Capítulo três

4963 Words
Eliza. Para a maioria das pessoas, o fim de semana significa paz, tranquilidade, ou descanço. Para mim, significa: Trabalho, deveres, e dia para fazer os deveres de semana que vem. Hoje é sábado, oque significa que não tenho aula. Mas também significa mais horas no hospital, tempo para fazer os trabalhos de escola, e faxina em casa. Eu não tenho direito ao luxo de acordar tarde, então, acordo às oito, escovo os dentes, forro minha cama de solteiro, dou uma organizada no meu quarto, e em seguida vou para a cozinha ver oque tenho para fazer. Que como eu imagino, vou ter muita coisa. Depois que eu preparo o café da manhã, poucas coisas, só faço o café forte como o meu pai gosta, faço algumas torradas e pego cereal para mim, e para o meu irmão. - Hmm. Que cheiro bom, não tem nenhum café que cheire tão bem quanto o da minha filha. - Meu pai comenta, depois de me dar um beijo na testa e se sentar ao meu lado na mesinha da cozinha. - Bom dia Filha. - Bom dia. - dou um sorriso orgulhoso. - Vou comer apenas uma torrada, porque hoje o patrão quer que todos cheguem mais cedo no trabalho. Observo meu pai por um segundo, ele está usando sua abtual camisa cinza (o uniforme do trabalho), ele é vendedor de automóveis em uma empresa. O Sr. Carlos não é lá o melhor vendedor, e nem ganha uma fortuna, mas tudo oque tem nesta casa, é fruto do trabalho dele. Acho que me pareço com ele nesta parte, de querer trabalhar para se sustentar. Me me pareço com meu pai só na personalidade, porque na aparência, me pareço com minha mãe. Que pena que eu não tenho os lindos olhos azuis dele... - Bom dia. - minha mãe e meu irmão aparecem pela soleira da porta, e se juntam à nós. Pedrinho está usando seu roupão branco de karatê. Ele tem sete anos, e luta desde os cinco, ele sempre fala que vai ser profissional quando for adulto, oque eu acho bonitinho, mas ainda no mês passado, ele queria me mostrar um golpe novo que aprendeu, e acabou quebrando minha boneca de porcelana, que eu tinha desde os dois anos. - Bom dia. - eu e o meu pai dizemos, em coro. - Filha, tem planos para esta manhã? - minha mãe coloca um pouco de geleia de morango em sua torrada e me olha. - Hmm, eu ia arrumar a casa, como sempre faço. Por que? - É porque hoje eu vou ter que ficar até mais tarde no ateliê, para atender uma cliente que vai se casar, e seu irmão não tem com quem ficar. E vou sair mais cedo, por isso não vou poder levar ele no karatê. - Eu levo ele. E acho que posso levar ele para o hospital comigo. Vai ser meio chato para ele, mas... acho que é bem possível. Com ''meio chato para ele'', eu quis dizer: ele vai sair de lá agradecendo por ter boa saúde, ou querendo doar um órgão. Todos na minha família são meio ''sentimentais'' demais. - Obrigada filha. - minha mãe abre um sorriso enorme. - Por nada. Depois que eu terminei de lavar a louça do café da manhã, levar meu irmão na escola de karatê, e mudar completamente o estado de espirito da casa, fazer o aumoço, e buscar meu irmão na escola, eu tive correr para me arrumar para o trabalho. Entro correndo pelas portas duplas de vidro do hospital, torcendo para que ninguém perceba que eu cheguei atrasada. Meu irmão está correndo atrás de mim, com seus cachos de ouro balançando, e segurando a lancheira que eu preparei para ele. - Boa noite Maria Eliza. - uma voz diz atrás de mim, com ironia. E eu sei muito bem a quem ela pertence. Viro para trás, e dou de cara com o Eduardo, o meu colega de trabalho. O filho do meu patrão para ser mais exata. Ele também faz estágio como eu, mas o hospital é grande o suficiente para nos vermos uma ou duas vezes na semana. - Não conta para o seu pai que eu cheguei atrasada, por favor? - imploro. Ele fica sério por um instante, mas logo