Isabella
Na tarde de domingo, estou no meu quarto, parada em frente ao espelho enquanto olho para o meu reflexo. Apesar de não gostar muito de vestidos, acabo escolhendo um e o combino com um blazer. Hoje é o dia — devo encontrar Madison em uma hora e de lá vamos juntas até o 19th.
— Eu estou mesmo fazendo isso? — Murmuro, olhando para cima. Às vezes, eu me perco nas situações bem mais do que consigo descrever. Respiro fundo e olho diretamente para meus olhos refletidos no espelho. — Mantenha. A. Calma.
— Você não precisa se preocupar — aconselha minha mãe, entrando no meu quarto. — Tenho certeza que hoje as coisas vão correr muito bem.
Sigo o conselho dela e paro de ficar me estressando muito.
— Venha aqui, me deixe olhar para você. — Minha mãe se aproxima e passa coloca as mãos nos meus ombros. Ela tem um grande sorriso nos lábios.
— O que foi? — Pergunto, encarando-a.
— Nada. É só que é tão bom ver você assim… feliz.
Sorrio, entendendo.
— Você acha que é exagero?
Ela balança a cabeça.
— Acho que você está linda. Pode acreditar em mim, Madison também vai gostar.
Dou um meio-sorriso enquanto ela termina o que está fazendo.
— Obrigada, mãe.
Ela se afasta e vai até a porta, recostando-se no batente. Fica me observando por um momento. Os olhos verdes, que contrastam com a pele suave, continuam a ser deslumbrantes. Mas ela parece cansada.
— Bom, espero que você se divirta, querida — diz, passando as mãos nos cabelos. — Mas me fale mais sobre a Madison. Ela trabalha? Está na universidade? Vai se formar em quê?
Percorro a pequena distância do espelho até a cama e me abaixo, procurando os sapatos. Ela vem atrás de mim e senta na cama.
— Sinceramente, mãe, não sei nada sobre ela. Imaginei que pudesse me ajudar com essa questão já que mora no condomínio a mais tempo.
— Bem, eu não sei muito sobre ela. Madison sempre foi uma pessoa bem reservada — ela diz. — Mas isso pode ser algo bom.
— Bom? — Olho para ela. — Como não saber nada sobre ela pode ser bom? Estou prestes a passar horas a sós com ela. — Pego meu calçado e me sento na cama para colocá-los.
— Assim terão muito sobre o que conversar.
— É verdade — digo.
— E acredito que vocês vão se divertir muito.
Esse pensamento me faz sorrir.
Quando estava crescendo, minha mãe me deu conselhos muito bons. Ela sempre sabia o que eu queria ouvir, mas sempre dizia o que eu precisava ouvir. Meu pai foi seu primeiro namorado, então sempre me perguntei se ela não tinha nenhum arrependimento.
— Mãe? — Digo, enquanto coloco as sapatilhas. — Como você e meu pai conseguiram ficar juntos por tanto tempo?
Ela não responde de imediato. Em vez disso, fica em silêncio, refletindo sobre minha pergunta.
— Ele sempre me tratou com toda a devoção, mas o principal motivo era que ele despertava em mim o desejo de ser uma pessoa melhor. Todos os segundos em que estive com ele.
Uma tristeza toma conta de seus olhos quando ela termina a frase. Apesar de eles terem se separado, eu sei que ela se importava muito com meu pai. Eu me arrependo imediatamente de mencionar o assunto. Coloco os braços ao redor dela e a abraço. Ela beija meu cabelo, depois se afasta e sorri.
Levanto e passo as mãos no vestido, alisando as dobras.
— E então? Como estou?
— Está linda — ela diz, suspirando.
São 20h30 em ponto, então vou para a sala de estar, e olho pela janela. Madison está saindo de casa, portanto vou lá para fora e fico parada na entrada. Ela olha para a frente e percebe minha presença enquanto está abrindo a porta do carro.
