capítulo 1
Era só mais uma noite no clube Sexy Love.
As luzes vermelhas iluminavam o salão, a música alta fazia o chão tremer e eu dançava como fazia todas as noites. Um sorriso no rosto, mesmo quando por dentro eu carregava histórias que ninguém ali conhecia.
Eu já tinha aprendido a separar a mulher que todos viam daquela que eu era quando estava sozinha.
Enquanto dançava, percebi um homem sentado no canto do salão. Ele não parecia como os outros clientes. Não gritava, não tentava chamar atenção. Apenas me observava em silêncio, como se tentasse entender quem eu realmente era.
A música acabou e, antes que eu pudesse voltar para o camarim, ele se aproximou.
Segurou minha mão com cuidado e fez um gesto para que eu o acompanhasse até o bar.
— Uma garrafa do melhor vinho — pediu ao funcionário.
Alguns minutos depois, seguimos para um dos quartos do clube.
Assim que entrei, fechei a porta atrás de mim.
O silêncio daquele lugar era diferente. Não havia música, nem olhares, nem pessoas fingindo.
Ele ficou parado me encarando.
Mas não era aquele olhar que eu conhecia.
Era como se ele estivesse tentando me decifrar.
— Você é muito linda para estar aqui — ele disse em voz baixa.
Eu soltei um pequeno sorriso, já acostumada com aquela frase.
— Eu já ouvi isso antes, senhor.
Ele franziu a testa.
— E você acredita?
A pergunta me pegou de surpresa.
Eu desviei o olhar, ajeitando o cabelo, tentando esconder o desconforto.
— Homens sempre dizem coisas bonitas quando querem alguma coisa.
Ele se aproximou um pouco, mas parou antes de chegar perto demais.
— Talvez eu não seja como os outros.
Eu ri sem humor.
— Todo homem diz isso também.
Pela primeira vez naquela noite, ele ficou sem resposta.
Porque talvez ele tivesse percebido uma coisa que ninguém percebia.
Por trás da maquiagem, do vestido e da mulher que todos achavam conhecer… existia alguém que ainda sonhava em ser vista de verdade.
A noite passou de uma forma que eu não esperava.
Eu já tinha vivido muitas noites naquele quarto, com homens que m*l sabiam meu nome e que iam embora antes mesmo do sol nascer.
Mas com ele foi diferente.
Alonso conversou comigo.
Ele perguntou sobre mim, ouviu minhas respostas e, pela primeira vez em muito tempo, eu não senti que era apenas alguém que estava ali para satisfazer outra pessoa.
Nossa noite foi leve.
Foi tranquila.
Foi diferente de tudo que eu estava acostumada.
Quando os primeiros raios de sol começaram a entrar pela janela, eu sabia que aquele momento tinha acabado.
Alonso se vestiu em silêncio e antes de sair olhou para mim.
— Você só atende aqui no clube?
A pergunta me pegou desprevenida.
Eu abaixei o olhar e respirei fundo antes de responder.
— Na verdade... eu estou tentando sair daqui.
Ele me encarou surpreso.
— Sair?
Assenti.
— Tenho só mais três meses para terminar meu contrato. Depois disso, quero atender na minha casa... apenas alguns clientes fixos que quiserem continuar comigo.
Falei aquilo baixo, como se as paredes tivessem ouvidos.
Alonso ficou me olhando por alguns segundos.
— Eu vou continuar.
Eu levantei os olhos para ele.
— Senhor...
Ele balançou a cabeça com um pequeno sorriso.
— Não me chama assim. Lembra?
Eu fiquei sem jeito.
— Certo... Alonso.
Ele sorriu ao ouvir o próprio nome sendo dito por mim.
Mas logo minha expressão ficou séria.
— Alonso, não comenta com ninguém sobre isso, por favor.
Ele percebeu o medo na minha voz.
— Por quê?
Eu olhei para a porta, nervosa.
— Porque eu sou a mulher mais cara desse clube. Se eles descobrirem que eu estou tentando sair daqui antes do fim do contrato... pode dar muito r**m para mim.
Pela primeira vez, ele viu algo além da dançarina, além da mulher que todos desejavam.
Ele viu o medo.
E naquele instante, Alonso percebeu que aquela mulher que parecia tão forte estava apenas tentando encontrar uma saída.
Então, lentamente, ele se aproximou e tocou meu rosto com cuidado.
Aquele gesto simples me pegou de surpresa.
Não era como os outros.
Não tinha pressa, não tinha cobrança.
— Eu não vou falar — ele disse baixo.
Eu procurei alguma mentira naquela expressão, algum sinal de que ele estava apenas dizendo aquilo para me tranquilizar.
Mas não encontrei.
Pela primeira vez, eu senti que alguém estava tentando me proteger.
Um pequeno sorriso apareceu no meu rosto.
— Obrigada...
Alonso passou o polegar pelo meu rosto e, antes de ir embora, se aproximou e me deu um beijo nos lábios.
Foi um beijo calmo, diferente de todos os outros que eu já tinha recebido naquele lugar.
Quando se afastou, ele ficou me olhando por alguns segundos.
— Amanhã eu volto, tá?
Meu coração acelerou de uma forma estranha.
Eu não estava acostumada a esperar alguém voltar.
Normalmente, as pessoas iam embora e eu esquecia seus rostos.
Mas Alonso parecia diferente.
Eu sorri de leve.
— Tá... eu vou te aguardar.
Ele saiu pela porta.
E quando ela se fechou, eu fiquei parada olhando para aquele quarto vazio.
Pela primeira vez em muito tempo, eu não pensei no dinheiro, no contrato ou na prisão que aquele lugar representava.
Eu pensei nele.
No homem que entrou naquele quarto como um cliente...
Mas saiu deixando a sensação de que talvez eu ainda pudesse ser vista como uma pessoa.