sorri. Uffa! Respiro, aliviada. - Sabe que eu não conto nada para ele desde que você entrou aqui. - ele mira seus olhos verdes-água no meu irmão. - Quem é ele? - Ah, é o Pedro, meu irmão. Eu não tive escolha e trouxe ele comigo. - Acho que ninguém vai se incomodar com isso. - ele coloca as mãos nos bolsos do grande jaleco branco, e eu sei que ele é apenas um ano mais velho que eu, mas assim, ele parece bem mais velho. Como um médico já formado. - Como vai? - ele diz, olhando para o meu irmão. - Bem. Meu irmão aperta a minha mão. Com certeza muito tímido. Eu pisco duas vezes na direção do Edu. Meu deus, ele é tão lindo. - Então... - ele diz, sorrindo docemente. - Faz um tempo que nós não nos vemos. Será que... você poderia assistir um filme comigo, sabe, qualquer dia desses? Ele me pega de surpresa. Tudo bem, eu ainda não contei, mas... eu e o Eduardo, nós já... hmm, ''namoramos'' uma vez. Não faz muito tempo. Durou mais ou menos dois meses, e nós resolvemos terminar porque simplesmente não nos viamos nunca. E eu NÃO estou exagerando! nós trabalhamos no mesmo lugar, mas só nos viamos três vezes na semana, e saiamos juntos... bem, quase não saimos juntos. Ficou tudo bem entre nós dois, depois disso. Só que eu não esperava que ele quisesse continuar com isso. - Hmm, - eu começo, não sabendo oque dizer. - Você sabe que... tem pacientes novos e... - Sei. E também sei que esse é um hospital Eliza, sempre vai ter novos pacientes. Se você não souber separar sua vida de seu trabalho, eles vão acabar virando um só. Oque ele quis dizer com isso? - eu penso, mas logo chega um dos motivos de nós termos terminado o namoro. - Eduardo, seu pai está te chamando no terceiro andar. - Srta. G, olha para mim com aquele olhar de ''não sei oque você está fazendo aqui, garota bem mais jovem e mais bonita que eu.'' - E Maria Eliza, a paciente do quarto número trinta e quatro quer falar com você. A Srta. Gilda, é a enfermeira encarregada de cuidar dos adolescentes estágiarios, uma mulher de mais de quarenta anos, que aparenta ter cinquenta por causa das horas e horas de plantão neste hospital. Ela é daquelas mulheres carrancudas que não arranjam marido por causa de sua personalidade forte. E ela também parece odiar me ver conversando com o filho do chefe dela, de alguma forma. - Está bem. - Eduardo diz, e me lança um olhar que diz ''Pense no que eu propus, e se vira em direção ao elevador. Eu olho para a Srta. G, e vejo que ela não gostou nada de eu ter trazido companhia, mas supondo que isso não seja p******o, ela revira os olhos para mim, e sai. Eu respiro novamente o ar que ainda me resta, e olho para meu irmãozinho. - Pedro, eu tenho que trabalhar agora, e vou te deixar andar por aí. Mas por favor, me prometa que não vai quebrar nada, arranjar confusão, ou de maneira alguma sair deste hospital. - Prometo. - ele fez sinal de juramento, com a mão na testa. Eu sorrio, e aceno para ele também. Dou um beijo na testa dele, e me dirijo ao segundo andar, em direção ao quarto de número três e quatro. - Oi. - digo, dando o meu melhor sorriso. Carol está como antes, deitada em sua cama com seus fones de ouvido, distraída. - Olá. - ela sorri de volta, tirando os fones para dar atenção a mim. - Que bom que você chegou, eu não aguentava mais a Srta. Silvéria e seus comprimidos. Eu ri, e aproveito para dar uma olhada no horário da próxima medicação dela: duas horas e vinte e quatro minutos. Bem, faltam poucos minutos. - Eu queria te pedir um grande favor. - ela diz, um pouco mais baixo, olhando pelas janelas de vidro se não tem mais ninguém por perto. - Ah, claro. Eu estou aqui para ajudar. - Bem... - ela eperta os lábios, e sei que ela está com receio de me pedir, oque quer que seja. - É que... sabe? Hoje é o meu