"Penso sempre que um dia a gente vai se encontrar de novo, e que então tudo vai ser mais claro, que não vai mais haver medo nem coisas falsas. Há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e voltei e tornei a fugir. São coisas difíceis de serem contadas, mais difíceis talvez de serem compreendidas - se um dia a gente se encontrar de novo, em amor, eu direi delas, caso contrário não será preciso."
- Caio Fernando Abreu.
ATUALMENTE,
ARIA COIMBRA.
Olho através da janela do carro quando ele para em frente à biblioteca. Há muitas pessoas lá fora, formando uma fila enorme que segue para dentro. Em todas as mãos, eu posso ver o resultado de um sonho do qual havia me feito abrir mão de muitas coisas para chegar até aqui. Tomo um suspiro, fechando os olhos enquanto me preparo. Embora já fizesse um tempo, jamais me acostumaria com aquilo.
"Ária? Vamos?"Dandara, minha assessora, diz.
Um sorriso corta a sua expressão e por um momento me sinto culpada de tirá-la de casa tão cedo, em um sábado pela manhã, o qual ela deveria estar aproveitando com sua família.
Concordo e não tenho mais cerimônia para sair, acenando breve para as pessoas por onde passo, que me olham com expectativa e sorrisos nos rostos. Há pelos menos três repórteres na entrada, que avançam em mim antes que eu possa se quer pensar em chegar até a porta. Mesmo respeitando fielmente as suas profissões, sei quais são as perguntas que eles estão prontos para me fazer, por isso que opto apenas por um sorriso educado e um com licença para passar.
Dandara segue do meu lado, segurando meu braço enquanto seguimos. Entre gritos, posso ouvir questionários sobre o livro, sobre ele e principalmente sobre em quem, de fato, teria inspirado meu protagonista. Já sabia que isso aconteceria desde antes de lançá-lo, mas a forma como o público havia abraçado e feito ter muito mais destaque também me assustara, tento aqui, quanto fora.
Eu não esperava que meu livro fizesse tanto sucesso em tão pouco tempo de lançamento, já que a probabilidade de uma autora iniciante deslanchar era quase nula mas, de repente, parte de um público que eu realmente não sabia que ainda me acompanhava havia feito isso por mim aqui no Brasil. E claro que, após meses, eu não presumia que eles o fizessem, já que este público vinha totalmente dele e eu não fazia ideia que me eles ainda lembravam da minha existência, por se tratar de interesses tão diferentes e de algo que já havia acabado.
Quer dizer, bem, quem poderia supor que um público de interesse tão distinto, mesmo que não fosse tanto, gostaria e seria o primeiro público de alguém como eu?
Dentre muitas pessoas presentes, em um ato de coragem, apenas uma repórter para a minha frente, com um sorriso nervoso e pelos seus olhos posso perceber que ela era parecia ser nova no meio. Aquilo me faz parar, então com um sorriso agradecido, ela não desperdiça a pergunta:
"Como é estar de volta a São Paulo depois de um ano fora?"
Uma coisa que havia mudado em minha vida e que eu nunca ia me acostumar era que estar no centro das atenções era comum. De uma hora para outra muitas pessoas sabiam sobre minha vida, sobre como e onde eu estava e isso, na real, era assustador.
Eu tenho um segundo para pensar, não evitando um pequeno sorriso porque parece passar um flashback em minha cabeça sobre todas as coisas que essa cidade já havia me trago e, também, tirado. De qualquer forma, eu ainda não podia negar que aquele ali ainda era o meu lugar favorito no mundo e que, sem duvidas, jamais esqueceria.
"É como estar em casa. Não há outro lugar que me faça ter essa sensação."
Antes que eu possa seguir, ela dispara novamente:
"Um mês de lançamento do seu primeiro livro aqui no Brasil e ele já é um dos maiores sucessos desse ano. Há alguma inspiração maior que explique isso? Alguém?"
Ela faz rodeios, mas eu sei onde quer chegar. Afinal, todos também sabiam disso já que a história era mesmo autoexplicativa. Aquela é minha deixa apenas para não responder, oferecendo um sorriso amigável antes de entrar na livraria vazia e poder respirar em paz. Finalmente!
Mesmo que eu não tivesse dito com todas as palavras, havia uma pequena parte do público que sabia - ou a menos desconfiava - sobre quem havia inspirado meu personagem principal, o que fazia uma mínima especulação rolar e várias teorias se espalharam por ai. Claro que estas pessoas eram as mesmas que haviam feito tudo isso acontecer. Outra parte (e grande maioria), apenas estavam interessada em descobrir quem era o dono uma dedicatória tão específica e o porquê dele ter se tornado tão especial assim, já que eu não havia poupado palavras para isto. E bem, este talvez era o mistério que havia feito o livro se tornar o que se tornou, que instigava a todos a tentar descobrir se tudo o que havia escrito era tão real e que eu não fazia questão nenhuma de falar.
