18: O elo perdido

973 Words
A manhã da auditoria pública em Connecticut nasceu sob um céu de chumbo. O canteiro de obras, antes um lugar de trabalho frenético, parecia agora um palco de julgamento. Sofia organizava os dossiês técnicos no trailer, enquanto Daniel coordenava a entrada da imprensa e de um g***o de sobreviventes do antigo acidente de Londres, que haviam voado para prestar apoio. — Está tudo pronto, Daniel — disse Sofia, mas a sua voz carregava uma nota de hesitação. — Mas há algo errado com os arquivos de backup do servidor. Daniel parou, com o capacete na mão. — Como assim? — O relatório de resistência da viga mestre... o original, aquele que prova que a estrutura é segura apesar do acidente do cabo. Ele foi modificado ontem à noite. Às 22h. Daniel franziu o cenho. — Nós estávamos no Queens às 22h. Ninguém deveria ter acesso remoto ao servidor da Fundamento além de nós e da Sarah. Sofia sentiu um calafrio. Sarah era a sua secretária desde os tempos da Castello & Vandyke. Ela fora a única que pedira para se juntar à nova firma, alegando lealdade. Sofia a acolhera como uma irmã. Nesse momento, Sarah entrou no trailer. Ela trazia uma bandeja de café, mas os seus olhos não encontravam os de Sofia. As suas mãos tremiam ligeiramente. — Sarah — Sofia chamou-lhe com a voz suave, mas carregada de uma autoridade gélida. — Ocorreu um erro no servidor ontem à noite. Precisamos da tua senha de acesso para restaurar o log de atividades. Sarah parou no meio do trailer. O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo som das sirenes dos carros de reportagem lá fora. Ela largou a bandeja. O som das xícaras a tilintar pareceu uma explosão. — Ele ameaçou a minha família, Sofia — sussurrou Sarah, desabando em lágrimas. — O Eric... ele sabe onde os meus pais vivem. Ele disse que, se eu não alterasse os números da auditoria para parecer que a viga está condenada, eu nunca mais os veria. Sofia sentiu o sangue ferver, mas não de raiva contra Sarah. Era uma fúria santa contra o monstro em que Eric se tornara. Ele não estava apenas a lutar por um prédio; estava a usar vidas humanas como peças de xadrez. — Onde está o arquivo original, Sarah? — perguntou Daniel, colocando a mão no ombro da jovem. Ele não a julgou. Ele conhecia o peso da coerção. — Eu guardei-o numa pen drive — ela tirou um pequeno objeto do bolso. — Eu não consegui levar o plano até ao fim. Eu ia contar, eu juro... — Sarah, ouve-me — Sofia segurou as mãos da secretária. — Você vai sair daqui agora. Daniel, leva-a para o carro do meu pai. Ele está lá fora com o g***o de apoio. Ela precisa de p******o. Eu trato da auditoria. — Sofia, vai enfrentar o auditor sozinha? — Daniel hesitou. — Eu não estou sozinha, Daniel. Tu ensinaste-me isso. O Senhor está comigo! Minutos depois, o auditor chefe, um homem de rosto pétreo chamado Sr. Henderson, chegou acompanhado por Eric Vandyke. Eric exalava uma confiança tóxica. Ele achava que o cavalo de Troia (Sarah) já tinha feito o seu trabalho. — Srta. Castello — Eric cumprimentou com um sorriso de escárnio. — Pronta para ver o seu sonho ser declarado um perigo público? A imprensa rodeou o g***o. As câmeras estavam ligadas. O mundo estava pra ver. — Sr. Henderson — começou Sofia, ignorando Eric. — Antes de iniciarmos a leitura técnica, gostaria de apresentar um documento que acaba de ser autenticado digitalmente. É o log de acesso ao nosso servidor. Eric estreitou os olhos. A sua confiança vacilou por um microssegundo. — Este log mostra que, ontem à noite, houve uma tentativa de sabotagem dos dados estruturais a mando da “Vandyke Enterprises” — Sofia continuou, a voz projetada para que todos os microfones captassem. — No entanto, a nossa equipa de segurança — ela fez um aceno para a câmera, embora a "equipe" fosse apenas a sua própria astúcia — detectou a intrusão e isolou os dados reais. O Sr. Henderson pareceu desconfortável. — Srta. Castello, eu estou aqui para uma auditoria técnica, não para disputas de espionagem industrial. — Exatamente — retrucou Sofia. — Por isso, convidei também o Dr. Aristhorn, o perito independente da ONU para infraestruturas de memória, que está acompanhando a transmissão ao vivo. Sr. Henderson, precisamos de mais profissionais para equalizar o acontecimento, independente de qualquer coisa. O senhor como um excelente profissional sabe disso. O auditor ficou pálido. Ele olhou para Eric, mas Eric estava a olhar para Sofia com um ódio que prometia destruição total. Eric percebeu que Sarah falhara. A auditoria começou. Durante três horas, Sofia guiou os inspetores por cada viga, cada cálculo, cada grama de cimento. Ela falava com uma paixão que não era de uma técnica, mas de uma crente. Ela não estava apenas defendendo um museu; estava defendendo ela e todos da empresa, e honrando com uma ética inabalável seu Senhor Jesus. Ao final do dia, Henderson teve de admitir, perante as câmaras: — A estrutura não só é segura, como supera as normas de exigência em 40%. A obra está desembargada. A multidão de sobreviventes e operários irrompeu num aplauso ensurdecedor. Sofia procurou Daniel com o olhar e viu-o ao longe, ao lado de Sarah e do seu pai. Ele levantou o capacete em sinal de triunfo. Mas, no meio da celebração, Sofia viu Eric a afastar-se. Ele parou junto ao seu carro e fez um gesto com a mão — um sinal de "cortar o pescoço". Deus deu a vitória técnica para Sofia, mas com a revelação de que Eric, agora encurralado e humilhado publicamente, abandonou qualquer pretensão de legalidade. A fase final será uma questão de vida ou morte física.
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