aniversário de namoro com o Chad, e... você é única pessoa neste hospital, com quem eu sinto que posso contar. Eu queria saber se você n******e me ajudar a fugir hoje à noite. - Fugir? - eu engulo o seco. Meu Deus! No que esta menina quer me meter? Por que eu tenho que ser uma pessoa tão fácil de se fazer amizade?! Se eu ajudar ela, vou acabar perdendo o meu emprego dos sonhos, e se eu não ajudar, vou perder uma amizade de uma paciente especial e acabar com a felicidade de um casal feliz. Oque eu faço? - me pergunto. - Hmm... está bem? - eu digo. Oque? isso saiu da minha boca? Mas eu m*l pensei nas consequências. Eu acredito que vou me dar muito m*l, mas mesmo assim, ver o tamanho do sorriso que ela abriu, me fez sorrir também. - Sinto que vamos ser ótimas amigas. - ela diz. - Eu também. - E então? Como pretende me colocar para fora sem ser percebida? - Eu... posso dizer para a enfermeira Silvéria que você está na lanchonete, e para o Dr. Marcelo, que você está no banheiro. E eu posso dizer que cuidei dos seus medicamentos. Mas você tem que prometer que vai tomar os remédios, e vai voltar aqui tão bem quando foi, ok? - Claro. - ela diz, alargando ainda mais o sorriso. Esse é o maior prêmio que uma pessoa que gosta de ajudar outras, pode ganhar. O sorriso de quem ela está ajudando. - E você? - Oque? - Você tem um namorado? De alguma maneira, eu não sei porquê, eu coro. - Hmm... não mais. - Não mais? - ela arqueia a sobrancelha, e eu não sei porquê, mas sinto que ela quer saber mais algum detalhe. - É... terminamos à uma semana. - Eu sinto muito. Por que terminaram? - Porque nós não temos tempo um para o outro. Sabe, quando ele tinha folga, eu não tinha, e quando eu tinha, ele trabalhava o dia todo. - Nossa! - Carol parece indignada, mas ela sorri. - Vocês dois se parecem como Eclipse. E é legal. Eu dou um meio sorriso, minha mãe me disse isso uma vez também. Como o Eclipse, o encontro da lua com o sol, um fenômeno mais do que raro. Só que é bem diferente quando a lua e o sol (que neste caso, somos eu e o Edu) são namorados, que naturalmente precisam se ver todos os dias. - É. Isso soa legal mesmo. - eu finalmente digo, e querendo mudar de assunto, eu olho para os fones dela. - Oque você está ouvindo? - Se chama rock'n roll de uma banda australiana, quer ouvir? - ela me oferece um fone, e eu aceito. - Meu irmão mais novo adora essa música. Me lembrei que o Pedrinho tinha músicas de uma banda de Rock desconhecida em seu iPhod, e eu ouvia algumas de vez em quando. - É mesmo? - ela me olha, surpresa. - Como é o nome dele? - É Pedro, e ele está aqui no hospital. Quer que eu traga ele, para você conhecer? - Claro. Eu adoro crianças. - ela sorri. - Ok. Volto em um minuto. Saio do quarto, e dou uma volta pelo primeiro andar, com a esperança de que o Pedro não tivesse ido tão longe em tão pouco tempo. Mas depois de fazer uma varredura completa pelo primeiro andar, eu vou para o segundo, e não encontro ele na area das crianças, e nem na sala de brinquedos para terapias. Meu irmão desapareceu. Depois de vinte minutos procurando por ele, eu já fiquei preocupada. O menino m*l conhece esse hospital, oque deu na minha cabeça para deixar ele sozinho? Eu realmente não acho que ele tenha saido, Pedro nunca mente e nem descumpre uma promessa, meu pai ensinou isso à ele. Já estou bastante preocupada quando saio para fora do hospital e dou uma olhada pelos jardins, eu não vejo ele. Mas será que ele saiu? Eu não quero alarmar todos dizendo que tem um garotinho de sete anos desaparecido por aí, antes de procurar por ele direito. Ainda mais quando se trata de um hospital com centenas de pacientes doentes, e médicos super ocupados. Onde é que esse garotinho se meteu? Entro no hospital de novo, e minha