Clara pisou na cozinha com passos leves, o assoalho de madeira rangendo de leve sob seus pés descalços, como se a casa inteira já soubesse de cor o ritmo de suas manhãs. O ar ainda carregava o cheiro residual do jantar da noite anterior ,macarrão com molho de tomate que ela havia preparado às pressas, entre uma live e outra. Ela acendeu a luz suave do abajur na sala adjacente, o clique do interruptor ecoando no silêncio da casa adormecida. Depois, dirigiu-se à chaleira, medindo o pó com precisão mecânica, o aroma forte do café começando a se espalhar enquanto a água borbulhava. No balcão, pegou um post-its amarelo e rabiscou uma mensagem rápida: "Bom dia! Café pronto. " O sorriso desenhado com traços apressados, mas sinceros.
Do sofá da sala, Otávio nem se mexeu. Seus olhos estavam fixos em uma pilha de papéis espalhados sobre as coxas, a caneta bic mordiscada entre os dentes. A testa dele se franzia em sulcos profundos, como se cada linha daqueles relatórios fosse uma trincheira que ele cavava sozinho. Clara observou-o por um instante, o peito apertando de leve com aquela familiaridade desgastada. Ela se aproximou devagar, os pés roçando no tapete macio, testando o ar entre eles como quem mergulha o dedo na água de uma banheira para checar a temperatura.
"Otávio?", murmurou ela, a voz baixa para não acordar o resto da casa , ou talvez para não acordar a si mesma daquela rotina. Ele ergueu os olhos devagar, e um sorriso se formou em seus lábios, mas era um sorriso exausto, que m*l chegava às bordas dos olhos, deixando-os opacos como vidros embaçados.
"Ei, amor", respondeu ele, a voz rouca de quem havia passado a noite em claro. "Já acordada? Que horas são?"
"Cinco e meia. Como sempre." Clara se inclinou para frente, estendendo-se para tocar a bochecha dele, sentindo a aspereza da barba por fazer. Seus dedos traçaram uma linha suave ali, e ela se curvou mais, os lábios se aproximando dos dele em um gesto que era ao mesmo tempo rotina e súplica , um pedido mudo para que algo, qualquer coisa, reacendesse a faísca que parecia se apagar dia após dia.
No último segundo, Otávio virou o rosto, um movimento sutil, quase casual, como se estivesse apenas ajustando a posição no sofá. Seus olhos voltaram para os papéis. "Desculpa, Clara. Tô exausto. Foi uma noite daquelas no escritório. Só quero fechar os olhos um pouco antes de sair."
Ela congelou, os lábios pairando no ar vazio, o calor do rosto dele ainda ecoando na ponta dos dedos. O ar entre eles pareceu engrossar, carregado de uma frustração que ela conhecia bem demais. Há meses era assim: mais de um mês sem um toque de verdade, sem aquela proximidade que costumava ser o alicerce deles. Antes de Lucas entrar em cena, a culpa era dela , ou pelo menos era o que ela se convencia. "Eu pareço um trapo", pensara tantas vezes, olhando-se no espelho após uma live exaustiva, os cabelos emaranhados como ninhos de pássaros, as roupas folgadas escondendo o corpo que o cansaço mental havia inchado. As câmeras não mentiam: olheiras profundas, pele opaca, um peso invisível que a fazia se encolher.
Mas agora... agora era diferente. Desde que Lucas apareceu em seu feed, com suas mensagens leves e encorajadoras, algo mudara.
Lucas: "Ei, Clara, adorei o vídeo de hoje! Você tem um jeito de explicar as coisas que faz tudo parecer fácil", escrevera ele uma vez, e ela rira alto sozinha na cozinha, o som ecoando como algo novo. As conversas fluíam: "O que você acha dessa receita? Tenta e me conta!", respondia ela, e ele sempre voltava com uma foto do resultado, rindo de seus próprios erros. Aquilo a incentivaria a se arrumar de novo ,não para ele, ou pelo menos era o que dizia a si mesma. Escolhia blusas que realçaram a curva dos ombros, penteava os cabelos com ondas suaves, aplicava um batom discreto antes de gravar. Nos vídeos, seu sorriso surgia mais genuíno, os olhos brilhando com uma energia que ela havia esquecido.
E ali, com os lábios ainda formigando do beijo não dado, Clara sentiu algo inesperado brotar no peito: não o nó apertado de ansiedade que sempre a dominava nessas rejeições, mas uma calma estranha, como uma brisa fresca em um dia abafado. Ela recuou um passo, ajustando a alça da camisola que escorregoul
no ombro. "Tudo bem, vai lá. Descansa um pouco. Eu cuido do resto."
