8. PLANILHAS E SUSSURROS

1143 Words
O celular de Clara vibrou sobre a mesa da cozinha, o brilho da tela mostrava uma nova mensagem de Lucas. Ela leu com os dedos pairando sobre o teclado antes de responder. No escritório, Otávio, seu marido, organizava papéis, o cursor piscando na tela do computador. Ele era o tipo de homem que encontrava conforto na precisão das planilhas, na margem bem fechada. Coordenador de projetos numa empresa de engenharia, sua rotina era ritmada: reuniões às nove, checagem de prazos ao meio-dia, revisões até o fim do expediente. Metódico, previsível, quase invisível em sua constância. Marina, transferida de outro setor, trouxe um contraste vibrante. Seu riso ecoava pela sala de reuniões, e o jeito como riscava o quadro branco com ideias ousadas desafiava a ordem que Otávio prezava. Era irritante e, ao mesmo tempo, magnética. Naquela manhã, ela se aproximou da mesa dele, o perfume doce, precedendo sua voz. “Otávio, viu os números do lote C?” perguntou, encostando-se à mesa com uma naturalidade que fez o ar parecer mais quente. “Vi, sim,” respondeu ele, olhos fixos no monitor. “Preciso ajustar o cronograma. As entregas vão se sobrepor.” “E se terceirizar a etapa dois?” sugeriu Marina, deslizando um tablet com anotações na direção dele. “Pode parecer maluco, mas testamos algo assim no outro setor. Funcionou.” Otávio ergueu o olhar, hesitante, e encontrou os olhos dela, brilhando com uma confiança que o desarmava. “Talvez… vou analisar,” murmurou, anotando algo no canto da tela. A partir daí, as barreiras começaram a ceder. Eles trocavam mensagens no chat do projeto fora do horário, tomavam café na copa, onde o vapor subia em espirais, e respondiam a “me ajuda com isso” às cinco da tarde. A linha entre colegas e cúmplices se desfocava. Marina, com sua espontaneidade, fazia Otávio flexibilizar; ele, com sua ordem, a equilibrava. Numa tarde, enquanto revisaram uma apresentação, Marina inclinou-se sobre a tela dele, o cabelo curto roçando o ombro. “Sério, essa solução é sua?” perguntou, o tom carregado de admiração. “É, mas você que viu o ponto fraco,” admitiu Otávio, rindo baixo, o som abafado pelo zumbido do ar condicionado. “Então é meio nosso,” disse ela, com um brilho nos olhos que ele não soube decifrar, mas que fez seu pulso acelerar. Em casa, Clara notava mudanças sutis. Otávio chegava mais tarde, os olhos perdidos em pensamentos que não compartilhavam. Mandava mensagens curtas, adiando jantares com um “reunião se estendeu” ou “trabalho puxado”. Ele começou a se arrumar mais: o perfume mais forte, a barba mais bem aparada, a camisa impecável. Clara observava, os dedos tamborilando na mesa, tentando convencer-se de que era só a rotina se ajustando. Uma noite, enquanto mexia no celular, Clara enviou uma mensagem a Otávio: Clara: Amor, como foi o dia? Tô fazendo aquele risoto que você gosta. Chega cedo? As setinhas azuis apareceram , ele visualizou. Minutos se passaram, a tela ficou escura. Nada. Clara franziu a testa, o peito apertando. Comparou, inevitavelmente, com Lucas. Mesmo chateado, ele respondia rápido, cada mensagem carregada de atenção, como se ela fosse a única pessoa no mundo. Otávio, por outro lado, parecia distante, preso em outro universo. Ela largou o celular, o risoto esfriando na panela. No escritório, a aproximação de Otávio e Marina ganhou contornos mais pessoais. Num almoço com colegas, numa terça morna, a conversa girava em torno de prazos e projeções. Entre um garfo e outro, Marina quebrou o ritmo, o tom leve mas direto. “E você, Otávio?” perguntou, enquanto o grupo silenciava, os olhos dela fixos no anel dele. “Por que nunca trouxe sua esposa pras festas da empresa?” Otávio riu, surpreso, com o garfo parado no ar. “Clara… ela não curte muito essas coisas,” disse com o tom hesitante. Na verdade, ele nunca a convidara, sempre alegando que as festas eram “só pra funcionários”. “Sério?” Marina inclinou-se, o vestido justo destacando as curvas, o sorriso quase provocador. “As esposas não deveriam acompanhar os maridos? Quer dizer, deve ser bom ter um refúgio na zona de conforto, né?” Otávio coçou a nuca, desconfortável. “Ela tem os afazeres dela. É mais… dona de casa, sabe?” “Dona de casa? Que legal,” disse Marina, o tom doce, mas com uma ponta de sarcasmo. “Mas me conta, como é? Quinze anos de casado, né? Ainda tem aquele fogo do começo, ou já virou rotina?” Os colegas voltaram a falar de trabalho, mas Marina baixou a voz, só para ele. “Eu moro sozinha. Gosto de sair, viver, sabe? Às vezes, queria alguém que me entendesse, que me envolvesse nos braços.” Otávio a olhou por um segundo a mais, o calor subiu pelo pescoço. “É, entendo,” disse, a voz rouca. “Você é bonita, vai encontrar alguém logo.” Ela sorriu, quase um desafio. “Quem eu quero, não sei se me quer,” disse, os olhos fixos nos dele. Otávio riu, desviando o olhar para o prato, a tensão disfarçada por uma piada sobre viagens de trabalho m*l planejadas. Quando voltaram ao escritório, algo havia mudado , não era amor, mas um flerte explícito, um jogo que ambos sabiam jogar. À noite, Otávio chegou tarde, com o relógio marcando quase meia-noite. Clara ouviu a chave na porta, os passos pesados no corredor. Ele jogou a mochila no canto, foi direto para o banheiro, o vapor do chuveiro escapando pela porta entreaberta. Quando se deitou, sem uma palavra, virou-se para o lado oposto, as costas uma muralha silenciosa. Logo, o ronco baixo preencheu o quarto. Clara ficou acordada, com os olhos fixos no teto, o celular ao lado com a mensagem não respondida. A atenção de Lucas, mesmo à distância, contrastava com o vazio ao seu lado. Aquilo a deixava cada vez mais pensativa, um nó de dúvida crescendo no peito. No dia seguinte, o chat do projeto trouxe uma mensagem de Marina: um print de uma ideia com um coraçãozinho e um “ótimo trabalho hoje, parceiro!” direcionado a Otávio. Ele hesitou, o polegar pairando sobre a tela, antes de responder com um emoji neutro. A hesitação durou segundos, mas carregava um peso maior , escolhas que começavam a se formar. Do lado de fora, a rotina seguia. Para Otávio, as linhas entre o profissional e o pessoal se borraram. Para Marina, era um jogo de validação, a conquista de um homem casado como um troféu. Para Clara, as peças do quebra-cabeça ainda se encaixavam, mas a imagem começava a revelar algo que ela não queria reconhecer. E o próximo passo? Um prazo apertado, horas extras, e uma decisão que pode estalar a superfície calma daquela casa. Continue acompanhando os próximos capítulos...
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