga de sustentação, Sofia. Ele não é amador. Ele sabia das câmeras. Ele queria que você soubesse que era ele, mas que não pudesse provar, porém Deus é justo juiz e está, como esteve com o apóstolo Paulo diante dos magistrados. Duas horas depois, Eric foi liberado. Ele caminhou pelo corredor da delegacia com a arrogância de quem é dono da lei. Ao passar por Sofia e Daniel, ele parou por um segundo. Não houve ameaças verbais. Ele apenas ajustou o relógio de ouro e deu um sorriso gélido, um olhar que dizia: “Eu ainda não terminei.” Ao voltarem para o Queens, a sensação de segurança tinha evaporado. O modesto escritório da “Fundamento” parecia vulnerável. Sofia começou a fechar todas as persianas, sua mente disparando mil possibilidades de ataque. Era como seu o ar estivesse sumido de lá. — Sofia, pare — Daniel disse, segurando gentilmente seus pulsos. — Você está tentando projetar uma fortaleza contra o medo, mas paredes não podem nos proteger dele. — Ele tentou te m***r, Daniel! — ela gritou, a voz ecoando nas paredes de tijolos. — E ele saiu pela porta da frente da delegacia rindo de nós! O seu Deus fala sobre justiça, mas onde ela está? Eric tem o dinheiro, tem os advogados e tem a falta de escrúpulos. Nós temos o quê? Uma pequena firma e um punhado de doações? Daniel a conduziu até o sofá desgastado. — Nós temos Jesus Cristo e isso é suficiente. Na hora certa o Senhor vai operar, não podemos perder nossa confiança, não existe um centímetro do universo que não clame por Cristo, tudo é dele, inclusive a “Fundamento”. Eric está lutando por um reino que apodrece. Nós estamos construindo algo que permanece eternamente. — Eu não quero algo que permaneça na eternidade agora, Daniel! Eu quero você vivo amanhã! — Eu estou vivo — ele respondeu, tocando o rosto dela. — E a obra do museu vai continuar. Mas precisamos ser sábios. Eric vai atacar onde dói mais: na nossa reputação e na nossa viabilidade financeira. O telefone de Daniel tocou. Era o mestre de obras de Connecticut. Sua voz estava trêmula. — Sr. Verara... recebemos uma notificação do Departamento de Edificações. Houve uma denúncia anônima sobre "instabilidade estrutural grave" após o acidente de ontem. Eles embargaram a obra por tempo indeterminado para uma auditoria completa. Sofia fechou os olhos. O golpe de misericórdia. — É o jogo dele. Ele cria o acidente, e depois usa o acidente para provar que a obra é insegura. Se o embargo durar mais de trinta dias, perdemos o seguro e o contrato é rescindido automaticamente. Daniel ficou em silêncio por um longo tempo. Ele caminhou até a mesa onde a Bíblia permanecia aberta. — Sofia, você se lembra do que disse a Eric em Londres? Sobre o labirinto? — Sim, mas eu estava apenas tentando parecer forte. — Não. Você estava certa. Eric é um homem de lógica e poder. Ele espera que lutemos no tribunal dele, com as regras dele. Mas há uma forma de tirá-lo do labirinto. Daniel abriu a planta do museu. — O museu é sobre a Memória. Eric quer enterrar o passado. E se nós transformarmos a auditoria em um evento público? E se convidarmos a imprensa, os historiadores e as vítimas cujas memórias o museu deve honrar para verem a inspeção? Sofia começou a entender. — Você quer transparência radical. Se ele tentar subornar o auditor, haverá mil olhos observando. — Exatamente. Eric sobrevive na sombra. Vamos inundar o canteiro de obras com luz. Sofia olhou para o desenho do prédio. Ela começou a ver não apenas vigas e vidros, mas uma estratégia de contra-ataque espiritual. — Eu posso chamar Julian em Londres. Ele descobriu que a empresa de auditoria que o Departamento de Edificações pretende usar tem ligações ocultas com o g***o Lonsdale... o g***o de Eric. — Então temos a nossa viga mestre — Daniel sorriu. — Vamos deixar que eles enviem o auditor corrupto. Vamos deixar que ele tente mentir diante das câmeras. Sofia e Daniel continuaram trabalhando madrugada adentro, não em plantas de arquitetura, mas em oração e petições ao Senhor dos senhores. Montaram um plano de exposição que forçaria Eric a sair de seu esconderijo corporativo. Eles sabiam que estavam caminhando para o centro da tempestade, mas pela primeira vez, Sofia não sentia que o teto estava desabando. Ela sentia que estava, finalmente, aprendendo a sustentar o peso da glória e que Deus é maior do que tudo que o homem possa planejar. Longe dali, Eric olhava para um frasco de comprimidos sobre sua mesa luxuosa. O silêncio e a solidão de seu império começavam a soar mais altos do que o barulho de seu dinheiro. A obsessão por destruir Sofia estava se tornando a única coisa que o mantinha acordado.
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