— O que você quer, menina? — ele perguntou, enfim, rompendo o cerco de palavras afiadas com uma pergunta direta, seca. — Quer me testar? Me provocar até onde pode antes de descobrir o que acontece quando passa do limite?
Ela deu de ombros, como quem rejeita qualquer responsabilidade pelo próprio veneno.
— Eu só estou sendo educada. É assim que se começa uma convivência, não?
Maurice soltou um leve riso, sem humor algum. Um som breve, mais parecido com um aviso.
— Convivência? Não se iluda. Você não está aqui para conviver. Está aqui porque era isso… ou desaparecer.
Por um segundo, apenas um, o olhar de Violeta vacilou. Uma sombra passou por seus olhos, como uma lembrança arranhando por dentro. Mas ela se recompôs rápido. Voltou a vestir o sarcasmo como uma armadura.
— Desaparecer pode ser tentador, às vezes.
— Não aqui. — A voz dele era definitiva. — Aqui, ninguém desaparece sem deixar rastro. E eu não lido bem com rastros.
Ela o encarou por mais um instante, depois desviou os olhos, como se já estivesse entediada com o discurso dele. Passou por ele e começou a subir os degraus da escada, os dedos deslizando despreocupados pelo corrimão.
— Vou escolher meu quarto, então. Ou tem um mapa para órfãs insolentes?
Maurice permaneceu onde estava, observando-a subir, cada passo um aviso de que aquela garota não era uma hóspede. Era uma bomba-relógio. E ele mesmo havia colocado o relógio para contar.
— Violeta Vilart — chamou, antes que ela sumisse no topo da escada.
Ela parou, sem se virar.
— Quarto à direita do corredor. Segunda porta. Trancada por dentro.
Ela se virou lentamente, surpresa pela informação.
— Está me vigiando desde antes de eu chegar?
— Eu mando nesta casa. Sei quem entra. Sei quem sai. E, principalmente, sei onde está o que pode me causar dor de cabeça.
Violeta riu, um som leve, quase encantador de tão impuro.
— Então prepare-se, parrain. Porque eu sou enxaqueca crônica.
E sumiu no corredor, deixando o ar mais pesado do que quando chegou.
Maurice permaneceu ali, diante da porta ainda aberta, como um homem que percebe tarde demais que trouxe para casa algo que nunca deveria ter se aproximado. Mas era tarde. Muito tarde.
Ela estava ali.
E ela era, definitivamente, um problema.
Ele fechou a porta com calma, trancando-a com um estalo surdo que reverberou pela madeira. No silêncio que se seguiu, Maurice encostou a testa na superfície fria. Suspirou. Um suspiro longo, de quem sabia que o caos recém-chegado não poderia mais ser contido — apenas administrado.
Lá em cima, Violeta abriu a porta indicada com um leve empurrão. O quarto não era grande, mas estava limpo, arrumado com um capricho que não condizia com o clima sombrio da casa. Lençóis impecáveis, cortinas pesadas, uma penteadeira antiga com espelho manchado pelo tempo. Ela caminhou até ele, encarou o próprio reflexo como quem reconhece um inimigo.
— Segunda chance, é? — murmurou, passando os dedos pelos cabelos soltos. — Vamos ver quanto tempo dura.
Sentou-se na beirada da cama, mas não relaxou. Permaneceu ereta, os olhos atentos à porta como se esperasse alguém — ou algo — invadi-la a qualquer momento. E talvez esperasse. Naquele mundo, ninguém oferecia abrigo sem cobrar o preço depois.
Do lado de fora, Maurice subia as escadas lentamente. Cada degrau uma decisão, cada passo uma recusa em se deixar enganar pela ironia delicada da jovem que acabara de chegar. Ele conhecia o tipo. Era o tipo que sorria com os olhos enquanto escondia uma lâmina sob a língua.
No topo da escada, parou diante da porta do quarto dela. Não bateu. Apenas falou, a voz baixa e firme:
— Amanhã, sete horas. Café na sala de pedra. E não se atrase. Odeio atrasos quase tanto quanto odeio surpresas.
— Que sorte a sua, então — ela respondeu do outro lado, a voz um murmúrio morno. — Porque eu sou as duas coisas.
Maurice não respondeu. Apenas se afastou.
E, naquela casa de pedra e silêncio, o primeiro jogo de guerra havia começado.
Maurice desceu as escadas em passos decididos, trocando o casaco escuro por outro mais discreto deixado no encosto da poltrona da entrada. Pegou a chave do carro, checou o relógio no pulso e saiu sem dizer mais uma palavra. Do lado de fora, o motorista já o esperava. O carro arrancou em silêncio, deslizando pela estrada que serpenteava até o núcleo principal das operações francesas. Ali, ele não era apenas Maurice — era Le Maître, o cérebro frio por trás de acordos silenciosos, desaparecimentos não explicados e decisões que sustentavam o império construído em silêncio.
Enquanto isso, Violeta continuava no quarto. Não tirou os sapatos e nem se deitou. Caminhava pelo espaço com o faro de quem reconhecia a ordem onde esperava encontrar o caos. Cada detalhe tinha um propósito. Cada objeto, uma função. Nada naquela casa era colocado por acaso.
Bateram à porta. Três batidas suaves, rítmicas. Sem esperar resposta, uma mulher entrou — cerca de cinquenta anos, cabelos presos num coque firme, avental claro sobre o vestido de tecido grosso.
— Sou Madeleine — disse, com o tom cortês de quem já viu mais do que gostaria. — Fui designada para cuidar da sua rotina. O senhor Maurice deixou instruções. A senhorita deve se apresentar à sala de leitura às dez. Depois, almoço. À tarde, aulas de etiqueta e francês. À noite, repouso.
Violeta arqueou uma sobrancelha.
— Isso aqui é uma casa ou um convento?
Madeleine não sorriu.
— É uma prisão de portas abertas, mademoiselle. E cabe à senhorita decidir se deseja fazer parte do que vem depois... ou sumir como os que não se adaptaram.
Violeta ficou em silêncio por um instante, depois deu de ombros, caminhando até a janela e abrindo-a devagar. O ar fresco da manhã invadiu o ambiente, mas não trouxe paz. Apenas a confirmação de que, ali, tudo tinha olhos. Tudo tinha ouvidos. E nada seria fácil.
— Mande servirem o café no quarto. Hoje, eu não estou com vontade de ser adestrada — disse sem olhar para Madeleine.
A mulher hesitou, mas assentiu com um leve movimento de cabeça.
— Apenas por hoje.
Quando Madeleine saiu, Violeta permitiu-se um breve sorriso. Não de vitória, mas de quem reconhece o campo minado sob os próprios pés.
E ela tinha escolhido dançar sobre ele.