cabeça começa a doer. Realmente não vejo ele em lugar nenhum. Todos os enfermeiros estão se movendo pra lá, e pra cá com os carrinhos de comidas, ou de medicamentos, ou de materiais para cirurgia, algumas crianças com câncer em estágio avançado, estão apostando corrida com suas cadeiras de rodas, uma paciente está em uma discução com a recepcionista, afirmando que hoje era seu dia de passeio pela cidade, enquanto a recepcionista tenta ligar para o médico dela. Eu resolvo perguntar à alguém pelo meu irmão. - Oi. - eu interrompo a discução das duas, olhando para a Cassie, a recepcionista riuva. - Você viu um garotinho andando por aqui? Ele está com uma mochila nas costas, e tem os cabelos cacheados. - Hmm, acho eu vi sim. - ela diz, mas sem segurança na voz. - Ele entrou no elevador. - Obrigada. - eu digo, e rapidamente me dirijo ao elevador. O terceiro andar do prédio, é onde fica as salas de cirurgias, e é onde fica o escritório do Dr. Marcelo, o pai do Eduardo. Eu procuro novamente pelo meu irmão, perguntando discretamente a um e outro, se eles não o viram, mas eu não encontro ele. Sigo para o outro prédio, que fica logo ao lado deste, eles são ligados por uma espécie de ''ponte'', coberta com paredes e tetos de vidro, por isso, conseguimos ter uma boa visão da cidade daqui de cima. Eu entro no terceiro andar do segundo prédio, que é onde fica o refeitório, a cozinha, e uma enorme ala ''só para os médicos'', onde tem de tudo, desde TVs de cinquenta polegadas, até coquetéis e videogames. É claro que essa idéia é absurda. Mas esse é um hospital particular, e o dono, apesar de ser muito rico, tem um certo interesse no ''bem-estar'' dos médicos. Quando entro na zona proibida para ''qualquer um'', vejo de cara, que meu irmãozinho está sentado em um grande sofá branco, matando centenas de zumbis, pelo Xbox. Eu respiro, alivíada, e corro na direção dele, o apertando pelas bochechas, apesar de saber que ele está mais do que bem. - Por que você está aqui? Eu disse que era para você não sair daquele andar. - Não. - ele apertou pausa, pelo controle, e me olhou. - Você disse que não era para eu sair do hospital, e eu não sai. - Como soube desse lugar? - O Edu me mostrou. Depois que você saiu, ele voltou para falar com você. Mas ele me viu, e me chamou para jogar uma partida de videogame com ele. - Eu procurei por você pelo prédio inteiro garoto. Nunca mais faça isso, você quase me matou de susto. Minha respiração estava acelerada. Mas sabendo que ele estava ali e seguro, eu pude voltar ao trabalho. *** Sophie Tudo bem. Respira Sophie. - digo para mim mesma, enquanto espero a minha vez para tirar essas benditas fotos logo. Sinceramente, quando o Joe disse que eu seria a garota p********a da loja de roupas mais esclusiva do estado, eu achei que eu iria tirar fotos sozinha. Mas quando cheguei, me deparei com uma fila enorme de ''garotas propagandas''. Eu estou usando um dos looks montados pelas funcionárias da loja, e eles resolveram me vestir com a moda Winter, por isso, estou morrendo de calor com esse casaco de pele. Eu ia usar a moda Summer, só que acabei ralando toda as minhas pernas na minha tentativa de fugir de casa de ontem, e outra modelo, com as pernas, provavelmente, bem mais bonitas que as minhas, ficou no meu lugar. Dou uma olhada em meu celular, e vejo que estou quinze minutos atrasada para a prova de vestidos. As mensagens não param de chegar em meu celular, e eu estou tão estressada porque estou com calor, meus olhos estão coçando com tanta maquiagem e glitter, e ainda tem quatro meninas na minha frente. - Ainda falta muito Catito? - pergunto para o cara alto ao meu lado, que assim como eu, ele também está se abanando com a mão. - Não, Shopie, - ele diz com uma voz de urgência, olhando