Acordei cedo. Não preguei o olho a madrugada inteira, com a mente a mil, sempre voltando naquela mina. A gente não tem nada, mas ela mexeu comigo de um jeito inexplicável. Parece predestinação, o bagulho é doido.
Esfreguei o rosto, bocejei e pulei da cama. Olhei o relógio: ainda era muito cedo. Corri para o banho. Sou um preto cheiroso e faço questão disso; gosto que reparem.
Vesti uma bermuda, uma camisa de linho branca e coloquei meus acessórios: anel de ouro, o cordão pesado e o relógio caro. Depois que entrei para essa vida, o dinheiro mudou de significado. Ele vem e vai fácil. Hoje estou por cima, amanhã posso estar no chão.
Peguei a chave do carro e a carteira. Ao descer, dei de cara com a Maria saindo da cozinha.
— Acordou, bela adormecida? — brincou ela.
— Maria! Tinha esquecido que a senhora vinha hoje. — Abri um sorriso.
— Cabeça de vento — riu.
— Fica à vontade, vou dar uma saída — beijei sua testa.
— Tão cedo? — franziu a testa.
— É, e não sei se volto logo. Se cuida.
Saí, entrei no carro e acionei o portão automático. Dirigi até a padaria sem pressa. Comprei o básico: pão, frios, refrigerante e suco. Joguei as sacolas no banco do carona e segui para o destino que não saía da minha cabeça desde o baile.
Estacionei e desci. Bati na porta algumas vezes, mas não houve sinal de vida. Bati de novo, com mais força e ritmo.
— Ô! Vai quebrar a porta? — ouvi um resmungo lá de dentro.
— Vou nada, pô. Sou forte, mas nem tanto — respondi, sorrindo.
Luiza abriu a porta com aquela cara de sono. Dava para ver que eu a tinha arrancado da cama. Eu era o único que passava a noite em claro e ainda conseguia estar de pé às nove da manhã.
— O que você está fazendo aqui a essa hora? — Ela esfregou os olhos, me encarando.
A mina é linda demais. Meu peito chegou a errar as batidas.
— Avisei que ia brotar para o café.
— Você não acha que está um pouco "emocionado" não, Playboy?
— Vale a pena ser emocionado por você. — Coloquei a mão na porta, pedindo passagem, e entrei.
Reparei na decoração. A casa tinha um ar que me lembrava minha mãe, e isso me deu um aperto. Perder minha velha ainda era uma ferida aberta.
— Eu não esperava mesmo que você fosse aparecer — disse ela, entre um bocejo.
— Sou inconveniente quando quero alguma coisa — resmunguei.
— Percebi. Vou passar um café.
Ela passou por mim e eu a segui até a cozinha. Luiza começou a tirar as coisas da sacola.
— Você quer mesmo tomar Coca-Cola no café da manhã?
— Eu preferia uma Heineken gelada, mas a Coca serve — brinquei, puxando uma cadeira.
— Você é louco — ela revirou os olhos e pegou o suco. — Pelo menos acertou minha marca favorita.
Ela colocou a chaleira no fogo e se virou para mim, batucando os dedos na mesa.
— Agora desembucha. O que veio fazer aqui de verdade?
— Queria te ver, pô. Te convidar para uma praia... — Pisquei para ela.
— E bandido pega praia? — riu. — Essa é nova.
— Nova, não. Velha. Só o****o ostenta em rede social; eu sou inteligente, gata.
— E antiquado. Quem chama mulher de "gata" hoje em dia?
— Eu, ué. — Estendi a mão. — Dá um beijo aqui.
— Ih, tô fora. Daqui a pouco suas mulheres batem na minha porta querendo satisfação. Gosto muito do meu cabelo, tá? — Ela enrolou uma mecha no dedo.
— Que mulheres, garota? — Fiz drama, levando a mão ao peito. — Tenho ninguém não, se manca.
É claro que eu tinha meus rolos, mas eu não seria burro de assumir isso para a mina que eu estava tentando conquistar. Senti o cheirinho de café subir. Ela se encostou na pia.
— Não quero problemas, Play — suspirou. — Minha vida já é conturbada demais para aguentar show de ciúme por causa de bandido.
— De bandido não. Do bandido. Dá ênfase — brinquei. — Se alguém mexer contigo, me avisa. Eu resolvo.
— Confia... — Ela começou a colocar várias colheres de açúcar no café.
— Quer morrer de diabetes, p***a? — resmunguei. — E pode confiar, eu sei o que estou dizendo.
— Papo furado. Não quero meu nome correndo por aí — sentou-se à mesa e começou a preparar um pão. — Não quero ser conhecida como "marmita". Acabei de chegar na comunidade.
— Deixa de ser chata. Escondido é mais gostoso, e por enquanto somos só amigos...
— Você fala igual velho, né? Tá maluco — ela riu. — A casa de repouso é lá no final da rua.
— Deixa o melhor te mostrar o que sabe fazer...
— Dispenso — ela fez uma careta.
Dei uma risada alta e comecei a comer. Essa mina era uma figura. Ela trazia à tona algo em mim que eu ainda não entendia se gostava ou não — esse joguinho de me dar fora.
A verdade era uma só: eu estava gamado. Podia levar o tempo que fosse, eu ia lutar para ter essa mina. Era questão de honra. Talvez, depois que eu a tivesse, essa atração absurda passasse e eu visse que era só fogo de palha. Mas, por enquanto, ela era tudo o que eu queria.