CAPÍTULO 4

1492 Words
AIDEN FOX Segurar a garota no colo foi… estranho. Bom demais para o meu gosto. Eu não gosto de contato físico, não gosto de mãos me tocando, de abraços, de proximidade desnecessária, não me lembro do último abraço que dei de forma espontânea. Sexo? Só quando necessário, objetivo, sem envolvimento. Mas ela… ela estava tremendo, o rosto enterrado no meu ombro, os dedos finos segurando minha camisa como se eu fosse a última coisa segura no mundo. E o pior? Não era r**m. O que me irritou profundamente. Soltei a Lívia assim que ela parou de chorar e me olhou. Estava com os olhos marejados e o narizinho vermelho. Não queria me apegar a isso. Não podia. Peguei os sapos que ainda pulavam pelo chão e, com a prática de alguém que já lidou com coisas piores, enfiei todos de volta dentro da caixa. O cheiro era horrível, e a gosma grudou nas minhas mãos, mas pelo menos a sala ficou limpa. Quando olhei de novo, ela já estava correndo escada acima, provavelmente para tomar outro banho. Fiquei no andar de baixo, encostei a tampa da caixa com força e me virei para o pai dela. Rubens Trajano tinha o rosto tenso. Vi nos olhos dele algo que reconheço facilmente: medo. — Ela é inocente demais, Aiden. — disse ele, soltando o ar devagar. — Não vê a maldade. Cruzei os braços. — Estou aqui para impedir que algo aconteça. — Não subestime isso. — Ele segurava o bilhete que veio na caixa. — Essa pessoa… quem quer que seja… não está apenas ameaçando. Está se divertindo com a ideia de machucá-la. Olhei direto para ele. — Sr. Trajano, vou fazer o meu trabalho. Pode ter certeza disso. Ele assentiu, mas percebi que não estava totalmente convencido. Não importava. Eu não precisava da aprovação dele,apenas da permissão para agir. Saí da sala e fui direto até a sala de monitoramento, onde minha equipe estava. — Como é que vocês deixam uma caixa entrar na casa sem checagem? — perguntei, minha voz ecoando pelo cômodo. — Não treinamos protocolos para nada? — Não teve correio — respondeu Fletcher, meu irmão do meio, com aquele tom de riso irônico que sempre me irritou. — A caixa já estava aqui quando acordamos, não somos burros, Aiden. — Burros não — retruquei, jogando a caixa com os sapos mortos em cima da mesa — mas desatentos o suficiente para não notar uma ameaça dentro do perímetro. — Sapos, Aiden. — Fletcher disse, cruzando os braços. — É sério que você está tão incomodado por causa de uns sapinhos? Revirei os olhos. — Ela chorou. Ele me olhou, confuso. Eu nunca agi assim, p***a, mas ver ela chorar, era algo que não me agradava. — E isso te preocupou porque, irmão? — Não me preocupou. — Soltei a frase rápido demais. — Só que… — Não esqueça por que estamos aqui. — ele interrompeu, erguendo uma sobrancelha. — Cala a boca, Fletcher. Ainda assim, temos que fazer nosso trabalho, e nosso trabalho é manter a garota segura. Ele levantou as mãos, rendido. — Faremos isso, pelo menos ate tudo estar concluido. Não gostei disso, p***a, meu objetivo aqui é claro, mas agora me parece tão errado, agora que vejo essa garota. Não sei se... Para Aiden. Penso para mim mesmo, me reprendendo, por desviar do foco. Pensei que o resto do dia seria simples. Eu ficaria no meu posto, manteria os olhos nos acessos da casa e controlaria a segurança até a festa à noite. Mas então a pequena tormenta desceu as escadas, com vestido novo e o cabelo preso num laço que, por algum motivo, fez meu estômago revirar. — Vamos no shopping. — ela anunciou, parando na minha frente. — Não. — Sim. — ela retrucou, como se fosse a dona da verdade. — Não. Você não vai a lugar nenhum sem necessidade. — E comprar um vestido para a festa do papai não é necessidade? — Ela piscou com aquela inocência tão encantadora, que não parecia real. — Não. Ela cruzou os braços, fez um biquinho e olhou para Tia Sam, que surgiu logo atrás dela. — Ele tá me impedindo de ir, tia. A senhora, que claramente não tem medo de nada, me encarou. — O Rubens quer que ela escolha algo especial. Eu também vou. Não vai ser um problema, Aiden. Era um problema. Tudo nela era um problema. — Vai ser rápido. — ela