— Hum, ele ainda abre a porta do carro — ela comentou, fazendo bico.
— Posso completar a letra da música também, se você quiser — respondi, com um sorriso de canto.
— Qual delas? — perguntou, enquanto se acomodava no banco do carona.
Dei a volta e assumi o volante.
— "Posso te chupar todinha de quatro" — soltei, olhando fixo nos olhos dela.
Senti meu sangue esquentar enquanto ela me encarava, chocada.
— Você é muito abusado, sabia? — respondeu, rindo. — m*l nos conhecemos e já está com esse papo.
— Foi m*l. — Girei a chave na ignição. — Não achei que você fosse santinha.
Ela abriu a boca em um perfeito "O".
— Eu não sou santinha, ok? Só acho que...
— Acha o quê? — perguntei, antes de dar partida.
— Que você deveria ser mais romântico. — Ela deu de ombros.
— Acabei de te conhecer, garota — ri, acelerando o carro.
— Eu sei, mas ainda gosto do romantismo à moda antiga.
Saímos pela rua principal e comecei a descer o morro.
— Me fala de você, Luíza. Como veio parar aqui?
— Quer saber por que me mudei? — indagou.
— Sim.
— Eu não decidi nada. Cresci num lar abusivo. Meu pai sentava a mão na minha mãe, era um bêbado escroto que agia como se fosse o dono do mundo. — Ela desviou o olhar. — Ele tratava a gente como empregadas. Mas não agia como o homem que dizia ser. Gastava tudo em cachaça e vivia encostado na minha mãe.
— E quando ela resolveu mudar? — perguntei. — Não quero ser invasivo, se não quiser falar...
— Relaxa. — Ela me lançou um sorrisinho triste. — Acho que foi quando ele a roubou para dar dinheiro para a amante. E ainda teve a cara de p*u de levar a mulher para dentro de casa.
Arregalei os olhos. Muitos caras no crime têm amantes, é comum, mas existe um código de ética: as duas nunca se cruzam. O bom senso manda manter as coisas separadas.
— Ele teve essa coragem?
— Sim! Estava cheiradão. Minha mãe trocou a fechadura e viemos embora um mês depois. Ela largou tudo e viemos, sem dó.
— Coragem a dela — murmurei. — Não de ter vindo embora, mas de ter aguentado esse papel por tantos anos.
— Ela é de igreja, aí já viu, né? — Luíza suspirou. — Acreditava em tudo o que o pastor falava. Não que eu odeie a religião, eu gosto da igreja... só odiava aquele escroto em específico.
— A mudança deve ter sido difícil.
— Que nada! Eu me amarrei quando soube que ia sair daquele inferno. — A voz dela ficou mais animada. — Que se danem os amigos e os parentes. Eu só queria me livrar de tudo aquilo.
Fiquei em silêncio. Não sabia se ela estava sendo sincera ou se estava tentando parecer forte, mas a verdade é que eu estava curtindo o papo. Fluía fácil.
— E você? — ela perguntou.
— Eu o quê?
— Por que entrou nessa vida?
— Ah, isso... — Cocei a nuca, meio sem jeito. — Na verdade, nem eu sei direito. Eu era promissor, sou formado em Direito e tudo.
— Por isso fala tão bem — ela me interrompeu.
Rio sem graça. Geralmente, o fato de eu ser bandido pesava muito mais do que o diploma guardado na gaveta.
— Quando minha mãe morreu, eu tinha vinte anos. Era só eu, ela e minha irmã... e o Mathias, por tabela. Eu jurei que nunca viraria traficante, mas chegou uma hora em que trabalhar e estudar ficou insustentável. O crime dava uma grana rápida...
— E por que não saiu depois? Você subiu muito de cargo. — Ela parecia interessada de verdade.
— Uma coisa que aprendi tentando ser advogado é que, quando você entra no sistema, não tem chance contra ele. Eu era só um número, e os de cima pisavam em mim o tempo todo. Não durei um ano no meio jurídico. — Suspirei. — Desde então, foi um degrau de cada vez até o topo. Mas não me deslumbro.
— Por quê? Você é tipo um rei para eles.
— Quanto maior o degrau, maior a queda. Isso quando você não cai em um abismo infinito. — Dei de ombros. — Acho que nem deveria estar te falando isso.
— Ué, por que não? — perguntou, indignada.
— Você é nova aqui... não dá para sair confiando em qualquer um. Mas o papo contigo é tão bom que a gente acaba se soltando.
— Se tudo isso for estratégia para me comer... — ela começou.
— Que te comer o quê, garota! — Empurrei o ombro dela, brincando. — Chegamos.
Ela olhou pela janela e me encarou de novo.
— Como sabe onde eu moro?
— Eu sei de tudo. Quando soube da sua mãe, já busquei as coordenadas. Enfim, entregue e segura.
Ela sorriu, pegou a bolsa no chão do carro e a jogou no ombro.
— Posso brotar para tomar um café amanhã? — perguntei.
Ela lambeu os lábios, pensativa.
— Vamos ver. — Lançou um beijo no ar e saiu do carro.
Eu não devia, mas estou gamadinho nessa mina. Que merda.