Eliza.
Quando chego em casa, eu m*l tenho tempo pra me arrumar para o trabalho. O pior é que sempre é assim.
Mal entro no chuveiro e já saio. Um banho parecido com o de um gato. Pensando melhor... gatos até que demoram um pouco se l******o, o meu banho é mais parecido com o de um soldado do quartel.
Pego meu jaleco no cabide e minha outra mochila. Essa é de trabalho. Fecho minha casa e vou correndo para a estação de metrô.
Como meu pai trabalha à tarde, eu tenho que ir pro trabalho de metrô todos os dias e é assim que eu vou viver até... fazer dezoito anos, tirar a carteira de motorista, e hmm... comprar meu próprio carro.
Sabe aqueles metrôs de filmes de suspense? Onde tem algumas pessoas sentadas ali... outras aqui... Tudo isso não passa de ficção. Porque os metrôs que eu sempre pego, se parece com uma lata de sardinha. Ou nesse caso, uma lata de pessoas. Geralmente eu pego com quase as mesmas pessoas: sento entre um velhinho sério lendo o jornal, e uma garota gótica, com a música alta saindo dos fones de ouvido. Às vezes eu me sento perto de um homem barbudo, que fica me encarando até eu chegar na minha parada. Mas eu rezo muito para nunca ficar no mesmo vagão que ele. Ele realmente me assusta.
Chego no hospital, e já vou para a ala infantil, que é onde eu devo conhecer os novos pacientes com cancêr. Meu trabalho é animá-los, e fazer com que eles não se sintam m*l, por talvez ter que morrer em alguns dias.
Me abaixo perto de uma garotinha loura de olhos bem grandes, e azuis. Ela está sentada na cadeira de rodas, encarando o desenho da girafa na parede desde quando eu entrei no quarto.
- Oi. - sorri. - Como é o seu nome?
- É Natasha.
- Olá Natasha, meu nome é Eliza, e eu vou te fazer companhia por uns dias. Quantos anos você tem?
Na verdade, eu sei o nome e a idade de todas as crianças. Mas perguntar para elas, faz com que se sintam mais seguras em r*****o à mim.
- Tenho onze.
- Onze. Certo. Você é linda, sabia disso?
- Obrigada. - ela me olha um pouco, mas logo volta a encarar o desenho.
- Você gosta de girafas?
- Sim. - ela diz, friamente.
Oque mais dói em trabalhar num hospital, é ter que ver a tristeza estampada no rosto das crianças, que no fundo sabem que podem estar com a vida curta.
- Bem, eu gosto delas também... são tão... altas. - fiz careta e ri de mim mesma por dizer isso, - Então crianças, vocês vão ficar neste quarto. Podem escolher sua cama, que eu vou ajudá-lo à se adaptar. - eu digo para todas.
Observo quieta, segurando a minha prancheta de anotações, enquanto cada uma das quatro crianças andam com as cadeiras de rodas, em direção à uma das camas forradas com apenas um lençol branco, e com um travesseiro da mesma cor.
Sabe-se que todas as crianças entre dez e doze anos, quando são autorizadas à fazer algo, elas correm, gritam, e às vezes brigam pelo que quer. Mas neste caso, essas crianças de alguma forma, fizeram tudo na maior quietude, e paciência. E um pouco cansadas. Mas eu entendo elas.
O processo de internação para crianças que tem câncer, é lento. Depende do caso da criança, se ela volta ou não para casa. Elas têm que ficar, para tomar a medicação corretamente, elas passam por químeôterapias, e cirurgias. E isso pode até levar anos.
Vejo o Alex, um garoto muito músculoso que é estagiário como eu, e ele me ajuda com as crianças. Ele está anotando quem já tomou os medicamentos hoje.
Após colocar cada uma em sua cama, e deixá-las com os pais, eu vou para outra ala, tenho que conhecer a nova paciente que acaba de chegar. Têm dezessete anos, e tem leucemia. Sei que vai ser muito difícil cuidar dela sabendo que... Eu poderia estar no lugar dela.
