Dois quartos, três camas, mas apenas uma foi usada, Linda se recusava a ficar sozinha, Ming tinha deixado de ser apenas o homem por quem estava apaixonada e tinha se tornado, também a pessoa que a resgatou do inferno, que a livrou de se tornar mais um número nas estatísticas, se na sociedade o “estupro marital” já era visto com naturalidade na máfia era quase rotina, a ideia de que o marido tinha direitos sobre o corpo da esposa era comum e Linda sabia que ninguém a ajudaria se tivesse acontecido.
Conseguiu dormir depois de dias sofrendo com pesadelos e insônia, desde que soube que seria obrigada a se casar com Anderson, a filha do conselheiro não tinha conseguido descansar, mas a respiração do líder chinês, o contato com a pele quente e o cuidado silencioso a fizeram, enfim, se entregar ao cansaço e ter um sono tranquilo e reparador.
Ming, ao contrário dela, ainda tinha o coração pesado, se culpava pelo que achava que tinha acontecido e pelas marcas na mulher, lembrou do próprio passado, da primeira namorada, do sentimento suave, puro que havia sido destruído pelo pai.
Rachel era uma garota comum e doce, ele costumava chamá-la assim, “coração doce”, em sua língua ** (tián xīn). Apesar de ser sua namorada, o pai arranjou o casamento da garota com Wan o irmão mais velho e que tinha mais violência e gosto pelo sangue, a menina era quase uma criança e ele, apesar de ser uma adolescente foi obrigado a assistir pelo vidro o irmão estuprar sua tián xīn, depois daquele dia, Rachel foi gradativamente se tornando alguém amargo, frio e capaz de qualquer coisa para se manter segura, tinha mais raiva de Ming por ter permitido o que aconteceu do que do marido que a subjugava.
Tentou pensar em como fazer a mulher em seus braços se sentir melhor, lembrou que quando estava casado, os melhores sorrisos de Lis eram nos momentos da refeição. A esposa do hacker amava lasanha, fez o pedido e acrescentou um suco verde, isso tinha certeza de que Linda gostava, já tinha visto a filha de Apollo bebendo várias vezes.
- Com fome? Pedi lasanha e suco, Lis gostava dessas coisas, mas podemos sair, ou pedir o que gostar.
Foi a primeira vez que Linda experimentou o ciúme, ainda assim, vê-lo naquele quarto a fez repensar suas decisões, Ming tinha procurado aprofundar os toques muitas vezes, e ela sempre ponderou que podiam esperar, tinha sonhos e não queria errar, quis, seu corpo pegava fogo sempre que o líder chinês a beijava, mas o medo de que ele a visse como alguém fácil de conquistar a dominava, na verdade, seu maior medo era de que o sеxο colocasse fim naquilo que experimentava quando estavam juntos, temia que quando ele conseguisse, se afastasse e ela achava que morreria de saudades.
Agora pensava diferente, queria o direito de escolher com quem seria sua primeira vez, e não havia dúvidas de que era Ming, sempre foi.
O beijou com desejo, e o puxou para cama, dessa vez, seu corpo reconheceu a excitαção e não o medo, sobre Linda estava o homem que ela desejava pertencer, deslizou a mão para dentro da calça do chinês, sempre quis fazer isso, nunca tinha tido coragem, encontrou o mеmbrο firme, quente e que pulsava sob seus toques, gostou da sensação, sentiu o corpo reagir como havia acontecido tantas vezes antes, ainda assim, precisava manter os olhos abertos, o peso do corpo masculino sobre o seu a fazia lembrar de Anderson, do medo que sentiu...
- O que está fazendo, Linda?
Ming perguntou em meio a respiração ofegante, resistir ao desejo de possuir a mulher era quase doloroso, acreditava que Linda estava reagindo ao trauma, e apesar de não entender o porquê, ele queria que quando ficassem juntos fosse especial, que houvesse mais do que os corpos, sempre tinha visto sеxο apenas como uma forma de descarregar as frustrações, relaxar, mas aquela mulher era diferente, não queria apenas isso, queria fazê-la dele em todos os sentidos, precisava acreditar que ela o escolheria apesar do que pretendia fazer a sua família.
- Sabe o que estou fazendo, só fica quieto e faz o que precisa.
Essa frase foi o bastante para que ele tivesse certeza de que ela não estava buscando fazer amor, só queria afastar a frustração do que viveu com Anderson, poderia ter aproveitado a situação e feito amor com a mulher que deseja ter em sua cama há tempos, foi o que fez com Lis quando ela estava chorando, desesperada e buscou abrigo na amizade que ele oferecia, não havia sido violento, ela o procurou e ele aproveitou que ela estava frágil para abrandar o desejo contido, foram poucas as vezes que ela tinha de fato atingido o prazer com ele, mas não se importava, ele amava o corpo exuberante de Lis e sempre que podia usufruía dos seus favores.
Só que Linda, não era assim que ele queria, havia quase se viciado na adrenalina de ser procurado por ela, na forma verdadeira que a filha do conselheiro se agarrava ao seu corpo, no olhar de desejo, no sabor suave dos beijos, precisava que ela o quisesse de verdade naquele momento, queria a menina que conheceu no condomínio de Ivan e não a mulher machucada que fingia ousadia com o rosto ferido e a dignidade manchada por um abusador.
- Não é isso que quer, Linda, você não é assim.
Falou apesar do desejo, o corpo masculino não seguia a mesma lógica da mente, só enxergava uma mulher bonita que o tocava e estava se entregando aos seus toques, e por muito tempo, a única ética que Ming seguia era a de não usar a violência para conseguir sеxο, enganar, pagar, mentir, se aproveitar da fragilidade, tudo isso era aceitável e válido, só não o estupro. Mas com Linda, não queria que fosse assim, queria que fosse limpo, puro, queria contemplar seu corpo e fazê-la feliz em cada toque. Não apenas por saber que ela estava com a alma ferida que ele a rejeitou, também havia tudo que ela desconhecia, todas as mentiras, o plano em andamento que destruiria as pessoas que ela amava como família.
- QUAL É O SEU PROBLEMA? ALÉM DE FROUXO É GAY?