Isabella
Saímos do bar, e nossas mãos estão entrelaçadas enquanto ela me guia até o estacionamento. Só percebo que estou sentindo calor quando o ar frio de Seattle entra em contato com minha pele. É revigorante. Adoraria que as últimas duas horas da minha vida pudessem ficar se repetindo eternamente.
— Você não precisa esperar pela sua amiga? — Pergunto.
— Ai, meu Deus… não me diga que você já está interessada em Kate? — Levanto a cabeça e vejo Madison olhando para mim. Como em um sonho, ela sorri, e eu paro de respirar. — Está vendo, é por isso que eu deveria ter trabalhado melhor no quesito impressionar.
De repente me sinto intimidada por uma estranha e vibrante timidez, e respiro fundo.
Ela coloca a mão livre no bolso. Dá para ver que a leve brisa em seu rosto provavelmente a faz se sentir bem depois de ter estado sob as luzes quentes no palco.
— Eu pensei… — Ela faz uma pausa e sorri. Imagino que esteja rindo de si mesma, pois eu não fiz nada engraçado. — Deixa pra lá. Foi só um devaneio.
— Duvido que isso seja verdade — Digo, sorrindo.
— Eu deveria ter seguido os conselhos da minha mãe — Ela dá uma risadinha, esfregando o queixo com a palma da mão. — Ela sempre disse que a melhor forma de impressionar alguém é mostrando suas habilidades na cozinha.
Me esqueço de piscar enquanto observo seus lábios formarem as palavras, e a curiosidade abala todo o meu ser. Quero saber mais. Mais sobre esses conselhos. Mais sobre seus pais. Mais sobre ela. Quero saber tudo sobre essa garota que está ao meu lado e que tem o poder de me fazer se sentir bem.
— Acho que você vai ter que trabalhar melhor nesse quesito — falo, contendo um sorriso.
— Então, vou me empenhar nisso.
O silêncio volta enquanto caminhamos em direção ao carro. Desvio o olhar e fico encarando o chão por um bom tempo. Quando ergo o olhar de novo, ela ainda está sorrindo, e vasculho meu cérebro em busca de algo para dizer, algo que não seja desinteressante aos olhos dela.
— Você realmente parece apaixonada pela música — Comento. — Isso ficou bem perceptível durante sua apresentação. Quando alguém ama o que faz, se entrega a isso de corpo e alma.
— Bom, você acertou — Madison olha para o céu. Suas palavras, quase num sussurro, saem de sua boca. — A música foi o que me salvou, é o que me impulsiona… Então, sim, é uma paixão que tenho.
— Eu sempre me senti atraída pelo universo da música — falo, de repente animada com o fato. — Sei que ainda tenho um longo caminho a percorrer, mas eu realmente quero me dedicar a isso.
Madison passa as mãos pelos cabelos e se inclina para a frente.
— Bom, agora você tem alguém com quem compartilhar essa paixão. Se tiver interesse, posso te mostrar alguns dos meus trabalhos de faculdade.
Sorrio.
— A maioria das pessoas acha estranho que eu consiga gostar de gêneros músicais tão diferentes ao mesmo tempo. Meus pais eram os únicos que realmente me entendiam, ninguém mais.
Ela não sorri com os lábios, mas seus olhos brilham de interesse.
— Foram seus pais, certo? — Madison diz. — Seus maiores motivadores?
— Foram, sim. — Isso é tudo que consigo dizer. Eu não sei o que mais posso dizer, e só de pensar em meu pai, e nas nossas tardes juntos, já sinto de novo a aproximação da onda de tristeza.
Com nossas mãos ainda unidas, ela dá um passo mais para perto.
— Meus pais morreram há um ano meio.
Fico boquiaberta.
— Por que você não comentou nada quando te perguntei sobre sua família?
— Algumas coisas eu prefiro guardar para mim — ela sussurra. Sei bem como é isso. — Mas como você compartilhou algumas informações pessoais, queria fazer o mesmo. E sabe, as pessoas dizem que com o tempo vai ficar mais fácil, mas…
— Só fica mais difícil — completo, entendendo totalmente e me aproximando dela.
— E a história vai ficando velha para todo mundo ao seu redor. E por mais que algumas pessoas ainda queiram te ouvir, você sabe que elas jamais vão entender. — Ela faz uma pausa, olhando para mim com carinho. — Bom, mas eu sempre soube que não estava só. Sempre tive ao meu lado alguém que entendia perfeitamente pelo que eu estava passando.
Ela sorri de forma singela.
