2. A T E M P O R A L

1483 Words
P A R T E U M A N T E S Ária Coimbra O tempo. Eu não costumava ser boa com qualquer coisa que envolvesse ele. Na verdade, parecia que de acordo com os outros, ou eu andava em uma marcha extremamente lenta quase parando que me obrigava a correr em muitas ocasiões ou em uma perigosamente rápida onde ninguém conseguia me acompanhar. Não, não era boa com horários e nada que se relacionasse a isso. Para ser sincera, mamãe falava que eu era o extremo: ou muito apressada, ou muito atrasada mas nunca, nunca mesmo, no tempo certo. E isso se fez presente desde quando eu nasci, que não soube esperar as quatro semanas que ainda restava para vir ao mundo no pior momento de todos. Nasci em meio ao caos, como um aviso de que - segundo mamãe - tudo seria diferente após isso. Um diferente que assim como a tempestade que tudo levou, obrigaria-nos a derrubar tudo para que a mudança fosse necessária, mas que seria bom, dizia. Enfrentando anos e anos difíceis, eu não sabia dizer o quão louca aquela afirmação me parecia agora que podia notar o quanto qualquer situaçãozinha mesmo já me fazia querer desistir de tudo, quando o maior exemplo de força eu tinha dentro de casa. Mamãe tinha dessas de pensar positivo quando ninguém mais conseguia e eu só queria ser igual em alguns momentos. No entanto, eu acreditava que o pessimismo às vezes me trazia um certo conforto por não querer ser surpreendida pela decepção. Quer dizer, não que eu fosse completamente amargurada e sem esperanças, porém as vezes eu só gostava de me proteger do que eu sabia que não poderia dar certo. Era por isso que eu nunca me arriscava, nunca tentava e, principalmente, quase nunca acreditava. Dessa forma, minha vida havia sido totalmente o contrário do diferente que mamãe dizia: eu era apenas uma menina com sonhos normais, uma vida monótona e que temia o futuro mais do que qualquer um. Não tinha expectativas de nada, grandes histórias para contar ou feito loucuras das quais eu contaria para meus filhos e netos anos mais tarde. Eu era o que mais poderíamos chamar de sem graça que existia no mundo. O quê mais de normal podia se ter, mesmo que muitos a minha volta afirmassem diferente. São Paulo havia sido, de longe, a minha maior loucura em tempos. Parecia demais para eu deixar tudo que tinha - o que não era muita coisa, - para seguir atrás de um sonho que sabia que poderia ser quase difícil de conseguir. E eu quase não viria, para ser sincera, mas como havia dito, alguém acreditava quando ninguém acreditava e acho que se não fosse por ela, eu talvez não teria conseguido. Se não fosse por ela eu nunca teria deixando minha antiga faculdade no meio do ano, me mudado dois dias antes de acabar meu prazo apenas com o dinheiro de me manter aqui por dois meses. Não teria perdido meu primeiro namorado e quase noivo no meio dessa loucura. Foram dias de adrenalina quando ousei me hospedar em uma pousada até achar um quartinho perto do polo para morar. Mais difícil que isso havia sido a adaptação: começar do zero, em um lugar novo, sem conhecer nada e ninguém e já quando o ano já não tinha tantos dias de sobra assim. Mesmo assim, acho que não me arrependo. Quer dizer, agora, no meio dessa tempestade, sim! Havia acabado de descer do ônibus quando a chuva caiu como se fosse acabar o mundo. Para muitos aquilo era assustador, mas para mim (que havia nascido junto com ela), jamais me assustaria se eu já não tivesse atrasada para encontrar minha amiga. Três e dezessete de um sábado à tarde. Eu deveria estar dormindo ao invés de correr feito uma louca pela calçada enquanto buscava não pensar no quanto fazia frio naquele momento. A adrenalina logo tratou de resolver o problema, mas eu tinha outros para pensar como o meu celular que agora estava encharcado ou uma pedra no meu sapato que me fazia correr e mancar ao mesmo tempo. Belo dia! Quando eu cheguei no prédio onde Dandara morava, eu só pude sorrir amarelo para o porteiro que me olhava com cara de poucos amigos. Eu sabia que ele estava prestes a me barrar, mas no meu ato mais puro de coragem eu só podia dizer um rápido oi e correr molhando todo o saguão rumo ao elevador. Me desculpe todos que arrumariam minha bagunça mas eu precisava