Pelos dois meses que eu estou fazendo estágio neste hospital, eu aprendi um pouco sobre leucemia. Sei que se trata de câncer no sangue, é caracterizada pelo aumento de glóbulos brancos na corrente sanguínea. E também sei, que assim como os outros tipos de câncer, o paciente tem uma chance muito pequena de cura. Senão menos.
Entro no quarto de número trinta e quatro, e encontro uma garota sentada na cama. Ela é bonita, tem os cabelos cacheados, longos, e ruivos, a pele clara, e com os olhos castanhos. Ela está vestindo um short jeans, uma blusa preta de mangas cumpridas, e uma ankle boot preta com detalhes metálicos. Ela me parece... saudável. Não sabería que ela está doente se a conhecesse fora do hospital.
- Olá.
- Ah! Oi... - ela tira os fones de ouvido quando me vê. - Até que enfim alguém veio falar comigo. Oque foi? Até parece que eu tenho uma doença. - ela ri.
Eu não sei se posso rir com esta piada. Mas mesmo assim eu sorri um pouco.
- Meu nome é Eliza. Sou uma das estagiárias que cuida dos pacientes. Vou ajudar sua enfermeira.
- Aquela mulher de cabelos loiros? Ela acabou de me entupir de comprimidos. - ela revira os olhos. - Não sei se posso gostar dela.
Sei que ela está falando da Srta. Silvéria. Ela não é a enfermeira mais legal que eu conheço, mas ela sabe oque faz. Eu ri com a idéia.
- Me chamo Caroline. Mas pode me chamar de Carol.
Aperto a mão dela, e viro a folha, para encontrar a ficha com o nome ''Caroline'': órfã de pai, e mora com a mãe e duas irmãs mais novas. Ela foi transferida de um hospital de outra cidade, e está no primeiro estágio do câncer.
- Tenho a mesma idade que você. - digo, enquanto preencho os horários de medicamentos da ficha na parede. - Você ainda está fazendo o ensino médio?
- Sim. Quer dizer... estava. Descobri que tenho leucemia no segundo ano, e eles me pularam de série. Agora, eu já posso ir para a faculdade. Isso se... eu não morrer antes.
- Hmm. Sabe, você é uma das poucas pessoas que eu vi neste hospital que ainda tem senso de humor. E saiba que isso ajuda muito na recuperação .
Esperei que ela risse, mas ela não o fez.
- É... então, só vim saber se precisa de alguma coisa... algo para beber talvez?
- Hum, não, obrigada. Eu só... queria saber... - ela aperta os lábios, olhando em outras direções.
Ela parece um pouco indecisa se continua ou não, a frase. Mas então ela para seus olhos marrons bem nos meus, e bem abertos.
- Eu... queria saber... quando eu vou sair desse lugar?
Eu perco as palavras diante do olhar súplicante da garota. Com certeza, não me treinaram para isso. Oque dizer? Sei, pela ficha dela, que ela ainda vai ter que ficar por um longo tempo, até eles darem o diagnóstico. Mas como dizer para uma garota comum, que parece ter uma vida incrível lá fora, que ela vai ter que morar em um hospital a partir de agora, cercada por médicos, enfermeiras, e horários?
- Eu... hamm, - engulo o seco. - Realmente, queria te falar uma data, ou ao menos... um determinado tempo. Só que... eu trabalho aqui à pouco tempo e...
- Ah, me desculpe. - ela diz, finalmente retirando aquele olhar de mim. - Eu não sabia que você era nova.
- Não. Tudo bem.
- Bem, o problema é que... eu sei um pouco sobre essa coisa de... leucemia, e sei... que o processo de tratamento é lento. E eu sei também que vou ter que ficar aqui por um longo tempo, porque minha mãe trouxe uma mala bem grande de roupas para mim. - ela sorri, mas seu sorriso não alcança os olhos.
Eu apenas a ouço, calada.