algo em seu ''super tablet'', alguma coisa. - Mas se não acabarmos com isso logo, eu vou fritar neste inferno! Catito é meu amigo da agência, ele na verdade, é amigo de todas as modelos, mas nós temos algo especial. Ele é gay assumido, e usa saltos de quinze centimetros para ensinar as meninas a desfilarem - e manda muito melhor que muitas mulheres por aí -, ele é o braço direito do diretor da agência, e cuida de cada modelo pessoalmente, todas nós confiamos somente nele para encobrir nossos segredos mais ''sujos''. Ele não se veste de mulher, apesar de gostar, ele tem um estilo próprio muito mais para o lado ''pop-rock'' super arrasador. Eu bufo, mas me controlo em meu lugar até chegar a minha vez de encarar um novo fotógrafo. Desde que me ''joguei nesta vida'', conheci dezenas de fotógrafos, alguns eu gostei, outros eu nem me importei, e outros, eu odiei. Porque eles sabem que nós modelos, sabemos quais são as nossas obrigações, e alguns ainda insistem em nos dizer quais são. É claro, que eles entendem muito mais de fotografia do que nós, mas às vezes, isso acaba irritando. Eu sou super na minha, prefiro mostrar que não me irrito facilmente. Oque é uma baita de uma mentira. Enquanto o fotógrafo me manda fazer poses com cara de ''super satisfeita'' de estar usando as roupas desta marca, embaixo de um monte de neve falsa, feitas com insopor, e na frente de um grande ventilador, eu faço o possível para que tudo termine rápido, e dou o melhor de mim nas fotos. Apesar, de saber que esse com certeza é um dos meus piores dias. - Terminamos. - ele diz, e retira a câmera do rosto. Meu Deus! Eu congelo no meu lugar. Este é o fotógrafo MAIS GATO que eu já vi na minha vida. Eu não tinha reparado nele antes, porque eu foco mais na câmera e em mim mesma quando estou posando para fotos. Ele é alto, está em ótima forma, tem os cabelos castanhos e levemente cacheados, a pele é bronzeada, mas oque mais me encantou foi o formato de sua mandíbula rígida, as sobrancelhas grossas, e os olhos, que são tão azuis que quase parecem ser transparentes. E sem contar no estilo dele, ele está usando uma calça de jeans claros e ligeiramente rasgada, com uma boot marrom claro, uma camiseta preta por dentro de uma jaqueta de couro preta, com pele de leopardo falsa. Minha boca cai diante desse homem maravilhoso, e eu fico simplesmente sem fala. - Quer ver como ficou as fotos? - ele olha para mim rapidamente, dando um sorriso enorme, brilhante, e o mais cativante que eu já vi, ao perceber minha reação. Que vergonha! Que vergonha! Que vergonha! - digo a mim mesma, e dou um passo na direção dele. - É... é claro. - minha voz sai meio rouca, igual a de um homem. Oquê?! Onde está a minha voz de garotinha boba encantadora? Enquanto ele clica no botão esquerdo na câmera super profissional para me mostrar as fotos que sairam muito boas, mas isso é graças à ele, porque eu não fiz nada de diferente. Eu me pergunto quantos anos ele deve ter? vinte? vinte e dois? - Você fez um ótimo trabalho. - ele volta seus olhos para mim, e eu me derreto. Por que diabos eu fiquei assim? - Obrigada. Você é... que fez um ótimo trabalho. - sorrio, meio lerda. Fico feliz da minha voz ter voltado ao normal, mas quero correr daqui o mais rápido possível. Quando eu vou saindo, me arrepio tanto que quase tropeço em um pouco de ''neve'', quando ele toca o meu braço. - Eu... acho que não sei o seu nome. - Hmm, é... eu não sei... Ele arregala os olhos, e esconde um sorriso. Como assim eu não sei meu nome? - Ah, quero dizer... meu nome é Sophie. Me desculpe. E quem é você? E quantos anos tem? Você é novo demais para ser fotógrafo. Você é muito gato, e eu já tenho um namorado, então... fique longe de mim! - eu tenho v*****e de dizer. Mas não