— Quer ouvir algo que parece loucura? — Vejo seu olhar encher-se de melancolia. — Eu nem estava presente quando o acidente aconteceu. Na época eu já morava em Seattle por conta da faculdade, então nem pude me despedir.
Suas palavras saem quase como um sussurro, e posso ver como isso ainda lhe causa dor. Isso me faz se sentir m*l por vê-la nessa situação. Uma pessoa como ela não deveria passar por isso.
— E você aprende que não pode ficar revivendo isso para sempre. Então, você age como se não doesse mais. — Ela aperta minha mão na sua. — Mas a verdade é que as vezes ainda dói bastante.
E ali, enquanto escuto ela falar sobre sua perda, sinto meus olhos lacrimejarem. Todos os últimos acontecimentos na minha vida ainda mexem demais comigo. Todas as coisas antigas que foram tiradas de mim…
Me sinto um pouco boba por chorar na frente dela, mas a verdade é que ela é a primeira pessoa que parece realmente entender o que eu estou passando, que fala abertamente sobre isso. Ela não me pede para se explicar, em vez disso apenas me abraça e me puxa para perto.
Ficamos abraçadas por mais tempo, ela sussurrando em meus cabelos que algum dia, de alguma forma, a dor já não se fará mais presente, que ela será substituída por um sentimento mais agradável.
Me afasto, enxugando o rosto com as mãos. Então escuto um riso nervoso. Não tenho certeza se é meu ou dela.
— O que foi? — Pergunto, confusa.
Madison cambaleia alguns passos para trás com um largo sorriso.
— Nossa — ela diz. — Acho que você consegue ser adorável independente da situação.
Sorrindo, coloco as mãos nos bolsos do blazer e olho para o céu escuro. Tudo parece tão simples e igualmente tão único. Um bar com uma apresentação que toca minha alma. Uma garota que sabe o que é perder parte de sua alegria de viver. Uma leve brisa refrescando todo o meu ser.
Ficamos em silêncio novamente. Nunca achei que o silêncio pudesse ser tão aconchegante. Ela não consegue parar de sorrir, nem eu. Eles são intensos, sorrisos bobos, mas naturais.
Madison dá um passo para trás.
— Esta noite foi realmente muito intensa.
— Concordo.
— Mas sabe… — Ela se vira e morde o lábio inferior. Aproxima-se de mim e segura meu rosto com a mão. — Podemos deixar ela um pouco mais intensa.
Quando ela diz isso, arqueio uma sobrancelha.
Ela sorri da minha reação. Quando seu rosto fica mais perto do meu, respiro fundo, roçando meus lábios nos dela. A sensação é de que nossas bocas ficam uma eternidade a milímetros de distância, mas sei que são apenas alguns segundos.
Então nossos lábios se conectam de uma forma que eu nunca experimentei. É preciso criar um novo adjetivo para esse tipo de beijo, porque nenhum dos que conheço podem ser aplicados a ele.
Nenhuma garota nunca me beijou do jeito que ela me beija. Eu nunca soube que beijar poderia ser tão simples e tão complexo. Ela faz todo o trabalho, explorando meus lábios com os seus.
Madison me abraça com mais força e minha mão mergulha em seus cabelos. Sinto sua língua separar meus lábios, encontrando minha língua pronta para se tornar bem íntima da dela.
Quando finalmente paramos, nossos lábios ainda ficam se tocando enquanto hesitamos em nos separar. Quando abro os olhos, encontro o seu olhar, e ela sorri para mim quando segura minha minha mão para beijar meu pulso.
— Nossa… Isso foi incrível.
Se inclinando para a frente, sinto os lábios de Madison em meu queixo antes dela sussurrar:
— Você não faz ideia de como.
Dou um passo para o lado. Olhando em seus olhos, pisco rapidamente, para não perder muito desse momento.
Ela me dá um meio sorriso, como se estivesse esperando que eu dissesse algo. Como não falo nada, coloca a mão no meu rosto, percorredo a lateral da minha bochecha com o polegar.
Não imaginei que isso fosse possível. Não imaginei que uma pessoa pudesse entrar na minha vida de uma forma tão intensa e inesperada. E não posso deixar de me questionar: Será que vale a pena continuar por esse caminho?
— Isso tudo é novidade para mim — confesso, segurando sua mão. — Na verdade, nunca imaginei que pudesse vivenciar uma experiência como essa. Então não sei o que esperar de tudo isso.
Madison entrelaça nossos dedos e estuda o meu rosto sem falar nada. O sorriso que ela abre devagar preenche o silêncio como um discurso perfeito. Seus olhos invadem minha alma antes dela dizer:
— Quero que saiba que isso não é um jogo, Isabella. Muito menos estou aqui para usar você. Não sou o tipo de pessoa que se envolve ao acaso.
