3. C O L I S Ã O

2449 Words
"O encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação." - Carl Jung A N T E S POR ÁRIA No auge dos meus 21 anos eu até que não havia feito muito. Na verdade, minha vida havia sido mais como um borrão de acontecimentos confusos e em completa desordem que, sem duvidas, havia interferido tanto em quem eu tinha me tornado do que realmente desejava. Primeiro porque tudo havia começado de maneira tão errada, que o desastre logo após não podia ser evitado: Mamãe havia descoberto a gravidez dois meses após o seu doloroso divórcio com papai e um mês após ele ter ido para o outro lado do oceano. Mesmo que houvesse uma certa distância, ele nunca havia deixado de ajudá-la no que podia: despesas, aluguel, escola e suas visitas nos meus três primeiros anos de vida que mesmo rápidas, contribuíam ao menos um pouco para que eu pudesse ao menos sentir a sensação do que era ter um pai por perto. Não o culpo pela falta que me fazia, sinceramente. Ele morava a quilômetros e mesmo assim tentava estar presente nem que fosse por uma ligação no fim de tarde em todos os dias até que eu completasse dez. A partir dos cinco, como havia decidido ambos, eu sempre viajava nas férias para encontrá-lo. Geralmente ele vinha me buscar e me equipava ao máximo com roupas de frio para me proteger da neve ou então mandava o dinheiro até que mamãe me levasse com um coração apertado. Tinha sido tempos difíceis porque eu sabia que desde que havia sido só nós duas no mundo, a distância era dolorosa demais para poder suportar, pois eu me me sentia assim também. Por mais que fosse divertido, mas não era como se minha mãe estivesse lá. De verdade, quem realmente havia me segurado no colo e calado todos os meus choros não estava comigo para me dar um boa noite e a solidão que me cercava toda vez que ia dormir me fazia pequena demais, fora demais daquele mundo e daquele lugar. Todas essas coisas só serviam para que eu me sentisse cada vez mais dependente de quem realmente estava ali por mim em todos os momentos. Por isso que, aos dez, as visitas passaram a ficar mais escassas e, aos doze, eu havia perdido completamente o interesse de encontrar meu pai. E não, não que fosse culpa minha, de mamãe ou até mesmo dele, mas eu realmente havia chegado na tão esperada fase onde minha mente começava a ter mais cautela com tudo e conseguia fielmente interpretar o que era lar. Onde era meu lar. As ligações diminuíram também, até chegarem ao ponto de não termos muito o que falar nas datas especiais como aniversários e festas de fim de ano. Não era como se fosse bom, mas também não era como se fosse inevitável. Uma hora ou outra a distância nos separaria e hoje eu entendia isso. Por isso que, todas as vezes em que eu me deitava na cama e me perguntava o porquê de estar tão longe, tentava lembrar de mamãe me dizendo que lar era onde meu coração estava. Fechava os olhos, respirava fundo e então eu entendia que toda essa dependência emocional que tinha com ela me deixava na dúvida quanto a isso. Afinal... onde era meu lar? São Paulo me inspirava tanto que as vezes eu poderia pensar que era, mesmo que o medo que anos antes havia me impedido de ter estado ali ainda soasse aos poucos. Eu havia crescido muito ligada ao receio de me sentir da mesma forma que me sentia na casa de papai. Como alguém que simplesmente havia encontrado uma estabilidade onde estava: realmente, sem querer dar um passo à mais. Gastei anos da minha adolescência presa em uma cidade, fazendo um curso que eu não gostava até que soasse uma louca oportunidade de poder fazer diferente e todo o tempo perdido fosse renumerado com... inspiração. Quatro anos em uma faculdade de medicina para largar tudo e fazer... letras? Sim, eu realmente havia feito isso e, olhando para trás, acho que valia a pena. Isso que era estar em casa? Eu gostava da garoa que rasgava o rosto, por mais que às vezes eu não pudesse curtir. Gostava dos parques aos fins de semana e de poder respirar um ar puro e ler um bom livro. Eu gostava da escrever besteiras, mesmo que um dos meus maiores sonhos fosse publicar um livro e que, infelizmente, ele era adiado todas as vezes porque nada me parecia bom. Não que fosse tão exigente, mas sempre idealizei meu primeiro livro como algo que fosse único. Algo muito mais envolvente do que mais uma história que parecia ter o mesmo enredo. Eu queria poder escrever um romance faria as pessoas suspirarem e pedirem por mais assim que acabasse. Um toque clichê, embalado ao mesmo tempo em uma história única que pudesse prender o público tanto quanto me