20: Entre estilhaços

950 Words
O som da explosão não foi o rugido ensurdecedor que Sofia imaginara. Foi um estalo seco, seguido pelo lamento longo e agudo de mil painéis de vidro temperado estilhaçando-se simultaneamente. Por um momento, o mundo tornou-se uma chuva de diamantes letais sob a luz da lua. Sofia sentiu o impacto da onda de choque arremessá-la contra a grade de p******o do mezanino. A escuridão a envolveu antes que ela pudesse atingir o chão. Quando abriu os olhos, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo tique-tique rítmico dos estilhaços caindo como granizo sobre o metal. O cheiro de ozônio e poeira sufocava o ar. — Daniel? — A voz de Sofia saiu como um sussurro rouco, perdida na imensidão da galeria em ruínas. Ela tentou levantar-se, mas uma dor aguda no flanco a fez recuar. O mezanino não desabara totalmente, mas a escada de acesso desaparecera. Abaixo dela, no centro da galeria, a coluna principal ainda estava de pé, mas a base estava envolta em uma nuvem de fumaça cinzenta. — Daniel! — ela gritou com mais força, o pânico cortando sua garganta. Abaixo, entre os escombros de vidro e gesso, um vulto se moveu. Daniel emergiu da névoa, tossindo, o rosto coberto de fuligem e sangue. Ele estava vivo. Ele conseguira desarmar os detonadores principais a tempo; apenas as cargas secundárias de Eric haviam explodido, destruindo o revestimento e o vidro, mas deixando o coração de aço do museu intacto. — Estou aqui, Sofia! — Daniel gritou, olhando para cima. — Não se mova! O mezanino está instável! Mas os olhos de Sofia não estavam em Daniel. Eles estavam voltados para a borda do mezanino, alguns metros à sua direita. Eric Vandyke estava caído perto do precipício de metal. O detonador ainda estava preso em sua mão, mas ele não se movia. Sofia, ignorando a dor, rastejou em direção ao seu agressor. — Eric... — ela chamou. Ele estava vivo, mas a queda o atingira severamente. Um pedaço de vidro atravessara seu ombro e suas pernas estavam presas sob uma viga secundária que cedera. O homem que queria ser o "Arquiteto da Ruína" estava agora preso pela sua própria construção. Lá embaixo, as luzes das viaturas de polícia e das ambulâncias iluminavam os escombros, criando um balé de sombras azuis e vermelhas nas paredes nuas. — Deixe-o, Sofia! — Daniel gritou da base. — A estrutura pode ceder a qualquer momento! Saia daí! Sofia olhou para Eric. O ódio que ela sentira por meses, o medo que a paralisara, pareciam ter evaporado. Tudo o que restava era uma piedade profunda e terrível. — Daniel, ele está preso! Eu não posso deixá-lo aqui! — Sofia, ele tentou nos m***r! — A voz de Daniel carregava a urgência de um homem que sabia que o tempo estava acabando. — "Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer" — Sofia sussurrou para si mesma, citando o verso que sua mãe lia quando ela era pequena. Ela usou o que restava de suas forças para tentar alavancar a viga que prendia as pernas de Eric. Seus dedos sangravam enquanto ela puxava o metal. Eric abriu os olhos. Ele olhou para Sofia, e pela primeira vez, não havia arrogância. Havia apenas um vazio absoluto. — Por que... por que você está fazendo isso? — ele engasgou, o sangue escorrendo pelo canto da boca. — Porque eu não sou mais a Sofia que você conheceu, Eric — ela disse, fazendo força contra a viga. — O fundamento que eu encontrei não permite que eu te deixe no escuro. Com um último esforço, e com a ajuda de dois bombeiros que haviam acabado de subir por uma escada de resgate, a viga foi movida. Eric foi colocado em uma maca. Enquanto ele era baixado, ele olhou para o teto de vidro destruído. O museu estava aberto para as estrelas. Horas depois, na luz fria do amanhecer, Sofia e Daniel estavam sentados na traseira de uma ambulância, enrolados em cobertores térmicos. O museu estava cercado por fitas amarelas de isolamento. — O vidro se foi — Sofia disse, olhando para o esqueleto de aço. — Meses de trabalho, Daniel. Milhões de dólares em cristais. Tudo destruído. Daniel segurou a mão dela, entrelaçando seus dedos sujos de **. — O vidro era apenas a pele, Sofia. A estrutura aguentou. O fundamento não se moveu. Ele apontou para a coluna central. Apesar da explosão na base, ela permanecia ereta, sólida, sustentando o peso do que restara. — Eric queria que o prédio caísse para provar que a minha engenharia era falha e que o seu perdão era fraco — continuou Daniel. — Ele falhou nos dois. O prédio ficou de pé. E você salvou a vida dele. — Ele vai passar o resto da vida na prisão, não vai? — ela perguntou. — Provavelmente. Mas ele vai estar vivo para pensar no porquê de ter sido salvo pela mulher que ele mais odiava. Essa é a maior obra que você já projetou, Sofia. Não foi feita de vidro, mas de algo muito mais transparente. O Pastor Alberto e a mãe de Sofia chegaram ao local pouco depois. O reencontro, no meio dos escombros de Connecticut, foi o fechamento de um ciclo que começara dez anos antes. Não houve recriminações, apenas o abraço de uma família que aprendera que a perfeição é uma mentira, mas a restauração é uma promessa. Sofia está ali, olhando para o museu destruído e percebendo que a inauguração não seria adiada. Eles abririam as portas assim mesmo. Sem o vidro, sem o brilho, apenas com a estrutura exposta. Porque a memória não é sobre o que é bonito; é sobre o que sobrevive ao fogo.
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