- É que... - ela continua, e olha para o teto. Sei que esse é um jeito de evitar lágrimas, porque eu mesma já fiz isso. - Eu queria ficar em casa... queria ficar com as minhas irmãs, queria... poder acalmar elas, dizendo que eu vou ficar bem. E tem o meu namorado... o Chad. Ele é... tão fofo comigo, me apoiou tanto quando eu descobrí a doença, e... ele ficou do meu lado. Eu não queria ter que ficar em um lugar tão longe deles... e só poder ver eles com horário marcado. Isso é... deprimente. E... meu Deus, me desculpe, eu estou tomando demais do seu tempo.
- Ah, não, não. Eu... vou ficar até as sete da noite. E... ouvir vocês... é... meu trabalho.
Eu queria tanto poder ajudar essa garota. Dizer para ela que ela logo vai estar curada, e logo vai poder voltar para casa. Mas eu não posso dar esperanças aos pacientes, sem certeza. São as regras.
- Bem, de qualquer forma, tudo bem. Eu sei... que vamos nos ver de novo, pelos próximos... - ela esboça um sorriso fraco em seus lábios. - Dias. E... eu adorei te conhecer...?
- É Maria Eliza. - digo, rapidamente. - Mas pode me chamar de Eliza.
- Ok. Eliza. De você eu gostei.
Eu ri. Não pude deixar de me sentir feliz.
- Obrigada. Qualquer coisa que você precisar... desde de algo para comer, até alguém para apenas... conversar. Eu... vou estar aqui. Está bem?
- Claro. Obrigada.
Carol senta na cama de novo, colocando os pés cruzados sobre a cama, e coloca os fones de ouvido de novo. Após anotar os horários de medicamentos dela na plaquina da parede, eu saio do quarto.
Ufa! Esse trabalho é demais! Ele elimina totalmente a pouca auto-estima que ainda me resta.
E isso é só o começo da tarde inteira de pacientes que eu tenho que visitar e ouvir os lamentos de hoje. O único momento em que eu não tenha que me sentir uma garota com incapacidade de ajudar, é o horário de intervalo para o lanche.
***
Alice.
Todas as vezes que eu tento encontrar um melhor lugar para escrever meus livros, ele acaba virando o pior lugar, por causa dos meus irmãos. Por exemplo, na semana passada, eu levei meu laptop para a sacada do meu quarto, e quando eu pensei que seria impossível para os meus irmãos entrarem no meu quarto, eu me enganei. Por ''coincidência'' eles começaram a jogar bola logo abaixo de onde eu estava, oque resultou em gritos de: ''Chuta para mim!'', ''Foi escanteio!'', ''Essa não valeu!'', e ''Goool!'', então já dá para imaginar que eu não consegui ter paz, nem na minha sacada.
Tenho três irmãos mais novos, dois são gêmeos, o Leonardo, e o Leandro, eles tem dez anos, e o outro se chama Carlinhos, e tem cinco anos. Parece que por eu ser a única garota, todos eles se juntam só para me ferrar. Literalmente. Uma vez, minha mãe tirou a minha internet por um mês, só porque eu fui acusada de esconder o Pep, o gato do Carlinhos no meu quarto, e por ele passar um mês inteiro chorando por isso. Mas depois desse ''mês mortal'' sem internet que tive, minha mãe encontrou o p***e do gato dentro de um baú no quarto dos gêmeos. Descobri que na verdade, o gato sempre esteve lá, eles estavam dando comida e água para o bichinho, e o mantiam trancado até meu castigo acabar. Às vezes eu acho que meus irmãos assistem demais os desenhos da Disney. No fim, eles disseram que não sabiam onde o gato estava, e foram desculpados.
Na minha próxima tentativa de sossego, eu resolvi arriscar minha vida: Sentei no telhado de casa. Foi fácil subir pela sacada do meu quarto. E sei que pode parecer loucura, mas deu certo. Estou aqui sentada a tarde inteira, e nada dos meus irmãos encrenca.