Madison sorri e entra no carro. Depois vem de ré da entrada da casa dela até a minha, assim, a porta do passageiro fica mais perto de mim. Assim que entro, dou uma conferida nela. Ela está usando um blazer azul marinho combinado com uma calça jeans escura e seus cabelos geralmente lisos, estão ondulados.
Madison espera eu colocar o cinto, antes de dar a partida.
— Onde fica o 19th? — Pergunto, realmente interessada. Ela não me deu nenhuma informação complementar sobre isso.
— É surpresa — diz, trocando um rápido olhar comigo. — Descobri muito sobre você nos últimos dias, então, está noite quero mostrar a você um pouco do meu mundo.
— Bom, estou intrigada — digo. E estou mesmo.
Tento pensar em algo para quebrar o gelo, então pergunto a respeito da família dela.
Ela parece relutar um pouco, mas acaba me contando resumidamente sobre sua família e não posso deixar de ficar surpresa com algumas similaridades em nossas histórias.
Continuamos a conversar e contar histórias — sobre quais instrumentos pratiquei (piano e violão, mas o segundo é minha paixão), quais livros adoro (vários), lugares para onde viajei nas férias (menos do que gostaria) — e Madison compartilha algumas de suas próprias histórias. Ela costumava fazer tardes de leitura com sua mãe em um lago de Boston todos os domingos; um dos únicos dias que ambas podiam compartilhar juntas. Madison também toca desde a infância e foi daí que nasceu sua paixão pela música; ela já criou algumas composições, mas ultimamente anda parada.
Parece que estamos absorvendo as informações em largos goles, mas o modo como essas histórias se desenrolam, com suas piadas e anedotas paralelas, fazem-me perceber que estamos realmente nos conhecendo daquele modo intenso que ocorre quando as pessoas passam um bom tempo convivendo juntas, como em um acampamento de verão.
Até agora, tudo no encontro está sendo fácil. Estou gostando do senso de humor dela. E do fato de eu estar rindo perto dela com tanta facilidade após ter passado tantos meses sem rir. Estou gostando do fato de ela não ter se preocupado em me impressionar. Até gosto do fato de ela não ter elogiado o que estou vestindo, pois isso parece ser o esperado quando duas pessoas se encontram para sair. Até agora estou gostando de tudo na noite.
Quando chegamos ao nosso destino, eu imediatamente observo a fachada do moderno bar no centro de Seattle.
Saímos e nos encontramos na frente do carro. Não sei quem estende o braço primeiro, mas, para minha surpresa, os dedos dela se encontram com os meus no meio da escuridão. Ela segura minha mão e me leva em direção à entrada.
— Isso está bom pra você? — Madison pergunta.
Levanto meus olhos para o rosto dela e depois analiso os arredores, observando o lugar pela primeira vez. Madison com certeza estava sendo modesta quando me convidou. O 19th é um… bar? E isso é o mínimo que consigo dizer sobre esse lugar sofisticado.
— Você está se exibindo, não é?
Ela me presenteia com uma risada, um som maravilhoso.
— Com certeza estou.
Seguimos em direção a área interna com vista para o palco e para o público geral logo a frente.
Sem nenhuma surpresa, o lado de dentro é tão sofisticado quanto a fachada. As paredes dividem espaço com janelas que vão do chão ao teto, dando uma bela visão para as pessoas sentadas nas mesas dispostas ao redor do bar. A decoração é composta por arte moderna e a iluminação é baixa, o que dá um ar aconchegante ao ambiente.
— Alguém mais vai se apresentar? — Pergunto, olhando para os instrumentos posicionados sob o palco.
— Hoje sim. Este é um evento em miniatura que acontece ao menos duas vezes por mês — Madison responde, nos levando a uma área VIP, isolada, perto do palco. — A visão daqui é melhor.
Será que ela está falando sério? Essa garota que é linda e me faz sorrir vai mesmo se apresentar? Acho que estou precisando de um beliscão.
