O agente de Sarah recebeu o e-mail ainda cedo.
Café na mão, rotina automática, ele abriu a caixa de entrada esperando mais um rascunho incompleto, algo para negociar, cortar, ajustar.
Viu o assunto.
Beijo com sabor de menta.
Franziu a testa.
Abriu o anexo.
Começou a ler sem muita cerimônia e, poucas páginas depois, o café esfriou esquecido ao lado do notebook.
Ele leu tudo.
Sem pular capítulos.
Sem interromper para responder mensagens.
Sem anotar correções.
Leu com o corpo inclinado para frente, os cotovelos apoiados na mesa, como quem sabe que está diante de algo que não aparece com frequência.
A cada capítulo, a história ficava mais desconfortável. Mais íntima. Mais perigosa.
Ele percebeu rápido: aquilo não era apenas um romance. Era uma confissão disfarçada de ficção. Uma dessas histórias que leitores sentem antes de entender.
Quando chegou ao boato da aposta, fechou os olhos por um segundo.
Quando leu a parte da invisibilidade, suspirou fundo.
Quando chegou à dedicatória, ficou longos segundos parado.
Leu de novo.
Depois uma terceira vez.
Encostou-se na cadeira, passando a mão pelo rosto.
— Droga… — murmurou, mais para si mesmo do que para o silêncio da sala.
Não ligou para Sarah.
Não ainda.
Ele sabia que, se ligasse naquele momento, a voz trairia a reação. Precisava de distância. De estratégia. De tempo para pensar no impacto.
Abriu um novo documento.
Começou a anotar palavras soltas:
verdade
risco
exposição
identificação
viral
Fechou o arquivo de notas.
Abriu o manuscrito de novo e releu o primeiro capítulo, agora com olhos profissionais.
Era cru.
Era imperfeito em alguns pontos.
Mas tinha algo que não se ensinava.
Ele sabia.
Aquele livro não precisava de polimento imediato.
Precisava de proteção.
O agente olhou para o celular, o nome de Sarah ali, pronto para ser chamado.
Virou a tela para baixo.
— Deixa ela dormir — disse em voz baixa.
Porque, quando ligasse, nada seria simples.
E nada seria pequeno.
Sarah dormiu como não dormia há meses.
Um sono pesado, sem sonhos, como se o corpo tivesse finalmente desligado depois de sustentar coisa demais por tempo demais. O sol veio, passou, e ela não percebeu.
Quando acordou, o quarto estava escuro.
Ela piscou algumas vezes, confusa, até o celular vibrar de novo sobre a escrivaninha.
23:07.
A tela acendeu cheia de notificações.
17 chamadas perdidas.
Agente.
Agente.
Agente.
O estômago de Sarah afundou.
Sentou-se na cama de uma vez, o coração acelerando como se tivesse cometido um erro irreversível. A boca seca, a cabeça pesada, a sensação imediata de arrependimento tentando se instalar.
— Meu Deus… — murmurou.
Antes que pudesse pensar melhor, o celular vibrou novamente na mão.
Ela atendeu.
— Alô?
Do outro lado, silêncio por meio segundo. Depois, a voz dele contida demais para ser normal.
— Você dormiu o dia inteiro, né?
Sarah passou a mão pelo rosto.
— Eu… dormi. Desculpa. Aconteceu alguma coisa?
Ele soltou uma risada curta, sem humor.
— Aconteceu. — Pausa. — Mas eu precisava ter certeza antes de te ligar.
Ela se levantou, andando até a janela, puxando a cortina para ver a cidade escura.
— Certeza do quê? — perguntou, tensa.
— De que você fez algo grande… ou algo que vai dar muito problema.
O coração dela bateu mais forte.
— Você leu tudo?
— Li. — Ele não hesitou. — Do começo ao fim. Duas vezes.
O silêncio entre eles ficou espesso.
— E…? — Sarah perguntou, quase sem voz.
Do outro lado, ele respirou fundo.
— Sarah, esse livro não é seguro. — Ela sentiu o peito apertar. — E exatamente por isso ele é potente.
Ela se encostou na parede.
— Eu não revisei. Não pensei em mercado. Não pensei em nada.
— Eu sei — ele respondeu. — Dá pra sentir. E é isso que assusta… e que vende.
Sarah fechou os olhos.
— Você acha que eu fui longe demais?
— Você foi onde ninguém tem coragem de ir — ele disse, sério agora. — O problema é que, depois disso, não dá pra fingir que é só ficção.
Ela engoliu em seco.
— O que acontece agora?
Houve uma breve pausa, e então ele disse:
— Agora, você vai ter que sustentar esse livro. Porque ele não vai passar despercebido.
Sarah ficou em silêncio, sentindo uma mistura estranha de medo e algo parecido com orgulho.
— Descansa hoje — ele continuou. — Amanhã a gente conversa com calma. Contratos, leitores sensíveis, possíveis reações… tudo.
Ela respirou fundo.
— Tá.
Antes de desligar, ele acrescentou:
— Sarah?
— Oi.
— Você acabou de escrever o livro mais honesto da sua carreira.
A ligação caiu.
Sarah ficou parada por alguns segundos, o celular ainda na mão.
O coração batia rápido.
Ela não sabia o que viria depois.
Mas sabia de uma coisa:
não dava mais para voltar atrás