Enquanto eu digito a parte do segundo cápitulo de Uma música de amor, em que Richard e Tiffany se conhecem em uma loja de CDs, e acabam descobrindo que são fãs da mesma banda de Rock, um grande ''X'' vermelho aparece na tela do meu computador dizendo: ''Sem conexão''. Oquê?! Checo a internet, e está tudo certo. Mas quando olho para cima, vejo que o grande céu azul, pintado aqui e ali com poucas nuvens brancas, desapareceu. E em seu lugar, está uma grande escuridão de nuvens e relâmpagos. Agora eu entendo a causa da queda de conexão. Mas isso n******e estar acontecendo! Tenho exatamente doze mil novecentos e quarenta leitores, esperando para ler o próximo capitulo do livro. Eu não posso simplesmente, deixar eles esperando! Mas oque posso fazer? Não tem mais nada de r**m que possa acontecer comigo.
Mal fecho meu laptop, e de repente, começa a cair sobre mim pingos extremamente grossos de chuva. Eu retiro totalmente tudo oque eu disse sobre não ter nada de r**m que possa acontecer comigo.
- d***a! - eu agarro o laptop em minha barriga, e deslizo devagar pelas telhas. A chuva está tão forte agora, que meu all star converse preto já está todo molhado quando eu piso na calha para poder pular para a sacada.
Quando chego finalmente dentro do meu quarto, já estou toda ensopada, e para o meu azar, vejo que meu computador também está.
- Não, não, não... - corro com ele para a minha cama, e o enchugo com uma toalha. Antes de ligá-lo para testar, eu seco os teclados com o secador. Quase tenho um treco quando vejo que toda a tela está toda branca. Eu aperto todas as teclas, e isso acaba fazendo com que ele apague de vez, e queime. Pronto. Agora, eu estou ferrada.
- Mas ele está queimado minha filha! - minha mãe grita pela terceira vez, enquanto analiza o computador com os grandes olhos catanhos por trás de uns óculos de vista. - Não tem concerto.
Minha mãe é uma mulher de trinta e cinco anos, posso dizer ''bem conservada'' para uma viúva com quatro filhos, ela tem os cabelos bem pretos e lisos, os quais eu herdei, e é mais ou menos da minha altura, ou seja, não é lá uma mulher muito alta. A Sra. Matilde é professora de Artes em um colégio particular Kids, mas ela tem talento com coisas tecnológicas. E se ela diz que não tem concerto... É porque realmente não tem.
- Então, eu simplesmente... perdi todos os meus livros que estão aí? - olho para ela, praticamente implorando com os olhos.
- Olhe, se levar ele a um especialista, ele pode tentar salvar a memória. Mas esse computador não tem mais jeito.
- Que d***a! - levei as mãos ao rosto, evitando muito as lágrimas que ameaçavam cair dos meus olhos. Esse computador, realmente, era a minha vida.
- Alice, não adianta chingar! Eu já te disse mil vezes para você fazer cópias dos seus E-books e guardar em outro computador. Agora, eu sinto muito.
Eu olhei para o chão por um segundo. Tantando achar uma solução.
- Quanto tempo acha que vai levar para que a memória seja recuperada?
- Não sei. Essas coisas geralmente demoram uns dois ou três dias.
- Dois ou três dias?! - elevei minha voz. - Como assim? Em dois ou três dias eu posso perder uns dois ou três mil seguidores!
- Não grite comigo como se a culpa fosse minha! Não fui eu que subi no telhado no meio de uma tempestade só para escrever um livro bobo!
Agora eu não pude conter minhas lágrimas e corri pela sala.
- Não é um livro bobo! - gritei, antes de subir os degraus das escadas e entrar no meu quarto, batendo a porta tão forte, que depois que essa tempestade passar, vou dar uma olhada nela para ver se não quebrou.