— Por que está me dizendo isso?
Ela aperta minha mão na sua. Seu toque me eletrifica, enviando ondas de calor pelos meus dedos.
— Porque estou fascinada pelo seu sorriso e vou fazer tudo ao meu alcance para mantê-lo vivo.
Algumas palavras. Algumas palavras de uma garota e simples toques me trazem uma sensação de vida que eu nunca havia experimentado antes. A naturalidade com que ela se aproxima é muito bem-vinda.
Minha nossa. Estou oficialmente caidinha por ela.
Meus olhos encontram ela sorrindo para mim. Ela dá alguns passos para trás e faz uma reverência.
— Eu sei, sou incrível — brinca.
Não posso conter minha alegria, e é inútil tentar. Vou na direção dela, e ela é tomada de surpresa quando me jogo em seus braços para um abraço apertado. Ela não vacila em retribuir o gesto, me abraçando também.
— Você não sabe o quanto estou me sentindo bem nesse momento — sussurro, querendo poder beijá-la mais e mais.
Ela se afasta um pouco e me olha, sorrindo.
— Isso é maravilhoso, mas vou parar de prendê-la aqui e levá-la para casa.
— Tá, tudo bem. É que… — Minha voz vai sumindo, e ela estreita os olhos para mim, esperando eu terminar. — Queria aproveitar essa noite um pouco mais.
— Você está me pedindo para estender a noite um pouco mais? — Madison pergunta.
Eu assinto com olhos esperançosos, rezando para que ela não pense que eu sou maluca. Ela levanta minha mão na sua e me cutuca no ombro.
— Lembra que eu não sou boa com direções? — diz. — Talvez acabe pegando o caminho mais longo até em casa.
Sorrio.
Ela abre a porta, mas, antes de eu entrar, coloca os braços ao meu redor e me aproxima dela, me dando um abraço apertado. Eu poderia até terminar me acostumando a isso, o que é uma sensação completamente nova para mim. Sempre fui tão fechada. Esse jeito dela traz à tona um lado meu totalmente desconhecido.
Após um tempo, nos separamos e entramos no carro. Quando saímos do estacionamento, encosto a cabeça na janela e fico observando o bar dedesaparecer de vista.
— Madison? — sussurro, sem parar de olhar para o prédio que reduz de tamanho atrás de nós. — Obrigada.
Como ela fez questão de tornar a viagem um pouco longa, acabo pegando no sono, sorrindo.
Acordo com Madison abrindo a porta; estamos na entrada da minha casa. Ela estica o braço e segura minha mão, me ajudando a sair. Nem me lembro da última vez em que peguei no sono num carro em movimento. Ela põem os braços ao redor da minha cintura, eu levanto os meus e coloco ao redor de seus ombros. Um arrepio percorre meu corpo inteiro enquanto a respiração dela aquece meu pescoço. Não dá para acreditar que nos conhecemos há apenas uma semana; parece que estamos juntas há anos.
— Olha só — brinco. — Conseguimos chegar em um bom horário. Então acredito que você não vai ter problemas com minha mãe.
Ela ri e me puxa ainda mais para perto.
Se conheço minha mãe, ela está acordada, trabalhando em algum projeto, então fico aliviada quando seu beijo de despedida é apenas um beijinho bem rápido na bochecha. Ela se afasta lentamente em direção ao carro. Meus braços voltam para o lado do meu corpo, e sinto-me tentada a correr até ela e beijá-la de novo. Em vez disso, resisto à tentação e dou meia-volta para entrar em casa.
— Isabella!
Eu me viro, e encontro uma garota linda sorrindo para mim.
— Estava esperando o melhor momento para dizer isso… — Madison diz, colocando as mãos nos bolsos. — Você está linda hoje.
Ela acena, entra no carro e vai para sua casa.
E nesse momento percebo que talvez eu estivesse errada mais cedo quando pensei que gostava dela não ter me elogiado. Ao chegar à porta de casa, ela se vira e sorri antes de entrar.
Exatamente como imaginei, minha mãe está no sofá com seu notebook, provavelmente imersa em trabalho quando entro pela porta da frente.
— E então, como foi? Você se divertiu? — Ela pergunta, erguendo o olhar em minha direção.
A esta altura, já não me preocupo mais em conter o meu sorriso. Vou até o sofá na frente dela, jogo meu corpo nele como se fosse a cama mais confortável do mundo e suspiro.
— No fim, você tinha razão, mãe. Eu adoro Seattle.