Eu havia trazido esperança de uma história de amor real e qualquer sinal para comprovar que ela existia, fazia as pessoas admirarem mais.
Todos, no fundo, desejavam uma história de amor.
Olho ao redor, vendo o motivo para eu estar aqui em todos os cantos. Em um painel grande, a capa preta com dois laços vermelhos entrelaçados, me chama atenção. Eternamente sua, era o título que se destacava em fonte maior. Aquilo poderia ter significados demais, mas, para mim, havia somente um.
"Tudo bem?"Dara toca meu ombro, novamente com aquele sorriso que quer dizer muito.
Ela havia sido minha amiga há mais tempo do que eu imaginava e tê-la nesse momento comigo era algo que jamais poderia abrir mão. Então eu apenas aceno, vendo ela apontar para meu lugar naquela grande sala.
Pela fila lá fora e olhando o horário, sabia que aquele dia seria longo demais.
"Pode abrir." eu digo.
Não demora muito para que a multidão se espalhe por todo local. Em minha frente, há uma fila enorme que não parece ter fim. De qualquer forma, nem aquilo poderia me tirar a sensação de dever cumprido. Eu havia conseguido.
xxx
Já é noite quando a última pessoa vai embora e eu posso fechar os olhos aliviada. Duas sessões de autógrafos divididas pela manhã e tarde haviam tirado de mim toda a disposição que eu havia tido.
Jogo minha cabeça para trás, apenas para relaxar um pouco e ouço os passos de Dandara pelo grande espaço. Ao longo de todo o dia eu havia recebido visitas de muitos amigos, que haviam feito questão de vir aqui me prestigiar. Um deles havia sido Gabriel, o namorado da minha amiga, que agora esperava por ela lá fora para levá-la embora.
"Tem certeza que não quer uma carona?" pela última vez ela me pergunta, parando em frente à minha mesa com os braços cruzados.
O olhar que me dá é preocupado, mas eu sou boa quando o assunto é apenas assegurar que tudo está bem e fazê-la ir curtir sua família um pouco.
"Tenho. Gabriel parece ter pressa. Vai lá aproveitar um pouco e deixa que eu cuido daqui. Tenho algumas coisas para conversar com o dono da livraria." é tudo que digo.
Minha amiga ainda me olha da mesma forma quando eu me levanto, seguindo até uma prateleira que ficava um pouco atras, mas mesmo assim concorda em contra gosto. Solto uma pequena risada, focando em um livro qualquer.
"Ok, certo. E Ária?" me chama. Murmuro um hm em resposta, com a atenção focada no livro. "Tem mais uma pessoa aí fora querendo te ver. Posso mandar entrar?"
O seu tom atrai minha atenção, porque eu sei que havia muito mais coisa por trás daquilo.
"Agora? Acabamos de fechar! Acho que não há possibilidade de..."
Não tenho tempo para terminar, porque um ponto atras dela me chama a atenção e então meu coração dispara. Um ponto não, quem.
"Nem se for eu?" o sotaque delese destaca e soa alto. Não posso evitar de sentir o que sinto após tanto tempo.
Em meio a troca de silêncio, não percebo que Dandara se vai até vê-lo a acompanhando com o olhar e a porta batendo logo após.
Prendo a respiração quando ele se aproxima lentamente. O espaço de tempo é curto, mas me sinto como se estivesse caindo de um penhasco de tanto nervosismo. Rapida e perigosamente. O chão era duro.
Dois anossem vê-lo. Dois malditos anos sem escutar sua voz ou qualquer coisa que me aproximasse dele. Quatorze meses vivendo apenas com flashs de um romance que apenas havia tido um fim, mas que jamais apagaria o que eu sentia.
Era doloroso pensar nele, eu sabia disso então não o fazia, mas era ainda pior vê-lo depois de tudo.
"Oi."
Demoro segundos para responder porque o sorriso que ele me dá me desmonta. A saudade me sufoca e só assim percebo que a falta que ele me fazia não chegava nem perto do que eu sentia agora. Que tempo nenhum era capaz de acabar com um sentimento assim. Ele apenas adormecia, mas em qualquer chance que tivesse se incendiava com tudo novamente.
"Ei!"
Talvez houvesse palavras melhores a serem ditas. Muitas delas passaram pela minha mente e formigaram na ponta da minha língua, porém um "ei" foi tudo que saiu.
Pisco algumas vezes.
Não havia percebido um livro meu em suas mãos até que ele me estendesse. Pego-o, sentindo que aquele momento era mais íntimo do que com qualquer outra pessoa que havia me visitado hoje.
Aquela história era sobre nós e ambos sabíamos disso. Ninguém mais precisava saber.
Eu assino rapidamente, com uma sensação louca na boca do estômago e odiando levemente o tremor das minhas mãos.