Deito na minha cama de bruço, e abafo o choro em meu travesseiro. Sei que sou uma garota crescida, já tenho dezessete anos. E essa é a idade em que todas as garotas normais, arrumam um emprego de meio período que ganha por volta de mil reais por mês, como um estágio, ou atendente em uma loja de roupas. Elas encontram seus namorados lindos e perfeitos nos finais de semana para ir ao cinema, e depois da faculdade eles se casam e se mudam de estado. Mas eu não sou uma garota normal, e estou bem longe de ser.
Por enquanto, me dedico inteiramente, e exclusivamente aos meus livros - e claro, aos estudos. - Mas meus livros para mim é tudo. Sei que oitocentos reais de mesada, que ganho da minha mãe, não é suficiente para viver uma vida de adolescente mimada, mas é o suficiente para eu pagar meu curso de Literatura, e ainda comprar algumas roupas. Só não sei como eu vou fazer para comprar outro computador. E só de pensar em ficar dois ou três dias sem postar meus livros, eu já fico louca. Literalmente.
Às vezes eu fico pensando, que eu devo ser a pessoa mais sem sorte do mundo. Sério, todas as minhas amigas tem tudo oque precisam e oque querem. A Sophie por exemplo, é filha única, tem um pai e uma mãe que se dedicam cem por cento, e inteiramente à ela vinte e quatro horas de seu dia. Eles pagam todas as despesas dela, os cursos, copram as roupas, sapatos, e perfumes mais caros, e sem contar na mesada bem gorda que ela ganha todo o mês. É claro que eu não tenho inveja da minha amiga, só não concordo quando ela reclama da vida que tem. Porque pelo que sempre me pareceu, a vida da Sophie é um mar de rosas.
***
Sophie.
Realmente, minha vida não é o mar de rosas que eu gostaría que fosse.
Sempre tenho que fazer tudo perfeito. E não importa o quanto eu queira que todos parem de me pressionar, eles sempre estão lá. Me pressionando. Minha mãe e meu pai são o rei e rainha da pressão, eles são um casal bem sucedidos, saudáveis, jovens até, e pelo que eu acho... com ótima disposição para f********o, e mesmo assim, resolveram NÃO ter outros filhos, só para ficar me enchendo o saco, por todas as vinte e quatro horas do meu dia.
Hoje foi um dia complicado, - como todos os outros. - mas esse foi mais. Por que o Enrique tem que ser tão romantico, perfeito, educado, e namorado dedicado, a ponto de eu me achar uma Badgirl perto dele? Desde que ele me perguntou oque eu sinto na porta do colégio, estou pensando nisso o dia todo. Sério. Eu m*l consegui me concentrar no Workshop na agência hoje. E é por isso, que eu estou aqui no meu quarto de ''castigo'', porque algum espião do meu pai, ligou para ele e disse que eu estava ''dormindo em trabalho''. Fala sério! Eu prestei atenção em tudo, eles estavam falando sobre Cuidados com o corpo e com a mente, e ainda sim, eu tive que ouvir um enorme discurso -''...só para o seu bem...''- da minha mãe, por eu não estar levando meu trabalho à sério, e tenho que ficar trancada no meu quarto até antes do jantar, e ainda vou ficar sem sobremesa como uma criança de seis anos de idade. E até parece que meus pais deixavam eu comer doces!
Desde os meus dez anos, eles cortaram -COMPLETAMENTE - meus doces, refrigerantes, salgadinhos, e gorduras em geral. Não que eu me encomode em ter o meu cardápio vigiado à cada segundo, me encomodo em não estar aproveitando as melhores coisas que a vida está me oferecendo. Meu pai é um grande advogado e muito sério, e minha mãe é uma das sócias de uma empresa de comésticos muito famosa na América Latina, e eles são um casal tão bem resolvido, que estão sempre tentando resolver a minha vida. Minha mãe diz que eu tenho que dar o meu melhor para poder conseguir realizar todos os meus sonhos, e o meu pai entra com a grana.