digo. - Bem, prazer em conhecer você, Sophie. Eu sou Thiago, sou o fotógrafo. - ele levanta a câmera, e sorri. É claro que ele é o fotógrafo sua tonta! - meu subconciente me diz, e revira os olhos para mim, enquanto eu viro água diante do sorriso deste cara. - É um prazer conhecer você também... err... Mas eu tenho que ir. Ele abre a boca para falar algo, mas eu saio apressada em cima das minhas botas de salto alto. Catito abre a porta do Saab dele, e quando eu entro, ele acelera ao máximo que pode, para que eu chegue a tempo da prova daquele maldito vestido. Ainda estou com a respiração acelerada, e com um pouco de isopor nos meus cabelos. Mas nada disso me importa, quando eu tenho a imagem daqueles lindos olhos olhando para mim. De onde, em toda a TERRA saiu aquele deus grego?! *** Alice Estou COM CERTEZA, passando pelos piores dias da minha vida! Ontem eu quase não consegui dormir, e estou até agora, vidrada em meu celular, para ver centenas de comentários dos meus leitores devotados, reclamando, e eu acabo dizendo o que aconteceu. Mas ''o povo'' não se importa com isso. ''O povo'' quer apenas saber quando eu vou postar o meu próximo cápitulo. Estou perdida. Sem o meu computador, eu não posso postar nada. Acabei com todas as unhas das minhas mãos enquanto espero ansiosamente pela chegada do meu computador do conserto. - Minha filha, você está bem? Perece um pouco pálida. Minha mãe me olha da bancada da cozinha. - Não. Eu não estou bem. - digo, enquanto me reviro no sofá, já sentei em todos os cantos da casa, e já arrumei todos os quadros das paredes. É como se eu não tivesse nada para fazer. - Fica calma, eu já mandei o computador para o conserto, o funcionário disse que vai demorar apenas dois dias, e ele vai recuperar a memória. Agora, vai na cozinha e prepara alguma coisa para você comer porque você não come desde ontem. - Não quero comida! Eu quero meu computador. - digo, me controlando para não sair gritando. - Você n******e colocar o computador em primeiro lugar na sua vida filha, tem outras coisas importantes. Por exemplo, você não quer ir na ioga comigo? - Ioga? - eu olho para minha mãe, indignada. - Mãe, olhe a nossa casa... Apontei para as paredes da sala de estar, e para o corredor amplo, onde tem dezenas de quadros pintados pela minha mãe. Ela simplesmente adora pintar. - Você ama arte, certo? Ela acenou. - Então, por que é tão difícil para a senhora aceitar que eu amo livros? Que os livros são minha vida? Acho que está sendo um pouco egoísta! - Primeiro, não fale comigo assim, garota! E segundo, eu entendo sim que você adora livros. - ela abaixa o tom, e vem em minha direção. - Só que às vezes você se esquece que tem uma vida. Você não sai com suas amigas, não vai mais nas oficinas de arte comigo como antes, não dá a miníma para aquele seu amigo, qual é mesmo o nome dele...? - Gabriel. - Esse mesmo. Gabriel é meu amigo à muito tempo, que de vez em quando vem aqui na minha casa me chamar para assistir um filme, ou jogar videogame. É claro que ele já me disse que gosta de mim como ''mais que amiga''. Só que eu já disse para ele, que é muito mais seguro para nós dois, se ficarmos apenas na zona da amizade. E é claro que nós paramos de nos ver, depois disso. - Mãe, eu prometo que faço alguma coisa... ok? - eu encaro a Srta. Matilde, por alguns segundos. - Mas só depois que eu conseguir um computador novo. - Deixa eu advinhar... você quer que eu compre? - Por favor? - fecho minhas mãos, súplicando, apesar de saber que isso não vai dar em nada. - Tudo bem. Oque?! Eu quase não posso acreditar. - Sério? - arregalo os olhos. - Sim. Mas... - Hmm... estava bom demais para ser verdade. - murmuro. - Eu compro um notebook novo em folha, se você fazer uma coisa antes... - Oque é