As semanas que antecederam a inauguração do Museu da Memória foram um borrão de concreto e vigília. O embargo fora levantado, mas a paz não retornara. A Fundamento agora trabalhava sob segurança privada, e Sofia não dava um passo fora do canteiro de obras sem sentir o peso de um olhar invisível em sua nuca.
O museu estava finalmente pronto. Era uma obra-prima de vidro e luz, projetada para que, em qualquer ângulo que se olhasse, o visitante visse o céu. Era o oposto do império de mármore e sombras que Eric construíra.
Na noite anterior à grande a******a, Sofia encontrou Daniel na galeria central. O teto de vidro revelava uma lua cheia que autenticava como obra do Criador.
— Está feito, Daniel — ela sussurrou, a voz cansada, mas plena. — Nós construímos.
Daniel aproximou-se, segurando uma pequena lanterna. Ele apontou para a base da coluna principal. Ali, Sofia tinha gravado, de forma quase imperceptível na pedra, a data daquela noite no Brooklyn e as palavras: “Sobre este Fundamento.
— Eric não vai deixar que as portas se abram amanhã, Sofia — Daniel disse, a voz grave. — Julian me ligou de Londres. A Vandyke Enterprises declarou falência técnica hoje à tarde. Eric perdeu tudo. O conselho o destituiu e a polícia está batendo na porta da cobertura dele com um mandado de prisão por sabotagem e tentativa de homicídio.
Sofia sentiu um calafrio. — Ele fugiu?
— Ele desapareceu. O carro dele foi encontrado perto da ponte George Washington, mas ele não pulou. Ele está em algum lugar, Sofia. Um homem como Eric, quando perde o trono, não busca o exílio. Ele busca o suicidio por causa da tamanha vergonha.
Sofia olhou para as vastas extensões de vidro ao seu redor. De repente, a beleza do museu pareceu-lhe frágil. Era uma gaiola de cristal.
— Ele vem para cá — ela disse, com a certeza de quem conhece o monstro que criou. — Ele quer destruir a única coisa que me restou. Ele quer que o museu seja o nosso túmulo.
Às duas da manhã, o silêncio do canteiro foi quebrado. Não houve sirenes ou explosões. Apenas o som rítmico de passos metálicos ecoando nas passarelas superiores.
Sofia e Daniel, que haviam decidido passar a noite no trailer de segurança, viram as luzes da galeria principal acenderem-se uma a uma. O sistema de automação fora hackeado.
— Fique aqui, Daniel — Sofia pediu, pegando o rádio. — Eu vou chamar a polícia.
— Não — Daniel segurou o braço dela. — Ele não quer a polícia. Ele quer a audiência dele. Se eu for lá sozinho, talvez consiga pará-lo.
— Nós fomos um time até aqui, Daniel. Não vamos mudar as regras agora.
Eles entraram no museu. O ar condicionado estava no máximo, criando uma atmosfera gélida que lembrava o auge do inverno. No centro da galeria, sob a coluna principal, Eric Vandyke estava parado. Ele não usava mais os seus ternos impecáveis. Vestia um casaco escuro, o rosto encovado e os olhos brilhando com uma loucura lúcida.
Em sua mão, ele segurava um detonador remoto. Ao redor da base da coluna de sustentação, Sofia viu os fios vermelhos e os blocos de explosivos industriais.
— Um projeto poético, Sofia — Eric disse, sua voz ecoando com uma reverberação fantasmagórica. — "A memória que liberta". Mas você esqueceu que a memória também pode soterrar.
— Eric, pare com isso — Sofia deu um passo à frente, as mãos erguidas. — Acabou. A polícia está a caminho. Você pode ir para a prisão e ter a chance de um novo começo, como o Daniel teve.
— Eu não sou o Daniel! — Eric gritou, o dedo tremendo sobre o botão. — Eu não busco perdão, Sofia. Eu busco a perfeição. E se eu não posso ser o arquiteto do seu sucesso, serei o arquiteto da sua ruína. Este prédio vai cair exatamente como a viga doze em Londres. Mas desta vez, não haverá sobreviventes para contar a história.
Daniel deu um passo à frente, colocando-se entre Eric e Sofia.
— Eric, você acha que destruir o vidro vai apagar a luz? Você pode derrubar este prédio, mas o que Sofia se tornou ninguém pode destruir. O seu ódio é o seu próprio cárcere. Solte o detonador. Deixe a Graça te alcançar, mesmo que seja na última hora.
— A Graça é para os fracos, Verara! — Eric riu, e foi um som que quebrou o coração de Sofia. — Eu prefiro o inferno à sua misericórdia barata.
Nesse momento, o som das sirenes começou a ser ouvido ao longe. Eric olhou para a entrada de vidro e depois para Sofia. Ele viu a paz nos olhos dela — uma paz que ele nunca conseguiu comprar com todos os seus milhões.
Ele sorriu. Um sorriso de despedida.
— Meus parabéns, Sofia. Você realmente construiu algo inquebrável.
Eric não apertou o botão imediatamente. Ele correu em direção à escadaria que levava ao mezanino de vidro, o ponto mais alto do museu. Ele queria saltar para o centro da galeria no exato momento da explosão.
— Daniel, os explosivos! Desarme-os! — gritou Sofia.
Enquanto Daniel corria para a base da coluna para tentar desconectar os fios (usando todo o seu conhecimento de engenharia para ganhar tempo), Sofia correu atrás de Eric.
Ela o alcançou no mezanino. Eles estavam a trinta metros de altura, cercados apenas pelo céu noturno e pelo vidro transparente.
— Eric, não faça isso! — Sofia implorou. — Eu te perdoo! Você ouviu? Eu te perdoo por tudo! Deus também te perdoa e ele pode te restaurar por inteiro.
Eric parou na borda. O vento uivava através das aberturas de ventilação. Ele olhou para baixo, onde Daniel lutava contra o relógio, e depois para Sofia. Por um microssegundo, a máscara de loucura caiu, revelando apenas um homem vazio e aterrorizado.
— O perdão é o peso que eu não consigo carregar, Sofia — ele sussurrou.
Ele apertou o botão.
O som da explosão foi abafado e o estilhaçado de mil cristais. O museu estremece, e Sofia sente o chão desaparecer sob seus pés enquanto a luz e o vidro se tornam uma única tempestade.