Ou não… Vai ver é melhor não acordar.
— O que vocês vão tocar? — Pergunto, observando o fluxo de pessoas aumentar e preencher as mesas restantes.
— Bom, você vai ver. — Madison diz, enquanto nos acomodamos nas cadeiras. Como a mesa fica de frente para o palco, me sento no meio para ficar com a melhor vista. Ela senta do meu lado. — Mas cada pessoa que se apresenta aqui tem alguma espécie de conexão com a música.
Ela se recosta na cadeira e olha para o palco. Percebo a paixão que há em seus olhos quando ela fala sobre o assunto.
Ficamos em silêncio por alguns instantes enquanto observamos a movimentação à nossa volta. Como em sincronia, sua mão encontra a minha sob a mesa. Mas nossos dedos não se entrelaçam desta vez. Em vez disso, as pontas de seus dedos começam a percorrer a lateral do meu pulso, seguindo as linhas e curvas da minha mão. Sinto como se as pontas de seus dedos fossem pulsações elétricas na minha pele.
— Isabella — ela diz baixinho, enquanto contorna meu pulso, indo até os dedos com um movimento fluido. — Não sei o que você tem… mas gosto de você. — Os dedos dela deslizam entre os meus, então ela segura minha mão, voltando a atenção para o palco.
Eu inspiro e olho para nossas mãos unidas. Gosto muito da facilidade desta transição, é como se estivéssemos acostumadas a ficar de mãos dadas há anos.
Madison sorri e se vira para ver uma das integrantes de sua banda, a amiga que conheci da última vez, andando até a nossa mesa.
Ela dá um tapinha no ombro de Madison e sorri para mim. Seus longos cabelos estão soltos e um símbolo de paz está pendurado no seu pescoço. Suas roupas seguem um estilo semelhante as de Madison.
— Espero que esta i****a não esteja te incomodando — brinca.
— Pelo contrário. — Digo, sorrindo.
Ela estende a mão para mim e eu a cumprimento.
— Devemos subir ao palco em alguns minutos.
— Tenho certeza de que vocês são incríveis.
Madison suspira profundamente.
— Por favor, não a deixe mais convencida do que já é naturalmente.
Kate dá um passo para trás e coloca a mão no peito.
— Convencida? Eu?! De jeito nenhum. — Ela sorri e se inclina para mim. — Obrigada, querida.
Eu rio de suas palavras — e de Madison, que está revirando os olhos.
— Odiaria roubar Madison de você, mas temos que começar a nos preparar… — Kate sorri e bate de leve nas costas de Madison antes de olhar para mim. — Tenho certeza que não vai se arrepender do que vai ouvir.
— Estou ansiosa por isso, Kate.
Ela cutuca o braço da amiga.
— Gostei muito dela — cochicha, antes de marchar de volta para o palco.
Madison ri.
— Logo você vai se acostumar com Kate. Ela consegue ser é um tanto… peculiar.
— Eu gosto de pessoas peculiares — falo.
Ela se levanta da cadeira e sorri para mim.
— Você é intrigante. Gosto disso.
— Você sabe do que mais gostei em você? — Pergunto, me ajeitando na cadeira. Ela me faz sentir como se não houvesse nada mais importante no mundo do que o agora.
— O quê?
— Tudo. — Quando digo isso, o rosto dela se ilumina, me presenteando com a mais encantadora das visões. — Dê o seu melhor lá em cima — completo, acenando a cabeça em direção ao palco.
— Você vai ficar bem aqui? — Ela pergunta, enfiando as mãos nos bolsos da calça jeans, e balançando o corpo para trás e para a frente.
— Sim. — Afasto uns fios de cabelo do meu rosto e noto que ela está olhando para os meus lábios. — Boa sorte.
Ela responde com um sorriso e inclina-se, beijando minha bochecha e quase me aniquilando, antes de seguir na direção do palco.