"Ficou lindo." acompanho seu olhar em volta, concordando com sua afirmação.
"Eu também gostei. Ficou exatamente como sempre sonhei..."
Deixei no ar quando os seus olhos castanhos voltaram a focar em mim. Havia um brilho lá e talvez os meus estivessem da mesma forma, embora eu jamais pudesse adivinhar o que realmente se passava por eles.
E até houvera uma época que eu sabia definir todos os seus traços, gostos e expressões. Eu conseguia traduzir todos os olhares, vontades mas hoje... era como se fossemos dois estranhos em um pequeno espaço.
"Eu fico feliz por isso. " disse, sincero. Apenas ele sabia o quão aquilo significava para mim. Eu tinha falado tanto sobre esse momento que simplesmente não havia outro sentimento. "A propósito, eu li o livro. Você escreveu bem."
"O que você achou?"
Suas mãos encontram o bolso da calça e sua resposta demora. Um pequeno sorriso corta seus lábios e eu não posso deixar de notar o quanto cada movimento seu me atinge milimetricamente.
Porra. Eu sinto tanta saudade.
"Eu demorei um pouco porque você sabe, não é costume meu ler essas coisas, mas eu fiz um esforço. Não é todo dia que viro um personagem de sucesso, não é?" brinca. "Mas eu gostei muito."
Não posso evitar de construir em minha mente uma imagem dele com o cenho franzido enquanto se esforça para ler um livro como aquele. A cena é completamente adorável e isso me faz rir.
"Imagino." mordo o lábio inferior. "Qual a parte de você mais gostou?"
Seus olhos caem para o chão, ao mesmo que um sorriso amargo escapa de sua boca. Aquilo me dói, mas sei que depois dessa visita, falar sobre isso, sobre nós, seria inevitável. Ele hesita antes de dizer.
"A parte que eles ficam juntos no final de tudo."
Sinto o peso do seu quando o meu olhar se desvia para outro lugar. Aquilo me atinge muito mais do que eu pensava e, de repente, a vontade de chorar me certa. Trato de engolir o bolo em minha garanta.
"Eu tinha que fazer um final que pudesse agradar a todos."
"Poderia ter agradado a nós se tivesse sido assim também, não é?"
Suas palavras vem como uma navalha, cortando fora cada pedacinho que havia restado do meu coração. Não posso evitar uma lágrima de escorrer, assim como um pequeno sorriso de escapar.
"Poderia..."
O seu celular então toca, tirando nossa atenção quando ele para para olhar a mensagem que havia recebido. Tenho conter a minha curiosidade, me lembrando de que aquilo já não dizia mais respeito a mim há muito tempo.
"Eu preciso ir agora, Aya."
Ignoro o efeito que me traz ao vê-lo me chamando assim. É doloroso, então apenas concordo engolindo toda a vontade de chorar e lhe ofereço um pequeno sorriso após escrever uma pequena dedicatória em seu livro.
Seus lábios se franzem quando espero ele ler, os olhos castanhos parando em apenas uma frase e aquilo mexe com ele tanto quanto mexe comigo. Me levanto para acompanhá-lo até a porta, mas sua mão me para quando ele toca meu braço com cuidado.
Um choque me faz paralisar. Sua aproximação após tanto tempo me faz querer me jogar em seus braços de uma vez por todas, mas busco ser racional.
Acabou. Eu acabei com tudo.
"Eu gostei de te ver hoje."
É o que diz, mas sei que queria dizer outra coisa. Concordo com ele, quando parecemos inseguros demais um ao lado do outro, buscando ter cuidado com cada palavra para que não pudéssemos nos machucar mais do que já estávamos. E como doía saber que nunca havíamos agido assim com com o outro!
"Adeus, Lucas." recolho o meu braço, mas ao invés de se afastar, ele se aproxima o suficiente para que pudesse tocar meu rosto com suavidade.
Fecho os olhos, me rendendo ao seu toque e então um beijo carinhoso é depositado em minha testa.
"Até mais, gatinha." Minha garganta fecha mais do que já estava. Isso tinha sido um golpe baixíssimo.
Um último aceno, o silêncio e as milhões de palavras que nunca foram ditas.
E então ele se vai, me deixando parada no meio daquele grande lugar. Teoricamente eu estava ali, mas meu coração havia ido embora junto com aquele garoto, de novo. Por um segundo, talvez, eu tenha sentido que com ele não havia sido diferente.
Uma caixinha preta estava em minha mesa e eu não havia visto até então. Busquei a abrir com cuidado e o brilho daquele fino anel me chamou atenção. E sim, aquela era a forma dele dizer que o seu também estava comigo e que, nessa música, fazíamos parte da mesma partitura:
"De seu eterno, Lucas."
Estava gravado lá e, principalmente, em mim. Em cada fragmento. Eternamente.