Sei que estou tendo chances que outra pessoa queria ter. Mas às vezes, toda essa pressão me deixa maluca, e tão pirada que de tempos em tempos, eu penso que prefiro morar em outro planeta, em Marte talvez. Quem sabe lá, eles me deixam em paz! Existem milhões de regras exclusivamente para mim, e umas delas, além de não comer praticamente nada não-saudável, são: dormir antes das nove para ''não ficar com olheiras'', acordar antes das sete para ''aproveitar o sol da manhã'', não ir à festas noturnas, não fumar, não beber, não ficar sem tomar água por mais de meia hora, e nunca... quero dizer... JAMAIS, desligar o celular. Meu pai, além de super protetor, é obsecado por segurança, ele só não contratou seguranças para me vigiar o dia todo, porque eu realmente não iria suportar. Se bem que, com tantos ''espiões'' que ele tem por aí, dúvido muito que precise de seguranças. Tudo que eu faço, eles ficam sabendo.
Enfim, eu só falei das regras, ainda tem os deveres que são piores do que os de um militar em serviço. A minha vida se parece mais um reality show, onde é vigiada, controlada, e julgada vinte e quatro horas por dia. Me lembro como se fosse ontem, o quão difícil foi para eu conseguir a permissão de namorar com o Rick à uns seis meses... Ele veio pedir a minha mão em namoro em um jantar muito formal aqui em casa, minha mãe quase chorou o jantar inteiro, - achando que ele era o primeiro garoto com quem eu já tinha ficado na minha vida. - Já o meu pai, quase matou o Enrique só com o olhar, e isso não é exagero! O Sr. Dr. Albert Castryne sabe ser assustador. Mas depois de uma série de perguntas e conversas com segundas intenções, eles finalmente deixaram eu namorar com ele. Claro que, sob as regras, sob a os olhos, e sob as circunstâncias deles. Fala sério? Nem parece que eu tenho dezessete anos!
Depois que termino de fazer o meu trabalho de Física, eu corro para o meu celular, que está vibrando com dezenas de mensagens cobrantes. Deito em minha cama, olho todas, respondo algumas, e paro de respirar quando uma nova mensagem chega em minha tela: Enrique. A mensagem diz:
''Oi princesa. Tudo bem? Você não respondeu nenhuma das minhas mensagens hoje. Estou preocupado.''
Eu luto contra a v*****e de não responder, e respondo:
''Oi. Estou bem, e você? E desculpe, eu estou... de castigo.''
Sei que não estou sendo justa com ele, mas é a única forma de não magoá-lo. Ele me responde imediatamente:
''De castigo? Oque minha criança favorita fez, para merecer tamanha injustiça?''
Ele consegue arrancar um sorriso meu mesmo à distância. Me odeio por não dar valor à isso.
''Dormi no trabalho.''
''Bem, não faça isso novamente. Já fez o trabalho do colégio?''
''Sim.''
''Ainda temos tempo para um filme.''
''Você sabe que eu tenho horário para dormir.''
''Sei que é daqui três horas.''
Eu sei oque ele quer dizer. Ele quer acender as chamas do vulcão chamado Albert. E também sei que ele quer me ver, porque ele gosta de mim, se não gostasse, ele teria fugido de mim na primeira oportunidade. Eu tenho que dar valor à isso. Eu preciso dar valor à isso.
''Rick, venha aqui em casa me buscar. Mais pare o carro longe para os meus pais não verem. Eu vou fugir de casa.''
''Como quiser, rapunzel.''
Isso é imaturo para mim, mas é o único jeito que eu tenho de ver meu namorado sem ficar sem TV por um ano ou pior: aguentar a fúria do meu pai. Depois que eu coloco um short preto de cós alto, uma blusa cropped azul escuro, e uma ankle boot, eu passo um gloss sabor melancia, e vejo se a barra está limpa fora do meu quarto. Mas como eu esperava, a minha governanta Joane bate à porta do meu quarto. Eu abro, e coloco só a cabeça para fora.
- Oi?
