Yuri Oliveira | Dias Atuais
— A carga acabou de chegar — Mathias anunciou ao entrar na sala.
Ele tirou a pistola do cós e a colocou sobre a minha mesa. Levantei os olhos dos papéis para encará-lo.
— Onde você deixou? — perguntei, juntando a papelada e guardando na primeira gaveta.
— Tá no depósito. — Ele se sentou à minha frente. — O que eram esses papéis aí?
— Nada demais — desconversei. — Só o projeto de uma escola nova e...
Não terminei a frase. Não gostava mais de dividir meus planos com ele. Eu queria estar errado, mas sentia que o Mathias tinha se tornado outra pessoa.
— Você está mesmo focado na educação da molecada, né? — Ele deu um sorriso de canto, meio debochado.
— Tu tá ligado que a vida é muito mais que arma e droga, não tá? — rebati. — Esses moleques precisam de uma profissão. Sei que na tua cabeça a ideia é recrutar cada vez mais menores, mas porra...
— Eu sei, lá vem você com essa ladainha de salvar vidas e que o sistema é foda... — Ele revirou os olhos. — Se tu se importasse tanto, não vendia droga pros playboys do Leblon.
— E tu acha que eu vou me importar com moleque que já nasce rico e morre rico? — Minha voz saiu mais ríspida do que eu pretendia. — Eles que financiam a nossa desgraça. Roubam nossas vagas em faculdade pública, fodem o sistema e pagam pelas chacinas contra pretos. Pra eles, eu vendo sem pena.
— Você devia aceitar seu lugar de traficante e pronto. — Ele suspirou. — Mas enfim, sei que você não vai mudar. Vai pro baile hoje?
Ignorei o comentário dele. O fato era que o Mathias só se importava com o dinheiro no próprio bolso. Ele era meu braço esquerdo, e eu costumava agir como se ele fosse o direito, até abrir os olhos e perceber que ele não aceitava o meu status. Foi aí que encontrei o Jota.
O Jota era meu braço direito agora. Ele sabia de tudo e realmente se importava com a comunidade, mesmo tendo parado de estudar no oitavo ano.
— Qual baile? — perguntei.
— No morro do... — ele estalou os dedos, tentando lembrar. — Esqueci o nome. Aquele do cara da barbona que veio aqui outro dia.
— Vinícius? — indaguei.
— Isso, ele mesmo. — Mathias tirou um maço de cigarros do bolso.
Ele acendeu um com o isqueiro vermelho e deu uma tragada funda.
— Não gosto que fume aqui dentro — reclamei.
Ele me encarou por um segundo, soltou a fumaça e caminhou até a porta.
— Espero tua resposta pelo w******p — disse, batendo a porta ao sair.
Eu não achei que fosse sair da cama hoje. Tive que conferir carga de maconha, armamento e resolver toda a burocracia que faz o crime funcionar. No final do dia, eu estava exausto. As coisas estavam calmas demais, e no meu mundo, calma demais é sinal de que alguma merda grande vai acontecer.
— Achei que não viria — Mathias falou, jogando a fumaça de um baseado para fora do carro.
— Eu também — suspirei, entrando no veículo.
— Tá entediado, chefia? — Jota perguntou no banco da frente.
— Muito — resmunguei.
— Quer dar um tapa? — Mathias me estendeu o beck.
— Não, valeu. — Empurrei a mão dele. — Vamos logo.
O rosto dele se contorceu. Ele nunca dizia nada, mas estava na cara que odiava receber ordens minhas.
A música alta já incomodava meus ouvidos. Nunca fui de farra; sabia meu lugar e sabia que, se eu desse mole igual a alguns por aí, terminaria morto.
Mathias era meu irmão de vida, por isso eu não me livrava dele. Era questão de lealdade por quem esteve comigo na caminhada. O Jota chegou depois, mas eu também confiava nele de olhos fechados.
Atravessamos a multidão, sempre com a mão na peça. No tráfico, você aprende rápido que a vida é curta demais para confiar em qualquer um.
— Ih, olha ele aí... — Ouvi a voz do Vinícius. — Bem na hora.
— Fala, Vini. — Apertei a mão dele. — Bem na hora de quê?
— Do banquete — ele sorriu. — E aí, Jota!
Ele começou a cumprimentar os caras, mas eu entrei em transe. Perdi o chão quando uma morena passou bem na minha frente.
Ela nem me olhou. Estava rindo com as amigas, jogando o cabelo para trás e com as mãos nos quadris. Usava uma calça branca e um corset nude que marcava bem a cintura. Os detalhes em preto, o cordão brilhante e o salto combinavam perfeitamente.
Acho que estou apaixonado.
— Chegaram! — Vini sorriu. — Chega aí!
— Vini! — Ana Beatriz, que já tinha um rolo antigo com o Mathias, apareceu. — Trouxe as meninas, queremos o camarote.
— É tudo de vocês, irmãzinha — Vini beijou o topo da cabeça dela.
Um detalhe: a Ana é irmã do Vinícius, nosso maior aliado. Eu nunca apoiei o rolo dela com o Mathias, mas cada um segura seus b.o. sozinho. Eu dei o conselho, ele não ouviu.
— Vamos subir — ela disse, animada. — Oi, meninos.
A morena que me deixou hipnotizado me notou pela primeira vez, mas logo foi puxada pela Ana para o camarote. Eu as segui, indo logo atrás do Vini, já pensando em como chegaria nela. Aquela ali já era minha.
— Olha aquela gostosa... — Mathias cochichou, tocando meu ombro.
— Tô vendo — respondi seco. — Fica longe. A Ana Beatriz te mata.
— Ela nem precisa saber — ele sorriu de canto.
Não respondi. Não ia entrar naquela pilha. Eu já tinha decidido: aquela garota seria minha e ninguém ia mudar isso.
Eu já estava um pouco alto, sentado numa cadeira desconfortável do camarote, sentindo saudade de casa. Foi quando ela se sentou ao meu lado, bufando e tirando os saltos.
Ela olhou para o celular e vi o nome "mãe" na tela. Desviei o olhar para respeitar a privacidade dela.
— Qual o seu nome? — perguntei.
Ela levou um susto e me encarou.
— Luiza — disse, tímida. — E o seu?
— Pode me chamar de Playboy — respondi com um sorriso. — Cansada?
— Muito — ela admitiu.
— E o que ainda está fazendo aqui, então? — perguntei, rindo.
— O mesmo que você! — ela pontuou. — Você também parece exausto.
— E estou. Mas não tenho carona.
— Onde você mora? — perguntei.
— Na comunidade vizinha, aquela ali atrás — apontou. — Sou moradora nova.
— Por acaso, você é filha da Dona Neiva? — cerrei os olhos, tentando lembrar.
— Como você sabe? — Ela ficou chocada.
— Eu comando as coisas por lá.
— Ah! Você é o cara de quem a minha mãe falou — ela riu, apontando para mim.
— Sua mãe fala de mim, é? O que ela disse?
— Não queira saber. — Ela gesticulou com as mãos. — Para uma senhora da igreja, ela é bem fofoqueira.
Eu ri alto.
— Vamos nessa. — Me levantei. — Também quero ir para casa. Te levo lá.
— Sério? — Ela suspirou, aliviada. — Valeu mesmo.
Ela sorriu e senti um frio na barriga. Falei rápido com o Jota, peguei o carro dele e avisei que mandaria um moleque devolver depois. Saí com a Luiza sob o olhar torto do Mathias. Ele que arrumasse sarna para se coçar em outro lugar; com a Luiza, ele não ia arrumar problema. Não mesmo.