Capítulo 03

922 Words
Acordei cedo. Não preguei o olho a madrugada inteira, com a mente a mil, sempre voltando naquela mina. A gente não tem nada, mas ela mexeu comigo de um jeito inexplicável. Parece predestinação, o bagulho é doido. Esfreguei o rosto, bocejei e pulei da cama. Olhei o relógio: ainda era muito cedo. Corri para o banho. Sou um preto cheiroso e faço questão disso; gosto que reparem. Vesti uma bermuda, uma camisa de linho branca e coloquei meus acessórios: anel de ouro, o cordão pesado e o relógio caro. Depois que entrei para essa vida, o dinheiro mudou de significado. Ele vem e vai fácil. Hoje estou por cima, amanhã posso estar no chão. Peguei a chave do carro e a carteira. Ao descer, dei de cara com a Maria saindo da cozinha. — Acordou, bela adormecida? — brincou ela. — Maria! Tinha esquecido que a senhora vinha hoje. — Abri um sorriso. — Cabeça de vento — riu. — Fica à vontade, vou dar uma saída — beijei sua testa. — Tão cedo? — franziu a testa. — É, e não sei se volto logo. Se cuida. Saí, entrei no carro e acionei o portão automático. Dirigi até a padaria sem pressa. Comprei o básico: pão, frios, refrigerante e suco. Joguei as sacolas no banco do carona e segui para o destino que não saía da minha cabeça desde o baile. Estacionei e desci. Bati na porta algumas vezes, mas não houve sinal de vida. Bati de novo, com mais força e ritmo. — Ô! Vai quebrar a porta? — ouvi um resmungo lá de dentro. — Vou nada, pô. Sou forte, mas nem tanto — respondi, sorrindo. Luiza abriu a porta com aquela cara de sono. Dava para ver que eu a tinha arrancado da cama. Eu era o único que passava a noite em claro e ainda conseguia estar de pé às nove da manhã. — O que você está fazendo aqui a essa hora? — Ela esfregou os olhos, me encarando. A mina é linda demais. Meu peito chegou a errar as batidas. — Avisei que ia brotar para o café. — Você não acha que está um pouco "emocionado" não, Playboy? — Vale a pena ser emocionado por você. — Coloquei a mão na porta, pedindo passagem, e entrei. Reparei na decoração. A casa tinha um ar que me lembrava minha mãe, e isso me deu um aperto. Perder minha velha ainda era uma ferida aberta. — Eu não esperava mesmo que você fosse aparecer — disse ela, entre um bocejo. — Sou inconveniente quando quero alguma coisa — resmunguei. — Percebi. Vou passar um café. Ela passou por mim e eu a segui até a cozinha. Luiza começou a tirar as coisas da sacola. — Você quer mesmo tomar Coca-Cola no café da manhã? — Eu preferia uma Heineken gelada, mas a Coca serve — brinquei, puxando uma cadeira. — Você é louco — ela revirou os olhos e pegou o suco. — Pelo menos acertou minha marca favorita. Ela colocou a chaleira no fogo e se virou para mim, batucando os dedos na mesa. — Agora desembucha. O que veio fazer aqui de verdade? — Queria te ver, pô. Te convidar para uma praia... — Pisquei para ela. — E bandido pega praia? — riu. — Essa é nova. — Nova, não. Velha. Só o****o ostenta em rede social; eu sou inteligente, gata. — E antiquado. Quem chama mulher de "gata" hoje em dia? — Eu, ué. — Estendi a mão. — Dá um beijo aqui. — Ih, tô fora. Daqui a pouco suas mulheres batem na minha porta querendo satisfação. Gosto muito do meu cabelo, tá? — Ela enrolou uma mecha no dedo. — Que mulheres, garota? — Fiz drama, levando a mão ao peito. — Tenho ninguém não, se manca. É claro que eu tinha meus rolos, mas eu não seria burro de assumir isso para a mina que eu estava tentando conquistar. Senti o cheirinho de café subir. Ela se encostou na pia. — Não quero problemas, Play — suspirou. — Minha vida já é conturbada demais para aguentar show de ciúme por causa de bandido. — De bandido não. Do bandido. Dá ênfase — brinquei. — Se alguém mexer contigo, me avisa. Eu resolvo. — Confia... — Ela começou a colocar várias colheres de açúcar no café. — Quer morrer de diabetes, p***a? — resmunguei. — E pode confiar, eu sei o que estou dizendo. — Papo furado. Não quero meu nome correndo por aí — sentou-se à mesa e começou a preparar um pão. — Não quero ser conhecida como "marmita". Acabei de chegar na comunidade. — Deixa de ser chata. Escondido é mais gostoso, e por enquanto somos só amigos... — Você fala igual velho, né? Tá maluco — ela riu. — A casa de repouso é lá no final da rua. — Deixa o melhor te mostrar o que sabe fazer... — Dispenso — ela fez uma careta. Dei uma risada alta e comecei a comer. Essa mina era uma figura. Ela trazia à tona algo em mim que eu ainda não entendia se gostava ou não — esse joguinho de me dar fora. A verdade era uma só: eu estava gamado. Podia levar o tempo que fosse, eu ia lutar para ter essa mina. Era questão de honra. Talvez, depois que eu a tivesse, essa atração absurda passasse e eu visse que era só fogo de palha. Mas, por enquanto, ela era tudo o que eu queria.
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