Quando Maurice chegou ao polo da máfia, os corredores estavam silenciosos, mas a movimentação nos bastidores denunciava que os assuntos do dia não seriam simples. Sem trocar palavras com ninguém, ele cruzou o saguão principal e foi direto até a sala de Henzo, seu melhor amigo e subchefe da máfia Francesa — o único homem em quem confiava de verdade, o único que conhecia os bastidores do seu temperamento com precisão cirúrgica.
Henzo estava recostado em uma poltrona de couro, a expressão despreocupada contrastando com os relatórios que analisava. Assim que viu Maurice, ergueu uma sobrancelha e puxou uma garrafa de uísque da prateleira atrás de si, como quem já previa a tempestade. Serviu o amigo sem dizer uma palavra.
Maurice tomou a dose de uma vez, como quem precisa queimar os pensamentos de dentro para fora. Henzo observou com aquele sorriso de canto que o acompanhava desde a juventude — irônico, afiado, mas sempre leal. Esperou apenas alguns segundos antes de provocar:
— Me diz que esse nervosismo todo não é só por causa da menina que está na sua casa.
Maurice apertou o copo na mão, e o gelo estalou no fundo da taça. "Menina?", ele pensou. Aquilo era um insulto à verdade. O corpo de Violeta, sua presença crua, o modo como enfrentava o mundo e o próprio medo... não, ela não era uma menina. Era o tipo de mulher que se tornava veneno para um homem como ele.
— Precisamos casar ela o quanto antes — disse Maurice, encarando o vidro âmbar com firmeza. — Antes que tudo piore.
Henzo soltou uma risada seca, mais um suspiro de incredulidade do que deboche.
— Cara, você está procurando o cara perfeito pra garota. E na máfia... não existe "perfeito". A gente não casa por amor, nem por vontade. Casa pra manter poder, unir famílias, garantir a próxima geração. Você sabe disso melhor do que ninguém.
Maurice não respondeu. A verdade era que ele sabia, sim. Só que, com Violeta, o jogo parecia querer mudar as regras.
Henzo se levantou, andando até a janela antes de soltar, sem rodeios:
— Tem o filho de Matteo. É uma carta forte, Maurice. Jovem, obediente, sangue limpo... ainda conseguiríamos fazer uma boa aliança com o Norte.
Maurice virou-se de imediato, como se a simples menção daquele nome o incomodasse mais do que deveria. O tom da sua voz veio carregado de uma fúria contida:
— Não. Ele, não.
Henzo cruzou os braços e o olhou de lado, com aquela calma irritante que usava quando queria provocar reações.
— Então quem? — rebateu, com frieza. — Ela não tem sobrenome, Maurice. A única razão dela ser tolerada por aqui é porque todo mundo acredita que seja sua sobrinha. E mesmo assim, já tem gente murmurando. Você sabe o que dizem do pai dela.
Maurice apertou os punhos. A respiração dele ficou pesada. Não era fácil ouvir aquilo.
— O pai dela não era um traidor — respondeu, com os dentes cerrados. — Ele salvou a minha vida. Morreu me protegendo.
Henzo assentiu lentamente, os olhos atentos.
— Eu e você sabemos disso. Mas o conselho não vê assim. Pra eles, ele traiu seu pai. E por isso os dois morreram naquela emboscada. Essa história já foi escrita, Maurice. A verdade nunca teve espaço entre as versões oficiais.
O silêncio que se instalou ali foi denso, quase físico. Maurice deu um passo para longe, como se precisasse distância da própria impotência. Depois, murmurou:
— Eu não vou sacrificar a Violeta por uma mentira.
Henzo bufou, com um riso amargo.
— Você fala como se tivesse escolha. Tá esquecendo que tá criando uma bomba-relógio dentro da sua própria casa? Aquela garota... não vai ficar invisível por muito tempo. E quando o conselho resolver olhar de perto, ou ela some, ou ela casa. De preferência com alguém útil.
Maurice virou-se com olhar de aço.
— Ela não é moeda de troca.
Henzo se aproximou devagar, como quem pisa em território minado.
— Então o que ela é?
Maurice respirou fundo, buscando palavras que nem ele parecia entender completamente. Passou a mão pelos cabelos, irritado, e respondeu:
— Ela está sob a minha proteção. É só isso. Não vou entregá-la pra qualquer um como se fosse uma mercadoria.
Henzo ergueu uma sobrancelha.
— Você fala dela como se já fosse alguma coisa. Mas, Maurice... ela m*l chegou. Você m*l a conhece.
— Justamente por isso — retrucou Maurice. — Ela está vulnerável. Sem nome, sem pai, sem chão. Se eu permitir que a obriguem a casar, vai ser como se enterrasse o que restou da história dele.
Henzo encostou-se na parede, os olhos semicerrados, avaliando o amigo com atenção.
— Então o que você sugere? Porque o conselho não vai esperar você descobrir quem ela é no tempo que quiser. O sangue dela é uma ameaça pra eles, Maurice. Ela é filha de um homem marcado como traidor. E, agora, está na sua casa, sendo vista como sua protegida. Isso já é mais do que eles toleram.
Maurice apertou o maxilar, engolindo a irritação.
— Só preciso de tempo. Nada mais.
Henzo soltou um suspiro pesado, balançando a cabeça devagar.
— Tempo, nesse jogo, é artigo de luxo. E você está pedindo por ele como se o mundo fosse te dar.
Maurice se virou de costas, o olhar distante, mas firme.
— Se o mundo não me der, eu tomo.
Maurice pegou o copo novamente, virou um gole de uísque e deixou queimar devagar, como se precisasse daquela dor para manter os pés no chão. Seu olhar endureceu, mas a voz saiu baixa, quase como uma confissão:
— Naquele dia... eu deveria ter morrido no lugar do pai da Violeta.
Henzo se calou, sentindo o peso das palavras. Maurice não piscava, como se visse outra cena além daquela sala.
— Ele dizia que seria minhas costas quando eu precisasse... mas foi bem mais do que isso. Ele foi meu peito — disse Maurice, com a voz rouca —... foi ele quem recebeu aquela bala por mim.