mesmo correr porque... "SEGURA!" Tive tempo de gritar. Uma mão se colocou em frente às portas e sem ao menos parar de correr, eu entrei feito um furacão no elevador, me jogando nas paredes de metais e só então respirando fundo quando estava em um local seguro. Fechei os olhos, tirei o cabelo grudado do olho e então puxei o ar mais duas vezes antes de rir da minha situação. "Obrigada!" Lembrei-me de dizer, antes de olhá-lo e sentir minha garganta secar. Oh, bela visão! Um sorriso de lado, olhos castanhos presos em mim e a sobrancelha levemente arqueada mostrando divertimento. Ele não me era estranho, mas também não conseguia lembrar onde tinha o visto, o que era estranho já que rostos assim costumavam ser inesquecíveis. O fato é que eu era péssima em lembrar das coisas também. Não sei se pelo fato de que eu facilmente me distraía com tudo ou porque era r**m mesmo, mas isso também não importava no momento, até porque a adrenalina estava indo embora e encarar o estranho não era a coisa mais educada a se fazer. O frio já estava batendo o suficiente para me fazer tremer. "Qual andar?" O sotaque foi a primeira coisa que reparei. Eu gosto, pensei comigo, antes de cair novamente em devaneios. Tinha achado ele uma gracinha, diga-se de passagem, embora não devesse estar pensando nisso de novo. Ok. Meu corpo tremeu de novo. A sensação de já tê-lo visto voltando enquanto eu tentava lembrar, mas nada veio à mente. São Paulo havia amanhecido tão fria que, se já não bastasse, eu tambem tinha que ter tomado um banho de chuva no caminho. Eu deveria saber que nada dava certo nos sábados chuvosos a não ser ficar em casa. Olhei as pontas dos meus dedos no processo em que o único barulho é do meu queixo batendo. O tom arroxeado voltando a me lembrar de como eu estava. E ah, era mesmo! Sim, chuva. Gripe. Uhul. Dia magnífico! E lá estava eu divagando mais uma vez! "Tudo bem?" Voltou a perguntar. A expressão divertida dando lugar a uma preocupada em questão de segundos enquanto não me ouvia falar. "Ah, c-claro!" quando consegui responder, gaguejei. Meus lábios bateram um no outro e através do metal, eu vi que eles já ganhavam uma coloração arroxeada também. E eu estava parecendo uma doida. Mesmo assim, tentei sorrir para ele, tentando acalma-lo. Acho que soou como uma careta porque sua expressão não mudou. Apertei meu andar. "Você me parece com bastante frio. Quer o meu casaco?" Tenho certeza que eu o olhei como se estivesse dito uma besteira. Óbvio que era, na verdade. Quem oferecia casacos à estranhas em um elevador? Fiquei em silêncio e a expressão dele não caiu. Na realidade, ele estava incrivelmente com a mesma cara de preocupado de antes, enquando escorregava o casaco pelos braços. Por Deus! Arregalei os olhos, encolhida no fundo. Ele era algum tipo de maluco? "Não, não, eu estou b-bem!" Disse, quase que desesperada. Um riso nervoso escapou pelos meus lábios quando ele me ignorou. Moço? Tudo bom? "Você não me parece tão bem." Afirmou, estendendo o casaco. Eu queria me bater por estar achando tão estranho quando fofo, mas jamais poderia.. "Por favor, eu me sentiria muito m*l sabendo que deixei alguém passar desse jeito..." Paramos alguns segundo nos encarando, eu tremelicando de frio e ele preocupado com um casaco na minha direção. Por Deus, homem persistente! E lindo. "O-obrigada!" Eu disse, a tempo suficiente para vê-lo sorrir antes das portas se abrirem e o mesmo fazer menção de sair. Me encolho dentro o agasalho quente, tentando me esquentar um pouco mais mesmo que diminuísse minimamente o que eu estava sentindo. Era como se cada osso meu estivesse congelado. "Aliás, eu sou o Lucas." É o que diz, dois longos passos para fora. Guardei aquela informação, obviamente. Não conhecia nenhum Lucas, mas... Bem, agora sim. Antes que as portas possam se fechar entre nós, ainda tenho tempo para um último aceno e então dizer: "Ária." Estão, por ali eu fico até dois andares acima, que é onde eu finalmente paro. É somente só depois de já estar em frente ao apartamento de Dandara e enfiar minhas mãos nos bolso que aos poucos vão ficando úmidos que eu paro e me pergunto: como diabos eu vou devolver esse casaco?
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD