Ming chegou à propriedade seguindo o GPS com o link de localização por satélite que o hacker havia passado para ele, ainda não tinha certeza se estava sendo ajudado ou se tinha caído em alguma armadilha, mas o que sentia por Linda não o deixou refletir sobre isso por muito tempo, o sentimento de urgência piorou quando viu o painel do carro de Anderson sujo de sangue.
Andou em torno do carro, pensou que pudesse ter sido algum tipo de incidente, não queria acreditar que Anderson fosse capaz de agredir uma mulher, principalmente sendo a própria esposa.
Assim que percebeu o que tinha acontecido sentenciou Anderson, não era um homem violento apesar de estar em um mundo assim, foi criado por um pai controlador e que usava o medo para dominar seus inimigos, e, também seus filhos, o irmão também tinha herdado o apreço pelo sadismo, Ming estava longe de ser um santo, mas acreditava que homens são seres racionais porque devem conquistar com a inteligência e não com a força como animais. No entanto, o lado irracional e selvagem foi despertado assim que soube que Linda estava machucada.
Olhou um lugar com cuidado, não queria colocá-la em risco, a casa tinha um caminho de flores até a porta, imaginou que presente de Apollo, aquela era uma das propriedades da organização.
“Ela não gosta de flores”
Ming não apenas era encantado com a beleza de Linda, também a ouvia, a garota sempre o surpreendia com a inteligência elegante e aguçada que parecia esconder, era uma mistura incoerente de tudo o que a sociedade julgava como superficial e uma profundidade erudita rara. Ela podia conversar sobre política internacional, crises econômicas, oscilações do câmbio e fazer análises de mercado em minutos, ainda assim, trocava a cor dos esmaltes todos os dias, mantinha os cabelos sempre hidratados, nunca foi vista sem maquiagem e até as roupas mais simples mostravam bom gosto e sofisticação.
Uma das coisas que achava engraçada, era que Linda não gostava de flores, ficara com a pontinha do nariz vermelha e coçando, ele gostou da visão, a achou ainda mais bonita com os olhos lagrimejando e o nariz vermelho, nunca mais lhe deu flores, apesar de adorar quando estavam trocando beijos no quintal da casa de Solar e ela tinha uma dessas crises alérgicas, para Ming era simplesmente encantador, apesar de terem que parar de se beijar, pois os espirros não permitiam.
Teria entrado na casa se tivesse sido surpreendido por um baque que quase o derrubou. O susto acelerou seu coração, ou talvez não fosse só o susto.
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Linda entrou em desespero, não sabia o que fazer, mas quando Anderson abriu as calças ela reagiu, apertou a mão na terra e se cortou com uma pedra que estava no local, era pequena, sabia que não seria o bastante para derrubar um homem com o tamanho do marido, mas machucar já lhe parecia uma excelente ideia, tinha certeza de que assim que ele se recuperasse bateria nela com ainda mais força, que se vingaria, mas não se importou, usou a pedra e a força do medo e do ódio, conseguiu correr e o encontro com o ex-namorado pareceu parte de um sonho, chegou a acreditar que não tinha fugido, que talvez tivesse desmaiada e presa em um lugar bonito na própria mente, não quis abrir os olhos, manteve a cabeça no peito do líder chinês e o abraçou com tanta força que os braços tremiam, a sensação de aconchego e carinho a dominaram e o abraço em torno do seu corpo era tão real que esqueceu inclusive da dor que sentia no pescoço, Anderson havia enforcado a mulher com tanta força que os ossinhos da região estralaram, o rosto que antes ostentava uma beleza escomunal estava cortado, inchado e roxo, assim como o pescoço que tinha marcado os dedos das mãos grandes do marido.
- Linda!
Ming também se surpreendeu com o abraço, foi como mágica, estava procurando por ela e de repente ela estava em seus braços, chamou o nome da garota com a voz que se soltou da garanta junto com o ar que mantinha preso nos pulmões pela ansiedade de não saber o que estava acontecendo.
Ver o rosto da ex-namorada ferido e o corpo exposto e sujo de terra o fizeram pensar que tinha chegado tarde demais, a garganta fechou, mas o que sentia por Linda pareceu ficar ainda maior, tirou a camiseta que vestia e colocou na mulher, lhe entregou uma arma e a fez se refugiar na casa que deveria ter sido o leito de uma noite feliz.
Linda não queria se separar de Ming, mas foi como se pudesse ouvir os conselhos do pai.
“Em situações de vida ou morte, não discuta, apenas obedeça”
A casa era bonita, grande, a sala ostentava um sofá em linho no tom rosa queimado que ela adorava, na mesa de centro uma garrafa de champanhe e um bilhete com a letra de Apollo.
“A felicidade pode ser construída, minha menina, e tenha certeza de que jamais teria te afastado de mim se não fosse pela sua segurança. Ming é perigoso, o esqueça e seja feliz com o seu marido, mas lembre-se que sempre estarei aqui por você.”
Chorou e não soube qual sentimento era mais forte em seu peito, se a saudade do colo de Apollo, ou se o ódio que sentia pelo que o pai havia feito.
Ouviu apenas alguns barulhos baixos, a ausência de uma confusão na parte de fora da casa a deixou com medo, saiu pelo receio de que algo tivesse acontecido ao chinês, mas também porque a aquela casa era a testemunha da dualidade de sua vida, um amor tão grande que fez a própria família entregá-la como tributo ao demônio, acreditando estarem salvando Linda.
Assistiu ao golpe que condenou Anderson a ficar sem os movimentos do pescoço para baixo, nunca mais seria capaz de ferir outra mulher.
No carro, Linda não conversou, mas não se afastou de Ming, ficou tão junto a ele que até dirigir ficou difícil, mas ele jamais reclamaria disso, parou em um hotel e no check-in não soube o que fazer.
A recepcionista repetiu a pergunta.
- Senhor, um quarto de casal?
Ele queria desesperadamente dizer que sim, mas imaginava que Linda tinha acabado de ser violentada pelo homem que tinha jurado protegê-la, o marido que tinha por obrigação cuidar dela. Ming não era capaz de entender como alguém podia fazer algo assim, também tinha se casado com Lis por um arranjo estratégico, não havia nenhum amor, apesar do desejo ardente que sentia por ela, no entanto, tentava obstinadamente fazer com que ela pudesse se sentir ao menos confortável.
- Duas camas de solteiro, por favor. E um quarto extra com uma cama se solteiro também.
- Preciso do documento do terceiro hóspede, senhor.
- Sou eu, não posso reservar dois quartos? Cuide da sua vida e faça a reserva!
A moça percebeu a impaciência do chinês e obedeceu, havia gostado da aparência de Ming, mas quando olhou para Linda imaginou que ele fosse violento, quando ele perdeu a paciência, teve certeza, mas em alguns lugares, quando se paga bem, mesmo crimes não são incumbência de ninguém e a máxima de “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, valia como lei.