Capítulo 04

750 Words
O café acabou, mas a tensão continuava ali. Luiza limpou a boca com as costas da mão, num jeito desleixado que me deixava maluco. Ela me encarava como se estivesse tentando ler meus pensamentos. — Então, Playboy… — Ela inclinou o corpo, os s***s quase tocando a mesa. — Você veio aqui só para isso? Pão, café e conversa fiada? Segurei o sorriso. — Tá achando pouco? — Tô achando suspeito. — Os dedos dela tamborilaram na mesa. — Homem como você não faz nada de graça. Qual é o plano? Plano? Se ela soubesse que eu só queria ficar perto, sentir o cheiro dela e ver essa cara de sono, ia rir da minha cara. Mas eu não ia dar esse mole. — Plano é uma palavra forte. — Me levantei e caminhei até ela. Encostei as mãos na bancada, prendendo-a entre meus braços. — Mas já que você está preocupada, posso te mostrar o que eu realmente vim fazer. Ela não recuou. Pelo contrário, sustentou o olhar. — Ah, é? — O sorriso dela era desafiador. — E se eu disser que não estou interessada? — Mentira. — Cheguei mais perto, quase encostando nossos narizes. — Você está tão curiosa quanto eu. O ar pesou. A respiração dela acelerou, o peito subindo e descendo rápido. Eu já ia avançar quando a porta da cozinha bateu com tudo. BAM! Demos um pulo, nos afastando na hora. — Luiza? Tá aí? — A voz era de uma mulher mais velha, ríspida, com aquele tom típico de quem vive na igreja. Dona Neiva. Luiza me empurrou com força, os olhos arregalados de pânico. Recuei, mas já era tarde. A mãe dela entrou na cozinha e travou. Olhou para a filha, para a mesa cheia, e parou os olhos em mim. — Bom dia, Dona Neiva — falei, ativando o modo simpático. — Trouxe um café para a Luiza. Achei que ela estaria com fome depois do baile. A mulher não engoliu. Cruzou os braços, me medindo de cima a baixo. — É mesmo? E quem é você? — Yuri. Amigo do Vinícius. — Mentira deslavada, mas o nome do Vinícius passava confiança para os moradores. Dona Neiva franziu a testa, mas Luiza cortou o assunto antes que o interrogatório piorasse: — Mãe, a gente já estava saindo. Ele vai me dar uma carona. — Para onde? — Para... para a praia! — Luiza disparou, me implorando com o olhar para confirmar. — Isso aí — apoiei. — Dia bonito, sol... bom para relaxar um pouco. Dona Neiva suspirou, carregada de desconfiança. — Luiza, preciso falar com você. Agora. Saí da cozinha sem discutir, mas ainda ouvi o sussurro da velha: — Você sabe quem ele é, né? Esse aí não é amigo de ninguém. É problema, minha filha. Fiquei no carro fritando no sol. Qualquer um teria ido embora, mas eu fiquei. Recuar não faz parte do meu vocabulário. Quando Luiza finalmente apareceu, estava de short curto e um top que não deixava quase nada para a imaginação. O sangue ferveu. — E aí? — perguntei quando ela entrou. — E aí nada. — Ela bateu a porta e puxou o cinto, com as mãos tremendo de leve. — Só vamos. Liguei o motor e saímos. O silêncio estava incomodando. — Ela sabe quem eu sou — afirmei, sem tirar os olhos da estrada. — Todo mundo sabe quem você é. — Luiza olhou para a janela. — Mas ela não manda em mim. — Tá brava? Ela riu, mas sem vontade. — Tô é com medo. Aquilo me acertou em cheio. Parei o carro no acostamento na hora. — De mim? — Do que você representa. — Ela finalmente me encarou. — Eu vim para cá para fugir de confusão, Playboy. E você é a própria confusão. Virei o corpo para ficar de frente para ela. — Escuta aqui. Eu não sei o que você pensa de mim, mas eu não minto. Eu gostei de você. Ponto final. Ela ficou em silêncio, tentando achar alguma falha no meu rosto. — E se eu disser que não quero nada com um bandido? Sorri de canto. — Aí eu vou ter que te convencer do contrário. Dessa vez, ela riu de verdade. — Arrogante pra c*****o, hein? — Confiança, gata. — Dei partida no carro. — Agora segura, que o dia está só começando. Seguimos para a praia. Ela, cheia de dúvidas; eu, decidido. No fundo, eu já sabia: ela seria minha.
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