mãe? - Me prometa que vai sair com seus amigos ao menos uma vez, e que vai voltar para as aulas de artes comigo? Estava demorando para ela voltar a pegar no meu pé de novo. Mas... qualquer coisa pelos meus livros. - Tá. Eu prometo. - Ótimo. Obrigada. - ela me abraça. - Agora, vai nesta geladeira e pegue algo para você comer, garota! E é isso que eu faço. Enquanto leio o último livro da saga: Peças Infernais, da Cassandra Clare, vejo meu celular acender a luz e vibrar, em cima da mesinha de centro da sala. Eu largo o livro no sofá, coloco meu sanduíche de presunto e queijo mussarela de lado, e pego meu celular, é a Eliza. - Alô? - Oi Alice, você pode falar? - É claro. Fala. - É que... estava pensando se você poderia sair amanhã? - Sair? Tipo... onde? - Sei lá... cinema, festa, uma praça qualquer... oque acha? - Oque aconteceu? Estou achando sua voz meio estranha. - Hmm... é que eu tive um dia meio cheio hoje. Eu levei meu irmão para o hospital, e ele quase me deixou pirada. E o Edu... ele me chamou para sair. - Oque?! - eu quase grito. - Como assim? Me explica essa história absurda direito! Eu fico andando de um lado para o outro no tapete da sala, enquanto ouço Eliza contar exatamente oque o ex-namorado super gato e ocupado dela, falou. - E então... oque acha? - Eu não sei. Talvez ele queira apenas conversar... sei lá... como amigos. Mesmo assim, eu não acho que você tenha que me levar neste encontro romantico. - Não é um encontro romantico, Alice! - ela berra, pelo telefone. - Já estou indo mãe! - ela grita, longe do celular. - Alice, tenho que ir fazer o jantar. Te encontro amanhã no shopping, às três da tarde. Leve o Gabriel. E por favor, não me deixe na mão, você sabe o quão raro é eu ter tempo para sair. - É. - eu rio. - Eu sei amiga. Pode deixar. Agora vai atender sua mãe, antes que ela venha te buscar com um cinto! - Engraçadinha. Tchal amiga. Um beijo. - Tchal, beijos. - eu desligo. Mal volto a ler meu livro, e três garotos entram na sala correndo e gritando. Todos vestidos em seus pijamas coloridos, e prontos para ''dormir''. E pronto! Minha paz acaba agora! Minha mãe está correndo atrás do Carlinhos, tentando colocar a camisa de pijama, enquanto ele corre com o Leandro, atrás do aviãozinho que o Leo segura. Enquanto eu começo a rir, vendo a cena ridícula de todos eles correndo ao redor da sala, eu vejo que minha mãe está diferente. Ela está usando aquele vestido florido com um decote muito absurdo, que ela comprou na última vez que fomos ao shopping, dizendo que era para sair com as amigas do trabalho, está com os cabelos soltos e escovados, usando uma sandália de saltos altos, e dá para sentir o cheiro do perfume de rosas dela, daqui de onde eu estou. Isso está me cheirando a problemas. - Mãe? - Oquê? - ela desiste de correr, e me olha assustada. E é aí que eu reparo o batom SUPER vermelho, que ela está usando. - Você está indo onde? - eu inclino meu pescoço, olhando ela dos pés à cabeça. - Eu... - ela cora. Meu deus! Minha mãe tem um namorado! - Eu... vou sair com uns amigos do trabalho. - Ah! A professora de Português, Maria, a de História, Rosangela, e a de Ciências, Clarisse. - E o de Matemática, João. - ela diz, quase engasgando, enquanto caminha em direção ao controle remoto, e liga a TV. Sei que ela quer fugir do assunto. - João? - É. Ele é novo, entrou faz poucos meses, e nós o convidamos para tomar um drink. - Mamãe? - eu chamo ela, sorrindo. Ela muda os canais da TV, e para no Disney Channel. Depois, ela olha para mim. - Está bem, Alice! Vamos sair só nós dois. As meninas insistiram, e eu acabei aceitando. Mas pare de me encher, que quem é a mãe aqui, sou eu. Eu começo a rir. - Hu, alguém tem um namorado novo!
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