Enquanto ela está longe, eu me recosto um pouco mais na cadeira e decido que, pelo resto da noite, vou ser apenas uma espectadora.
Viro na direção do palco para assistir à apresentação da banda, já me apaixonando por sua vibração. Todas as integrantes parecem à vontade, em sua zona de conforto. Percebo também mais duas garotas sob o palco.
Madison está sentada em um banco alto, com o violão apoiado sobre a coxa direita enquanto toca. Seu sorriso é fácil e contagiante. Dentro do peito, meu coração acelera.
Sinto o público prender a respiração, percebo o modo como as pessoas nas cadeiras se inclinam adiante para vê-la e não apenas ouvi-la.
E lá, completamente entregue, suas mãos deslizam com fluidez sobre as cordas do violão. Nunca vi os dedos de ninguém se moverem dessa forma, como se ela nem sequer precise pensar. As luzes recaem sobre ela, e ela abre os olhos, que brilham como as estrelas.
Ela está linda lá em cima. Não de um jeito grandioso e chamativo, mas num estilo sereno e delicado.
Diferente de como ela faz na estação, aqui Madison está tocando para seu público. Ela dá sorrisos divertidos e levanta seu queixo cumprimentando algumas pessoas. Essa é uma versão tão diferente dela — e, mesmo assim, tão única — que m*l consigo desviar os olhos.
Em alguns momentos, ela acompanha Kate, que descubro ser a vocalista. Sua voz e leve como uma brisa, mas eu sei que pode criar uma tempestade se ela quiser.
Essas garotas vivem as palavras que cantam, elas adotam as rimas que a banda criara como se fossem únicas, e elas me inspiram.
Madison ergue o rosto e quando olha para a plateia, encontra meu olhar. Não o desvio, eu não posso. Ela esboça um sorriso enquanto toca. Isso me faz sorrir. Ela meneia a cabeça para mim, e, quando toca as notas finais da música, sinto como se estivesse fazendo uma apresentação só pra mim.
Meus olhos se afastam dos dela, desviando-se para o chão. Mas posso ouvir a banda em êxtase enquanto é aplaudida. Elas saem do palco, desaparecendo rumo aos bastidores. Noto que meu coração está acelerado no peito. Não tenho ideia de como reagir. Fico impressionada com a apresentação, mas também submersa na paixão que cada uma demonstrou enquanto estavam no palco.
Quando a próxima banda sob ao palco para se preparar, me levanto e me dirijo rumo a entrada dos bastidores.
A garota que eu tinha visto caminhando em direção ao palco não é a mesma que vejo caminhando em minha direção. Estou confusa, sem saber o que pensar e, acima de tudo, surpresa.
Ela é tão perfeita.
Minhas emoções passam a tomar conta das minhas ações. Estico os braços, seguro as mãos dela, e ela entrelaça seus dedos aos meus. Não estou compreendendo esta ligação que sinto entre nós duas. Tudo parece tão rápido, mas tão certo. Ela levanta minha mão direita e a aproxima da sua boca, então beija delicadamente minha palma enquanto olha diretamente para mim. De repente, passamos a ser as únicas pessoas no bar; todos os ruídos externos desvanecem a distância.
Madison desliza uma mecha de cabelo para trás da minha orelha. Fecho os olhos e inspiro, tentando acalmar o impulso que toma conta de mim, o impulso de querer beijá-la. Não sei como ela tem tanto autocontrole. Ela se afasta e desliza a mãos pelos meus braços. Abro os olhos e a encaro.
Ficamos trocando olhares por mais alguns segundos até o público do bar começar a se agitar novamente. A próxima banda está no meio da apresentação. Madison segura minha mão e sussurra:
— Vamos.
Enquanto a acompanho, parece que meu corpo inteiro vai parar de funcionar. Nunca vivenciei nada parecido com o que acabou de acontecer.