Aquele dia inteiro passou sem que Violeta visse Maurice novamente — e, curiosamente, ela gostou disso. A ausência dele era como um respiro entre muros apertados, como uma sombra a menos em uma casa que já era pesada demais. No entanto, a trégua silenciosa não trouxe alívio por completo. Logo pela tarde, ela já estava entediada.
A casa era bela, mas soturna. Grandes janelas deixavam a luz entrar, mas nenhuma alegria. Os corredores eram longos, com portas fechadas e tapeçarias que abafavam qualquer som, como se até os ecos tivessem aprendido a se calar ali dentro. Os empregados passavam com discrição, rostos neutros e vozes contidas — jamais puxavam conversa. Era como se todos soubessem que qualquer palavra dita à menina de olhos desafiadores poderia ter consequências.
Violeta tentou explorar um pouco. Vasculhou os poucos livros da sala de leitura, mas todos pareciam escolhidos para alguém muito mais velho, ou muito menos inquieta. Livros de política europeia, economia criminal, genealogias francesas. Nenhum romance, nenhum mistério, nenhum caos fictício em que ela pudesse se perder. Também não havia televisão. Nem rádio. Nem música. Nada que vibrasse ou desafiasse.
Suspirou, largando-se em uma das poltronas duras da biblioteca, os pés jogados sobre o braço do móvel como se testasse os limites invisíveis da casa.
— No orfanato pelo menos tinha as outras órfãs — murmurou para si mesma, olhando o teto. — Mesmo que fossem umas chatas, era melhor que falar sozinha.
Ali, nem isso. Na casa de Maurice, a solidão tinha paredes grossas, e até o tédio parecia fazer parte da rotina meticulosamente imposta. Não havia uma risada, uma briga, um sussurro fora do script. Tudo parecia suspenso, como se todos aguardassem algo — ou alguém — para estourar a tensão acumulada no ar.
E, ironicamente, ela sabia que esse alguém era ela.
Mas por enquanto, Violeta apenas esperava. Encurralada em liberdade, dentro de uma gaiola muito mais elegante do que o orfanato, mas ainda assim… uma gaiola.
Na manhã seguinte, a casa despertou como sempre: pontual, silenciosa, disciplinada. O relógio marcava sete horas em ponto quando Madeleine, fiel ao que lhe fora ordenado, subiu os degraus em passos comedidos e bateu à porta do quarto de Violeta. Três toques. Depois mais dois.
Silêncio.
— Mademoiselle? — chamou, com a voz contida, mas firme. — Está na hora do café. O senhor Maurice foi claro quanto ao horário.
Nada.
Madeleine tentou a maçaneta. Trancada. Franziu o cenho. Bateu mais forte, o tom um pouco mais carregado de autoridade:
— Violeta, abra a porta. O atraso não será bem-visto.
Do outro lado, o som abafado de um travesseiro sendo puxado e jogado — talvez contra a parede. Depois, algo que soou como um “vai embora” m*l articulado entre bocejos.
A senhora suspirou fundo, contendo a contrariedade que lhe subia à garganta. Desceu de volta ao térreo com a postura impecável, mas por dentro algo fervia. Ela não era de entregar ninguém — nunca fora. Criada sob o lema da discrição absoluta, aprendera a apagar incêndios em silêncio. Mas aquilo… aquilo era diferente. Maurice não era um homem comum. E aquela garota não era apenas uma hóspede malcriada.
Ao chegar ao saguão, encontrou Maurice já à mesa. Sozinho. O jornal dobrado ao lado do café, mas ele nem sequer tocara na bebida. O olhar fixo no vazio à frente, como se já soubesse que algo estava errado.
— Madeleine — disse, antes que ela abrisse a boca — ela não desceu.
— Não, senhor — respondeu a mulher, séria. — Pior que isso. Trancou-se. E se recusa a abrir a porta.
Maurice apoiou os cotovelos sobre a mesa, os dedos entrelaçados sob o queixo. A mandíbula dele travou. Os olhos, que segundos antes estavam distantes, agora ardiam com impaciência m*l contida.
— Eu dei uma instrução simples — murmurou, como quem falava consigo mesmo. — Sete horas. Sala de pedra. Nada além disso. Nem exigências, nem esforços. Apenas presença.
— Ela ignora que o senhor é o tipo de homem que não tolera repetição de erros — comentou Madeleine, com o pesar de quem conhecia a natureza volátil daquela casa.
Maurice levantou-se. Devagar. Como uma fera que desperta do torpor com a certeza de que precisará caçar para reafirmar domínio. Alisou a lapela do paletó e caminhou com passos contidos até o hall.
— Que permaneça trancada, então — disse por fim, com a voz baixa e perigosa. — Mas vamos ver quanto tempo uma garota como ela aguenta sem atenção, sem comida, e sem controle.
Ele subiu sem pressa, mas cada degrau parecia ecoar a promessa de que a próxima conversa entre os dois não seria tão civilizada quanto a primeira.
Maurice não precisou fazer muito esforço.
Um único chute, firme e preciso, arrombou a porta com um estalo seco que ecoou pelo corredor como um trovão. A madeira cedeu sob o peso da autoridade que ele carregava nos ombros — não só como o dono da casa, mas como alguém que não admitia desobediência. Cada passo que deu para dentro do quarto era uma sentença. Ele havia subido preparado para fazer Violeta se arrepender de tanto atrevimento. De tanta provocação. De tanta ousadia em desafiar suas ordens como se a casa fosse dela.
Mas ele quem se arrependeu.
Assim que seus olhos cruzaram a penumbra do quarto, estacou.
Violeta estava deitada de bruços, completamente nüa sobre os lençóis escuros, os cabelos espalhados em ondas negras e douradas que contrastavam com a palidez insinuante de sua pele. Um dos braços descansava sob o travesseiro, e a outra mão pendia da lateral da cama como se dormisse em um mundo próprio, alheia a tudo — inclusive ao estrondo que abrira sua porta.
Ela não se moveu.
Maurice, por um instante que não podia se permitir admitir, sentiu o tempo parar. O sangue correr mais denso nas veias. Uma imagem assim deveria provocar fúria — e provocava. Mas não do tipo que ele esperava. Violeta parecia ter feito aquilo de propósito. Um desafio silencioso. Um território marcado com o próprio corpo, um recado sem palavras: “Aqui, quem manda sou eu.”
Ele fechou os olhos por um segundo, apenas para recuperar o controle. Quando os abriu, não havia mais tempestade — havia gelo. Frio. Preciso.
Virou-se sem uma palavra, os passos duros e contidos, descendo os mesmos degraus que subira com a intenção de puni-la. Mas agora, carregava um peso que não esperava: a certeza de que, naquela guerra invisível, ela já começava a vencê-lo onde ele era mais forte — no domínio do poder.
E pior: ela sabia disso.