dava prazer em escrever. Dois dias atras eu havia explicado isso para Dandara enquanto dividíamos uma pizza. Eu não havia tido problemas em fazer amizades quanto pensei, porque ela havia sido a primeira a se disponibilizar a me ajudar enquanto eu encarava o campus perdida. Nós havíamos nos dado tão bem que, uma semana depois, era como se nos conhecêssemos há anos. E Eu não era cética a ponto de desacreditar em destino ou até mesmo em vidas passadas e era por isso que encarava nossa afinidade como algo antigo. Há pessoas que entram nas nossas vidas com propósitos muito maiores do que pensamos e acredito eu que nunca mesmo era em vão. Nada, no fio da vida era, afinal. "Ária? Está me ouvindo?" minha amiga questiona, chamando minha atenção que parecia estar voando em alguma direção da qual eu não podia evitar. Onde eu estava mesmo? "Sim, claro!" Pisco, olhando-a novamente enquanto ela bebericava o café com uma careta estranha. Havíamos acabado de sair da aula e resolvemos parar em um café que ficava próximo ao polo. Era costume nosso estarmos sempre por ali, até porque as aulas haviam acabado de começar e ainda estávamos encaixando nossos horários aos poucos. "Não vou nem te perguntar no que estava pensando porque nem vale a pena." resmunga, rindo fraco. "Enfim, eu estava dizendo que hoje o Gab vai lá em casa para a gente assistir um filme e vai levar aquele amigo dele, lembra? Achamos legal te chamar para ir também..." Deixa no ar, me fazendo encara-lá com uma sobrancelha arqueada. Eu sabia muito bem onde ela queria chegar com isso e minha resposta definitivamente era um não. Um sonoro e explícito não. "E seu irmão ao menos sabe que vocês estão até marcando programinha de casal na sua casa?" Dandara havia conhecido Gabriel há mais ou menos dois meses, em uma dessas festas das quais eu não havia entrado muito em detalhe e, desde então, eles estavam em uma relação m*l assumida onde juravam que ninguém desconfiava. Os dois não chegavam a ser o tipo de casal perfeito porque o gênio de ambos era bem forte, mas era perceptível o que estava rolando até mesmo para quem não os conhecia. Pra falar a verdade, as vezes a tensão era tão grande que eu não sabia como Pedro ainda não tinha desconfiado. Dandara permanece né olhando com aquele olhar de "isso não vem ao caso, responde minha pergunta vadia." "Ah, nem vem..." "Ah, digo eu! Qual é, amiga!" murmura. "Você precisa mesmo conhecer novas pessoas, dar espaço para alguém nesse coraçãozinho aí... e eu não te arrumarei alguém encrenca, né?" Ela não espera que eu responda, por isso não faço questão e então continua: "Sem contar que você não pode ficar vivendo para sempre de passado... tem que seguir com a vida, se dar uma chance..." Não podia negar que nessa parte ela até tinha razão, mas sabia que era mais por eu não estar preparada para um relacionamento do que com medo de querer me abrir. Simplesmente não havia uma necessidade em mim de encontrar alguém, de querer alguém ou de, principalmente, ter que me dividir entre o que eu queria e um relacionamento. Simplesmente não dava mesmo. "E quem disse que é por isso?" resmungo, sentindo o ar gelado do ar me atingir até me fazer espirrar. "Sem contar que eu ainda nem me recuperei da gripe que peguei por causa daquela chuva. Você me paga, Dandara!" E óbvio que eu havia arrumado uma boa brecha para escapar do assunto, por isso não pude deixar de respirar aliviada quando tudo o que minha amiga fez foi murmurar um "desculpa" risonho, mesmo que eu tivesse pegado dois dias de uma febre tão alta que me deixara de cama. Entendia que ultimamente eu estava vivendo tão intensamente que havia até mesmo me despreocupado com minha saúde, sem pensar nas consequências e aquilo havia sido para me provar isso. "Aliás... você não tem visto ninguém de diferente morando lá não?" resolvo entrar em um novo assunto. A menina na minha frente parece curiosa quando comento, casualmente. "Hum... não..." Parece pensar. "Por quê?" "Ah... nada!" Há uma semana eu havia o encontrado naquele elevador e eu podia passar em minha mente cada mísero segundo dois breves dois minutos nos falamos. Eu ia no apartamento de Dandara praticamente todos os dias, mas nunca havia tido a oportunidade de devolver o casaco que carregava para onde eu fosse na esperança de entregar ao verdadeiro dono. Quer dizer... era tão difícil assim ou ele simplesmente não morava lá? "Ah, qual é, Ária eu te conheço! Conta aí o que está rolando ou..." Como uma força do destino ou de qualquer outra coisa que pudesse intervir no exato momento, o meu celular toca, tirando nossa