disse, com um sorriso que era pura provocação. Suspirei, se eu negasse, ela daria um jeito de sair sozinha. E aí, sim, eu teria um problema real. — Dez minutos para estar pronta — ordenei. — Eu já tô pronta, sr. Wilson. — respondeu, rodopiando para mostrar o vestido. — Vamos. Dirigir com ela no banco de trás foi um teste de paciência. Ela não parou de falar. Sobre a loja, sobre como adorava sorvete de morango, sobre como achava que meu carro “não tinha cara de carro de segurança” e que eu devia colocar um adesivo de panda no vidro. Fora que ela se mexia toda hora, seus s***s balançavam a cada movimento, era natural, era lindo, era problema, um grande problema, eu dirigir e manter os olhos nela, aquela garota era o problema em forma de beleza. — Você é sempre m*l-humorado assim ou tá competindo com algum ursão bravo? — ela perguntou, inclinando-se para o banco da frente, e p***a, esse cheiro me deixa louco. — Você sempre fala tanto ou está competindo com algum rádio? — retruquei. Ela riu, como se eu tivesse contado uma piada, e sua risada preencheu o carro como uma deliciosa música, e eu nem gosto de música, p***a, o que essa garota está fazendo comigo? No shopping, a situação piorou. Ela parava em cada vitrine, apontava para roupas que claramente não tinham nada a ver com uma festa de gala e dizia. — Essa ficaria linda em mim, não acha? Eu ignorava. Sempre, mas ela não desistia, co tinuava com suas perguntas, sua tia a acompanhava e fazia suas vontades como se ela fosse uma princesa e de fato para sua família ela era, até eu estou começando a achar isso. Na loja, enquanto Tia Sam ajudava a escolher vestidos, Lívia saiu do provador usando algo… difícil de descrever. Era vermelho, curto, justo e… perigoso. — Não. — Foi tudo o que eu disse. — Mas a Liv nem perguntou nadinha! — ela protestou. — Não precisa perguntar. Não. — Você é meu estilista agora, é isso? — ela provocou, inclinando a cabeça. — Não. Estou evitando uma crise cardíaca no seu pai. Ela revirou os olhos e voltou para o provador. Quando saiu novamente, estava com um vestido azul claro, rodado, com aplicações brilhantes. Parecia uma boneca. Inofensiva. Mas… bonita. Bonita demais. — Esse serve. — falei, rápido demais, e me afastei antes que ela percebesse o que estava pensando. — Vou confiar em você, meu estilista rabugento. — Não sou seu. — Falo firme. — Claro que não credo, a Liv só está falando brincando. — Porque credo? — eu olho para ela com os olhos estreitos. — Você é velho e rabugento, não gosto assim, não faz o tipo da Liv. Está certo aquilo doeu no meu ego, muito mais do que eu queria admitir. — Não sou velho. — Você é. É um velho bonitão, mas é velho. — Eu tenho trinta e oito anos menina. — Tão velho quanto meu pai. — ela ri. — Mas que menina abusada, seu pai deve ter mais de sessenta. — Você é bonitão, mas eu gosto de pessoas feliz. — Eu sou feliz. — É mesmo? — ela coloca a mão no queixo como se estivesse duvidando. — Sim, sou. — Então você esconde essa felicidade muito bem, gigantão rabugento. — ela diz e entra no provador. Depois das compras, ela quis sorvete. Claro. Porque não bastava prolongar minha tortura visual, ela precisava me testar com açúcar também. Sentamos numa mesa, ela com um pote de sorvete cor-de-rosa e um sorriso no rosto. Eu fiquei observando o movimento, atento a qualquer sinal de ameaça. — Você nunca relaxa? — ela perguntou, lambendo a colher. — Não. — Deve ser cansativo ser você. — Mais do que imagina. — respondi. Ela sorriu, como se aquilo fosse um elogio. Quando finalmente voltamos para o carro, ela começou a cantarolar no banco de trás. Uma música qualquer, mas baixa, quase como se fosse para ela mesma. E por algum motivo, o som ficou preso na minha cabeça. À noite, de volta à mansão, ela sumiu pelas escadas para se arrumar para a festa. Eu fiquei no andar de baixo, conversando com a equipe e reforçando a segurança. Mas, mesmo sem vê-la, a sensação de que eu estava sempre prestes a ceder a algo, algo que não devia, permaneceu. E essa era a parte mais perigosa de todas.
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