- O jantar já vai ser servido.
- Diga aos Castryne que eu não estou com fome. Aposto que minha mãe vai amar a idéia. - digo a última frase para mim mesma.
- Não sei se seus pais vão gostar disso Sophie. - Joane diz, com uma espressão preocupada no rosto. É comigo, ou com o emprego dela?
- Ah, me faz um grande favor? - corro em direção à minha bolsa, e retiro uma nota de cinquenta reais. - Diga para os meus pais que você já me trouxe o jantar no quarto, que eu comi tudo, e que já vou dormir.
Eu dou o dinheiro nas mãos dela, que esita só um pouco em aceitar, mas enfim ela coloca no bolso do uniforme, que consiste em um vestido branco e azul, com rendas muito clichês. Ela acena com a cabeça e sai. Minha cúmplice. Não é a primeira vez que faço isso.
Como eu sei que meus pais vão estar andando pela casa e podem me ver saindo, eu optei por sair pela janela mesmo. Assim que consegui me pendurar na janela, eu me lembrei que são dois metros de distância do chão, e que eu tenho duas opções: ou eu passo pela janela da sala de jantar, com o risco de os meus pais me verem pendurada, ou eu pulo esses dois metros, e corro o risco de quebrar um braço. Não preciso nem pensar duas vezes. Eu agarro o galho de uma trepadeira ao lado da minha janela e tento descer por ela, mas me esqueci que estou de salto alto, e acabo escorregando e caindo sentada no gramado. No começo doeu um pouco o meu traseiro, mas eu logo me levantei e percebi que quebrei uma das minhas unhas. E isso doeu mais ainda.
Eu caminhei rapidamente entre os coqueiros e os arbustos, para que ninguém me veja. E quando chego no portão eu me lembro que não trouxe o controle, eu me chingo pelo pensamento por isso. Agora, vou correr o risco de quebrar mais unhas. Eu subo em uma árvore perto do muro e passo meus pés para o outro lado. O muro tem uns quatro metros ou mais de altura, e quando eu olho para o chão a minha cabeça gira. Ainda não sei como eu fiz isso. Eu me arrasto devagar para minha direita, e quando chego perto de uns latões de lixo, eu pulo sobre ele, e em seguida pulo no chão. Meu Deus. Minha respiração está acelerada, e eu estou suando. Eu devo estar h******l agora.
- Sophie?
Olho para trás, e dou de cara com o meu pai me olhando com aqueles olhos matadores, usando seu abtual terno e gravata cinza escuro, e atrás dele está minha mãe e a Joane. Eu engulo o seco.
- O-oi? - eu gaguejo. - Oque foi?
- Você estava fugindo de casa? - ele diz, minha mãe apenas balança a cabeça com reprovação ao ver meu estado.
- E-eu? Não. Está parecendo que eu estou.
- Sim. Sophie, onde você estava indo?
- Eu... ia na casa de uma amiga. - menti, - Mas como vocês...? - olho para Joane, que arregala os olhos.
- Acha mesmo que nós iamos cair nesta história de que a Joane levou comida no quarto para você?
Essa não. Eles vão despedir a coitada.
- Minha filha, você n******e comprar sua governanta com dinheiro. - minha mãe diz, com aqueles grandes olhos azuis dela, muito arregalados.
Na verdade posso.
- Mãe, pai, me desculpem... eu só queria sair um pouco.
- Vem, vamos entrar e ter uma conversinha. - minha mãe me pega pelas mãos e me arrasta para dentro dos portões. - Mas antes, a Joane vai dar um jeito nos seus machucados.
Espere. Que machucados? Eu olho para minhas mãos, e para o meu joelho, que estão relados, e com um pouco de sangue. Quando isso aconteceu?
- E não pense que eu engoli essa história de que você ia na casa de uma amiga, Srta. Sophie. - meu pai diz, e passa por nós. Ele está furioso e eu posso até advinhar oque vou ouvir daqui para frente.
Eu estou frita.