atenção. "Nem pense em anten-" "Ah, oi mãe..." eu murmuro, soltando um sorriso amarelo enquanto minha amiga ainda me encarava incrédula. Na linha, eu escuto mamãe me perguntar como havia sido o meu dia e isso me lembrava que já estava na hora de ir para casa. "Isso não acabou..." Dandara resmunga quando me levanto, fazendo eu revirar os olhos e mesmo assim ainda rir um pouco. Não era como se tivesse acabado mesmo porque se eu bem conhecia Dandara, ela não deixaria isso passar. (...) Eu era a mestre dos atrasos, eu sabia. Eu podia fingir que não, mas era. Constatei isso quando mais uma vez eu me vi correndo até o apartamento de Dandara. Ultimamente eu estava até indo bem e náo é como se tivesse virado costume eu me atrasar, mas daquela vez eu realmente estava muito atrasada. Por um momento de puro luxo, havia resolvido vir de uber e na metade do caminho pegamos um trânsito infernal que fizera com que minha amiga me ligasse dez vezes em um intervalo de cinco minutos cada. Eu já devia saber que atrasar um compromisso com Dandara resultaria nisso. Na última hora eu havia resolvido aceitar seu convite porque a conversa com minha mãe tinha sido tão tensa que eu não pude fazer nada se não tentar esquecer um pouco. Mais uma ligação. É por essa que dessa vez nem tempo para sorrir para o porteiro eu tenho e mesmo com um peso sem igual na consciência, eu apenas grito um boa noite antes que correr feito um furacão pelo prédio, até ter acesso ao hall onde sou parada finalmente por algo duro. Duro, bonito e coberto de músculos. É rápido quando me sinto cair por cima dessa mesma coisa, não tendo tempo para ver o que era até que... "Por que toda vez que te vejo você parece estar correndo?" Meu cérebro simplesmente para e eu me recuso a olhar por um momento só pra ter um pouco de esperanças de que havia sido apenas um sonho. Mas então eu levanto meus olhos e simplesmente dou de cara com aqueles mesmos olhos, aquele mesmo sorriso divertido no rosto bonito. Oh, não. "p**a merda." Só o que sai, enquanto processo aos poucos e... "p**a MERDA!" em um pulo, me levanto, saindo de cima do si. Meu coração acelerou. Olhei para os lados para conferir se alguém havia visto, só então olhando a outra figura parada um pouco mais atrás. Porra. "Você está bem?" eu busco olhá-lo em busca de algum sinal que pudesse dizer que sim. Eu não seria azarada o suficiente para dar uma de louca duas vezes para a mesma pessoa... Seria? Ainda mais para alguém como ele. Deus! "Meu Deus me desculpa, olha não foi minha intenção, juro pra você! É que eu sai tão atrasada de casa e ainda peguei um trânsito infernal pra chegar até aqui que simplesmente não olhei nem para quem estava na minha frente. Nem para o porteiro eu dei um boa noite decente e agora eu sei que você deve pensar que eu sou uma doida ou uma fugitiva porque vivo correndo mas-" desato a falar, antes mesmo que ele possa responder minha pergunta anterior. É só ao notar sua pequena cara confusa que eu freio, buscando respirar fundo antes que eu pudesse realmente falar mais ainda. "Desculpa, eu..." "Estou bem." Me interrompe, antes de rir. "E você se machucou?" Eu n**o, antes mesmo que ele termine, mesmo que nos meus ouvidos tivessem zumbindo com as batidas do meu coração. A pessoa ser bonita, ok. Mas bonita, gentil e educada era demais para um músculo como ele aguentar firme. Oops, outro devaneio! Meu celular volta a tocar pela milésima vez naquela noite e olhando as horas, vejo que eu realmente estava muito atrasada. Dandara era a única que me tirava dele e iria me matar! "Merda!" eu murmuro, antes de arregalar os olhos. "Eu preciso ir... me desculpa mesmo! Tchau Gabriel!" Eu me despeço da pessoa que estava nos observando um pouco mais atrás. Com um balançar de cabeça, eu vejo que aquilo havia sido apenas um "foi nada!" dele antes de me virar e andar em passos rápidos até o elevador. "Valeu, Ária." como em um último momento daquele, ainda escuto Gabriel murmurar mas eu só me toco de assimilar que os dois se conheciam quando já estava mais distante, praticamente dentro do elevador. Ignorando qualquer outra coisa, é apenas lá dentro que eu posso respirar fundo e repassar os últimos momentos na minha mente com calma. Como um balde de água fria, só então e tenho noção do que acabara de acontecer e, principalmente, que era a segunda vez e o segundo vexame que eu passava com a mesma pessoa seguida. Mais que isso, só no corredor, andares maus tarde, é que noto que havia perdido a oportunidade perfeita devolver o maldito casaco. Inferno!
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