Relembrando Promessa

1011 Words
Quando Maurice chegou ao polo da máfia, os corredores estavam silenciosos, mas a movimentação nos bastidores denunciava que os assuntos do dia não seriam simples. Sem trocar palavras com ninguém, ele cruzou o saguão principal e foi direto até a sala de Henzo, seu melhor amigo e subchefe da máfia Francesa — o único homem em quem confiava de verdade, o único que conhecia os bastidores do seu temperamento com precisão cirúrgica. Henzo estava recostado em uma poltrona de couro, a expressão despreocupada contrastando com os relatórios que analisava. Assim que viu Maurice, ergueu uma sobrancelha e puxou uma garrafa de uísque da prateleira atrás de si, como quem já previa a tempestade. Serviu o amigo sem dizer uma palavra. Maurice tomou a dose de uma vez, como quem precisa queimar os pensamentos de dentro para fora. Henzo observou com aquele sorriso de canto que o acompanhava desde a juventude — irônico, afiado, mas sempre leal. Esperou apenas alguns segundos antes de provocar: — Me diz que esse nervosismo todo não é só por causa da menina que está na sua casa. Maurice apertou o copo na mão, e o gelo estalou no fundo da taça. "Menina?", ele pensou. Aquilo era um insulto à verdade. O corpo de Violeta, sua presença crua, o modo como enfrentava o mundo e o próprio medo... não, ela não era uma menina. Era o tipo de mulher que se tornava veneno para um homem como ele. — Precisamos casar ela o quanto antes — disse Maurice, encarando o vidro âmbar com firmeza. — Antes que tudo piore. Henzo soltou uma risada seca, mais um suspiro de incredulidade do que deboche. — Cara, você está procurando o cara perfeito pra garota. E na máfia... não existe "perfeito". A gente não casa por amor, nem por vontade. Casa pra manter poder, unir famílias, garantir a próxima geração. Você sabe disso melhor do que ninguém. Maurice não respondeu. A verdade era que ele sabia, sim. Só que, com Violeta, o jogo parecia querer mudar as regras. Henzo se levantou, andando até a janela antes de soltar, sem rodeios: — Tem o filho de Matteo. É uma carta forte, Maurice. Jovem, obediente, sangue limpo... ainda conseguiríamos fazer uma boa aliança com o Norte. Maurice virou-se de imediato, como se a simples menção daquele nome o incomodasse mais do que deveria. O tom da sua voz veio carregado de uma fúria contida: — Não. Ele, não. Henzo cruzou os braços e o olhou de lado, com aquela calma irritante que usava quando queria provocar reações. — Então quem? — rebateu, com frieza. — Ela não tem sobrenome, Maurice. A única razão dela ser tolerada por aqui é porque todo mundo acredita que seja sua sobrinha. E mesmo assim, já tem gente murmurando. Você sabe o que dizem do pai dela. Maurice apertou os punhos. A respiração dele ficou pesada. Não era fácil ouvir aquilo. — O pai dela não era um traidor — respondeu, com os dentes cerrados. — Ele salvou a minha vida. Morreu me protegendo. Henzo assentiu lentamente, os olhos atentos. — Eu e você sabemos disso. Mas o conselho não vê assim. Pra eles, ele traiu seu pai. E por isso os dois morreram naquela emboscada. Essa história já foi escrita, Maurice. A verdade nunca teve espaço entre as versões oficiais. O silêncio que se instalou ali foi denso, quase físico. Maurice deu um passo para longe, como se precisasse distância da própria impotência. Depois, murmurou: — Eu não vou sacrificar a Violeta por uma mentira. Henzo bufou, com um riso amargo. — Você fala como se tivesse escolha. Tá esquecendo que tá criando uma bomba-relógio dentro da sua própria casa? Aquela garota... não vai ficar invisível por muito tempo. E quando o conselho resolver olhar de perto, ou ela some, ou ela casa. De preferência com alguém útil. Maurice virou-se com olhar de aço. — Ela não é moeda de troca. Henzo se aproximou devagar, como quem pisa em território minado. — Então o que ela é? Maurice respirou fundo, buscando palavras que nem ele parecia entender completamente. Passou a mão pelos cabelos, irritado, e respondeu: — Ela está sob a minha proteção. É só isso. Não vou entregá-la pra qualquer um como se fosse uma mercadoria. Henzo ergueu uma sobrancelha. — Você fala dela como se já fosse alguma coisa. Mas, Maurice... ela m*l chegou. Você m*l a conhece. — Justamente por isso — retrucou Maurice. — Ela está vulnerável. Sem nome, sem pai, sem chão. Se eu permitir que a obriguem a casar, vai ser como se enterrasse o que restou da história dele. Henzo encostou-se na parede, os olhos semicerrados, avaliando o amigo com atenção. — Então o que você sugere? Porque o conselho não vai esperar você descobrir quem ela é no tempo que quiser. O sangue dela é uma ameaça pra eles, Maurice. Ela é filha de um homem marcado como traidor. E, agora, está na sua casa, sendo vista como sua protegida. Isso já é mais do que eles toleram. Maurice apertou o maxilar, engolindo a irritação. — Só preciso de tempo. Nada mais. Henzo soltou um suspiro pesado, balançando a cabeça devagar. — Tempo, nesse jogo, é artigo de luxo. E você está pedindo por ele como se o mundo fosse te dar. Maurice se virou de costas, o olhar distante, mas firme. — Se o mundo não me der, eu tomo. Maurice pegou o copo novamente, virou um gole de uísque e deixou queimar devagar, como se precisasse daquela dor para manter os pés no chão. Seu olhar endureceu, mas a voz saiu baixa, quase como uma confissão: — Naquele dia... eu deveria ter morrido no lugar do pai da Violeta. Henzo se calou, sentindo o peso das palavras. Maurice não piscava, como se visse outra cena além daquela sala. — Ele dizia que seria minhas costas quando eu precisasse... mas foi bem mais do que isso. Ele foi meu peito — disse Maurice, com a voz rouca —... foi ele quem recebeu aquela bala por mim.
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