Ligação inesperada

1111 Words
Por um instante, o silêncio preencheu tudo. Maurice parecia ter voltado àquele dia, à poeira, ao som seco do disparo, à queda. Quando falou de novo, havia algo de quebrado em sua firmeza: — Foi a única coisa que ele me fez prometer. Que eu cuidaria da filha dele... e arrumaria um bom casamento pra ela. Virou-se então para Henzo, os olhos escuros, mas firmes: — Eu falhei, Henzo. Falhei. Eu a deixei em um orfanato... ao invés de cuidar dela como devia. Henzo respirou fundo, tentando aliviar a culpa do amigo: — Você esteve sempre por perto, Maurice. Garantiu que ela tivesse proteção, recursos. Nunca abandonou de verdade. — Não como o pai dela gostaria — respondeu Maurice, amargando cada palavra. — E eu não posso falhar de novo. Não posso entregar ela a qualquer um. O filho de Matteo será uma cópia dele... e pai nenhum gostaria de ver uma filha com aquele tipo de gente. Fez uma pausa, e então completou, a voz mais firme: — Não é por ela. É por ele e dessa vez, precisa ser sem mais falhas. Henzo o encarou em silêncio por alguns segundos, e pela primeira vez naquela conversa, não tinha resposta imediata. Nos dias que se seguiram, Maurice fez de tudo para evitar Violeta. Saía de casa antes mesmo do sol nascer, ocupado com reuniões inadiáveis, inspeções nos polos, ou compromissos com o conselho. À noite, retornava tarde, muitas vezes depois da meia-noite, com passos firmes e silenciosos, indo direto para o próprio quarto sem acender as luzes do corredor. Violeta, por sua vez, também não fazia questão de cruzar com ele. Passava o dia recolhida entre os livros da biblioteca, os treinos silenciosos no estúdio de armas ou os banhos demorados no ofurô do andar inferior. Quando ouvia o som da porta principal se abrindo, seu corpo enrijecia, os sentidos alertas — mas relaxava ao perceber que ele não se dirigia a ela. Curiosamente, ambos agradeciam por isso. Aquela ausência parecia um alívio. Ele por não ter que encarar os olhos da menina que havia jurado proteger e sentia ter traído. Ela por não ter que lidar com o homem que a olhava como um dever e a deixava com o estômago revirado por razões que ainda não compreendia. Era uma dança muda de distância, onde cada passo para longe parecia mais fácil do que admitir o que realmente os aproximava. Em um dia comum, com o céu encoberto e o ar pesado nos corredores da sede da máfia francesa, Maurice estava mergulhado em documentos sobre as últimas operações. O silêncio de seu gabinete era absoluto, cortado apenas pelo som ritmado da caneta riscando o papel. Foi quando uma batida hesitante na porta interrompeu o fluxo. A secretária entrou cautelosa, a voz quase sumindo: — Senhor Maurice... há uma ligação pra você na linha três. Ele não levantou os olhos. A voz saiu dura, cortante: — Eu não disse que estava com uma documentação importante e que não queria ser atrapalhado? A mulher congelou no lugar, engolindo seco, visivelmente assustada. Nesse momento, Henzo entrou com sua calma habitual, ajustando o paletó ao atravessar a porta. Viu a cena e interveio com um leve sorriso, a voz suave, mas firme: — Pode ir, Cássia. Passe a ligação, Maurice vai atender. E obrigado. A mulher assentiu com um leve aceno e saiu quase correndo, aliviada por escapar da tensão que pairava no ar. Maurice soltou os papéis na mesa com violência, o maxilar travado. — Minha vontade é socar a sua cara, Henzo. Já falei que não quero falar com ninguém, caralh0! O telefone do escritório começou a tocar, o som estridente ecoando entre eles. Henzo sentou-se com calma diante do amigo, descruzando o paletó, como se o peso da tensão alheia não o afetasse. — Atenda o telefone, Maurice — disse com uma calma desconcertante. — É a Madeline. Maurice franziu o cenho, a expressão endurecendo com a surpresa. — Madeleine? — repetiu, como se o nome carregasse um gosto de preocupação ou, no mínimo, inesperado. Madeleine nunca havia ligado para ele. Nunca. Todos os anos em que servira lealmente à família, mesmo com a proximidade e os vínculos silenciosos de respeito mútuo, ela jamais havia atravessado a linha direta para ele, até porque nunca precisou. Aquilo era estranho — e Maurice detestava coisas fora do lugar. Henzo cruzou uma perna sobre a outra, os olhos atentos à reação do amigo. — Ela me ligou pedindo que você atendesse o telefone. Maurice girou lentamente a cadeira, desviando o olhar para a janela, como se procurasse uma resposta no céu encoberto. — E o que ela quer? — perguntou com desconfiança, a voz mais baixa, mas ainda ríspida. Henzo deu um leve sorriso, inclinando-se para frente como quem oferece um conselho óbvio: — Se você atender, vai saber. O telefone seguia tocando, insistente, como se também soubesse que aquela ligação não era comum. Maurice apertou o maxilar e pegou o telefone com força, atendendo com a voz firme, mas controlada: — Oi, Madeleine. — Maurice — ela respondeu do outro lado, a voz um pouco trêmula. Ela raramente o chamava de senhor — na verdade, quase nunca. Desde que ele havia pedido que o tratasse assim, como sinal de confiança mútua, ela o fazia. Mas a ligação dela acendeu um alerta imediato. — O que aconteceu? — ele perguntou direto, sem perder tempo com formalidades. Houve uma breve hesitação do outro lado da linha antes da resposta. — É a Violeta… ela não está bem. Está pálida, com febre e... fraca. Eu tentei acalmar, mas ela desmaiou agora há pouco. Precisa de um médico, e eu simplesmente não consigo contato com o médico da máfia. Ninguém me atende. A mão de Maurice apertou ainda mais o telefone. O ar pareceu rarefeito por um segundo. Ele sentiu o sangue ferver nas veias. — Estou indo. — foi tudo o que disse, já se levantando. Maurice sabia por que Madeleine não havia conseguido falar com o médico da máfia. O homem estava incomunicável — confinado no galpão, esperando seu destino. Tinha traído a organização, vazado informações que jamais deveriam ter saído dos corredores silenciosos do polo, e agora serviria de exemplo. Na máfia, erros não eram corrigidos com advertências, mas com consequências. O médico havia jurado lealdade, e quebrou esse juramento. Maurice já havia decidido que ele não sairia daquele galpão andando. Maurice apenas olhou para Henzo, sem expressar mais palavras do que o necessário. A urgência na sua voz era clara, e, com um simples gesto, disse: "Preciso ir." Henzo sabia o que aquilo significava. Não havia espaço para mais perguntas ou hesitações.
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