Otávio murmurou um "Obrigado, amor", sem erguer os olhos, ajeitando a manta sobre as pernas com um suspiro. Ele fechou os olhos, o rosto relaxando aos poucos, as rugas na testa suavizando como ondas se acalmando no mar. Clara observou-o por mais um momento, o peito subindo e descendo em um ritmo lento. Por dentro, porém, uma clareza cortante se instalava: não era só cansaço. Havia algo mais , um desvio no olhar dele durante o jantar na semana passada, uma risada prolongada ao telefone com uma "colega de trabalho". "Ei, Maria, você é hilária", ouvira ela de relance, e o tom era leve demais, familiar demais.
Ela se virou para a janela, pegando a xícara de café que esfriou no balcão. O líquido amargo desceu pela garganta, e ela fitou o reflexo no vidro escuro: os cabelos arrumados, os olhos alertas, uma postura ereta que não via em si mesma há meses. "E se for isso mesmo?", pensou, a voz interna ecoando como um diálogo consigo mesma. "E se ele estiver se interessando por outra? O que você sente, Clara? Raiva? Ciúme?" Mas não veio nada disso ,apenas uma curiosidade serena, como se observasse um experimento em um laboratório. "Interessante", murmurou para o reflexo, os lábios se curvando em um meio-sorriso. "Eu não me importo tanto assim."
Aquela indiferença a assustou, mas também a aliviou, como soltar um peso que carregava nas costas. Do outro lado da sala, Otávio ressonava de leve, a casa preenchida pelo tique-taque do relógio na parede, um som que parecia insistir em manter tudo no lugar. Clara ficou ali, encostada no parapeito, sentindo o ar fresco da manhã infiltrar-se pela fresta da janela. "Se ele for embora", pensou, sem dizer em voz alta, "eu ainda estarei aqui. Inteira." E isso, por mais apavorante que fosse, era libertador.
Os dias se arrastaram em uma rotina que ganhava camadas novas. Pela manhã, Clara preparava o café, mas agora adicionou um toque pessoal , uma fatia de pão torrado com geleia para si mesma, saboreando devagar enquanto checava as notificações. Lucas estava sempre lá: uma curtida rápida em sua postagem matinal, um comentário engraçado em um stories. "Bom dia! Esse café parece melhor que o meu. Você tem a Receita?", escreveu ele uma vez, e ela respondeu rindo: "Segredo de família: só amor e pó de café bom. Tenta e me diz!"
À tarde, durante uma pausa entre lives, o celular vibrou. Era ele: "Vi seu vídeo novo. Você tá radiante hoje! O que mudou?" Clara hesitou, os dedos pairando sobre o teclado. "Ah, nada demais. Só me sentindo mais eu mesma ultimamente." A resposta veio rápida: "Bom saber. Você merece isso. Ei, me conta mais sobre esse projeto que você mencionou. Soa incrível!"
As trocas se intensificaram, sutis como gotas de chuva que enchem um copo aos poucos. Ela postava uma foto de um livro que lia, e ele comentava: "Adoro esse autor! Qual parte você mais gostou?" Ela respondia: "Aquele capítulo sobre resiliência. Me fez pensar em muita coisa." E ele: "Resiliência é sua cara. Você é forte pra caramba, Clara."
Otávio, por sua vez, parecia cada vez mais distante. Uma noite, durante o jantar, ela tentou puxar conversa: "Como foi o dia no trabalho? Alguma novidade com aquela equipe nova?" Ele mastigou devagar, os olhos no prato. "Ah, normal. Marina apresentou uma ideia boa hoje. Rimos um bocado." Clara ergueu uma sobrancelha, mas a voz saiu neutra: "Marina? A do marketing?" Ele concordou, sem elaborar. "Sim, ela é ótima." E o silêncio se instalou, quebrado apenas pelo tilintar dos talheres.
Clara não pressionou. Em vez disso, sentiu aquela calma estranha novamente, como se observasse a cena de fora. "Interessante", pensou. "Ele nem percebeu que eu notei."
Um dia, impulsionada por um impulso novo, Clara tirou uma selfie no espelho do banheiro , maquiagem leve, sorriso amplo, os olhos brilhando sob a luz natural. Postou no feed: "Dia de me sentir viva!" As curtidas vieram aos montes, mas a de Lucas foi a primeira. E então, o comentário: "Que vontade de beijar essa boca."
Ela arregalou os olhos, o celular quase escorregando das mãos. O coração acelerou, um misto de choque e uma euforia que ela não esperava. "Lucas...", murmurou para si mesma, relendo as palavras. Respondeu, os dedos tremendo de leve: "Haha, ousado você, hein? Mas... obrigada pelo elogio." Ele rebateu quase imediatamente: "Não é ousadia, é verdade. Você é irresistível quando sorri assim."
O que viria a seguir? Clara sentiu o ar mudar ao seu redor, como se uma porta se entre abrisse. Ceder aos encantos de Lucas? Ou aquilo abalaria a amizade que construíam? As mensagens continuaram piscando na tela, mas as respostas, agora, carregavam um peso novo.
Você saberá nos próximos capítulos...