Sarah fechou a porta do quarto com cuidado, como se o silêncio fosse algo frágil demais para ser quebrado. Encostou as costas na madeira por um instante, respirando fundo, antes de caminhar até a escrivaninha próxima à janela.
O quarto de hóspedes era simples. Cama arrumada demais, cortinas claras, uma luminária antiga. Tudo organizado. Tudo sob controle. Do jeito que ela gostava.
Ela abriu o caderno de novo.
Discurso de padrinhos, rascunho.
Escreveu o título no topo da página e ficou olhando para ele por alguns segundos, a caneta suspensa no ar. Não era falta de palavras. Nunca foi. Era o excesso delas todas carregadas de coisas que ela preferia não tocar.
Começou pelo óbvio.
“O amor, quando é escolha, se constrói nos detalhes…”
Parou. Riscou a frase com um traço firme.
Escolha.
Essa palavra sempre doía mais do que deveria.
Sarah recostou-se na cadeira, encarando o teto, e deixou a mente vagar para um tempo que ela raramente visitava.
O colégio.
Ela se lembrou de Noah antes do corpo de academia, antes da autoconfiança exagerada. Lembrou do garoto alto demais para a própria idade, sempre jogado na cadeira do fundo, rindo baixo durante a aula, como se nada ali fosse sério o bastante para ele.
E, ainda assim, para ela, ele era tudo.
A primeira vez que percebeu isso foi ridícula. Ele tinha pedido uma caneta emprestada. Só isso. Mas quando os dedos deles se tocaram por acidente, o mundo pareceu… diferente. Maior. Mais promissor.
Sarah sorriu sozinha.
— Patética — murmurou, sem raiva. Só constatação.
Ela tinha sido uma garota silenciosa, inteligente demais para a própria idade, apaixonada por alguém que nunca pediu profundidade. Noah nunca foi c***l de propósito. Ele só era… distraído demais para perceber o peso que tinha para ela.
Ou talvez tivesse percebido. E não se importado.
Os beijos vieram depois. Rápidos. Escondidos. Sempre nos intervalos, nunca assumidos. Ela lembrava da ansiedade boa misturada com medo, do jeito que analisava cada mensagem dele como se fosse um texto literário, buscando subtexto onde talvez não houvesse nenhum.
Até o dia em que percebeu que ele ria com os amigos, dela.
Dela.
Que fingia não conhecê-la no corredor.
Que o interesse tinha data de validade e ela nunca fora informada.
Sarah fechou os olhos.
Aquilo não tinha partido apenas o coração dela. Tinha quebrado algo mais fundo: a ideia de que sentir demais era uma virtude.
Ela voltou a olhar para o caderno.
“O amor verdadeiro não expõe, não diminui, não faz o outro parecer pequeno.”
Escreveu essa frase com cuidado. Não riscou.
Era engraçado. Ela escrevia romances. Histórias de encontros, desencontros, recomeços. Mas, se fosse honesta consigo mesma, seus livros raramente tinham personagens que se entregavam de verdade no começo.
Suas protagonistas eram sempre lúcidas. Autossuficientes. Cautelosas.
Nunca idiotas.
Sarah soltou uma risada baixa, sem humor.
— Claro — sussurrou. — Eu te tirei da ficção.
Percebeu, ali, com uma clareza desconfortável, que evitava aquele tipo de amor nos próprios livros. O amor ingênuo. O primeiro. O que acredita sem provas.
Ela não deixava suas personagens passarem pelo que ela passou.
Não deixava que amassem alguém que não as escolheria.
Não porque aquilo não fosse bonito mas porque ainda doía demais admitir que, uma vez, ela tinha sido assim.
E, talvez, ainda fosse. Em algum lugar escondido.
Sarah fechou o caderno de novo, apoiando a testa sobre ele por um instante.
— Eu não fui i****a — disse em voz baixa, como se estivesse se defendendo de uma acusação invisível. — Eu só acreditei.
Levantou-se, caminhou até a janela e observou a chácara iluminada pela lua. Em algum lugar ali, Noah provavelmente ria de alguma coisa. Sempre rindo. Sempre leve. Sempre...ele.
Ela não sentia raiva dele.
Sentia algo mais complexo: o incômodo de perceber que aquela primeira paixão, platônica e desproporcional, tinha moldado quem ela se tornara.
E que, apesar de todo o controle, toda a lógica, toda a distância emocional cuidadosamente construída…
Ele ainda tinha acesso a uma versão dela que ninguém mais teve.
Sarah voltou à escrivaninha, respirou fundo e escreveu a última frase do rascunho:
“Amar não é se perder. É escolher alguém que nunca nos faça duvidar do nosso valor.”
Ela parou. Leu de novo.
E, pela primeira vez naquela noite, não soube dizer se aquela frase era para o discurso…
Ou para si mesma.