Violeta tinha ouvido o barulho da porta se arrebentando, sim. Cada estilhaço de madeira ecoou em sua espinha como uma corrente elétrica — mas ela permaneceu imóvel, quieta, respirando com cuidado para não trair o jogo. Sabia que Maurice estava ali, sentia sua presença preenchendo o quarto como uma sombra viva. E mesmo assim, não se mexeu. Fingiu dormir. Fingiu não se importar.
Quando ele finalmente saiu, os passos pesados e contidos, ela só então permitiu que os lábios esboçassem um quase sorriso. Não de triunfo, mas de reconhecimento: a guerra começara.
Maurice desceu em silêncio, cada degrau soando como um insulto engolido. Ao chegar ao salão, foi direto ao aparador de cristal. As mãos frias, mas o pulso tenso. Serviu-se de uma dose generosa de uísque — não qualquer uísque, mas aquele que ele reservava para noites longas e decisões importantes.
O primeiro gole queimou a garganta. O segundo não ajudou a apagar a imagem. Violeta, nüa sobre os lençóis, oferecida e inalcançável ao mesmo tempo. A lembrança era uma afronta, uma provocação ardente em sua mente acostumada ao controle. E isso o enfurecia mais do que a desobediência dela.
Sentou-se na poltrona de couro escuro, a taça ainda entre os dedos, e fechou os olhos por um instante. O gosto dela estava ali — não na boca, mas na memória. Como se aquele corpo que ele não tocou tivesse deixado um rastro em sua pele, no seu orgulho, na sua vontade.
Mais um gole. Menos equilíbrio. E o pensamento que se impôs, inevitável e perigoso: Ela não é só uma menina rebelde.
Maurice ainda estava na sala, de pé, encarando o copo de whisky como se o âmbar da bebida pudesse apagar a imagem que queimava em sua memória. O silêncio era cortante, e o gelo dentro do copo já havia se rendido ao calor do ambiente — e da ira contida nele. Ele bebera rápido, como quem tenta afogar um pensamento, mas era inútil. A imagem de Violeta, nüa, entregue e desafiadora, continuava ali, pairando entre seus olhos e a parede à frente.
Foi quando os passos calmos de Madeleine ecoaram discretos pelo chão de madeira. Ela surgiu com a postura impecável de sempre, as mãos entrelaçadas diante do avental claro, os olhos discretamente atentos, mas firmes. Maurice não precisou chamá-la — ela sabia que era o momento de intervir.
— Senhor Maurice — disse ela, com a voz baixa, quase maternal —, vim porque sei que o senhor está... perturbado.
Ele virou o rosto em sua direção com lentidão. O maxilar ainda tenso, a respiração controlada por pura disciplina. Madeleine era a única pessoa naquela casa que ousava falar com ele daquela forma. Não por i********e, mas por respeito conquistado em anos. Ela estava ali desde sempre, parecia — antes mesmo de os móveis ganharem poeira e os corredores perderem sons.
— Quero que arranque aquela garota da cama — ele disse, seco. — Traga-a até aqui. Não importa como. Vista, descalça, gritando ou chorando. Mas traga. Agora.
Madeleine permaneceu em silêncio por um momento. Depois respirou fundo, como quem ponderava a melhor forma de ensinar algo a um homem que todos temiam, mas que, aos seus olhos, ainda precisava aprender.
— Senhor... com todo o respeito que lhe devo e lhe tenho... Violeta é só uma menina. Uma menina insolente, sim, atrevida até os ossos, mas só isso: uma garota que nunca teve uma casa. Uma família. Alguém pra mandar nela com afeto.
Maurice franziu o cenho, mas não a interrompeu. E isso, naquela casa, era um privilégio raro.
— Ela foi jogada num orfanato como quem joga um trapo velho — continuou Madeleine. — Cresceu lutando para existir. Agora está tentando chamar sua atenção da única forma que conhece: desafiando. Cutucando. Fingindo que não precisa de ninguém. Mas precisa. Do senhor, sobretudo.
Ele virou o rosto, encarando o copo de whisky vazio.
— Ela não é sua inimiga, Maurice — Madeleine completou, com doçura grave. — É só uma alma que ainda não sabe como se proteger sem parecer selvagem.
Ela hesitou por um instante, depois baixou o olhar, como se deixasse escapar algo íntimo demais.
— Eu entendo essa fase. Tenho uma filha da idade dela. Sol. Às vezes acho que vou enlouquecer com os rompantes, os gritos, os silêncios. Mas é só medo. Tudo isso é só medo m*l disfarçado.
O silêncio caiu de novo. Maurice não respondeu. Apenas apertou o copo nas mãos, os nós dos dedos brancos. O peso daquelas palavras o atingia em camadas — e ele sabia disso.
Madeleine então se afastou, com a dignidade de quem nunca abaixa a cabeça, mas sempre respeita os limites. Na porta, antes de sair, disse apenas:
— Tenha paciência com ela, senhor. Porque, querendo ou não... a única pessoa que Violeta tem na vida agora é o senhor.
E então, desapareceu pelo corredor, deixando Maurice diante da lareira, finalmente sem palavras.
Como Dom, Maurice sabia exatamente o que deveria ter feito. O certo — ou ao menos o que lhe haviam ensinado a fazer — era invadir aquele quarto, arrancar Violeta pela força daquela cama e deixá-la de pé diante dele, sem espaço para desafio, sem tempo para insolência. Mostrar a ela quem mandava. Reafirmar que o poder naquela casa — naquele mundo — era exclusivamente dele. Ele era o dono. Da casa. Do nome. Da estrutura. De tudo. Até dela.
Mas não conseguiu.
Não com ela daquele jeito.
Na hora em que seus olhos cruzaram aquela visão crua, despida de qualquer proteção ou vergonha, a racionalidade de Dom e a brutalidade do poder esbarraram em algo que Maurice ainda não conseguia explicar. Violeta, nüa, entregue e provocadora, era também... frágil. Não em corpo, mas em essência. Era uma garota. Uma garota ferida, moldada no abandono, que agora tentava dominar o jogo apenas porque nunca aprendera a ser amada sem lutar.
Ele não podia tocá-la naquele estado. Não com raiva. Não por imposição. E isso o enraivecia ainda mais. O homem que comandava cidades, que decidia destinos com uma palavra, estava preso entre a honra e o desej0. Entre o poder e a consciência.
Madeline, com sua sabedoria silenciosa, pedira que ele tivesse paciência. Que respirasse. Que deixasse a menina entender, por si só, onde era o lugar dela. E Maurice, contra tudo o que costumava ser, ouviu.
Foi por isso que decidiu ir até o polo da máfia naquela manhã fria.Talvez ocupando a mente com questões da família Francesa, negócios, ameaças e acordos, conseguisse sufocar — nem que fosse por algumas horas — a imagem de Violeta estendida em seus lençóis, com aquele corpo que parecia esculpido à mão, moldado na exata medida de sua perdição. Um corpo que perturbava sua razão e afrontava sua autoridade.
Ele precisava se afastar. Porque se ficasse, não garantiria que conseguiria continuar sendo apenas Maurice. E o Dom... o Dom jamais poderia perder o controle.