O cheiro de pipoca já se alastrava pelo corredor quando sai do elevador, assim como de alguma outra coisa do qual eu não sabia o que era. Diferente de mim, que chegava a ser um desastre quando o assunto era cozinha, Dandara realmente tinha um dom sobrenatural com comida. Quer dizer, não havia nada do qual ela não soubesse fazer, na realidade e isso estava longe de ser um defeito.
Podia confessar que às vezes eu a admirava por este motivo. Dandara, mesmo sendo mais nova, conseguia ser tudo o que eu não era e, por isso, nos dávamos tão bem, acho. Teoricamente, seria quase impossível duas pessoas como nós duas manter uma amizade, porém a gente tinha superado esse "quase" há muito tempo de uma forma engraçada.
"Ei, finalmente!" É a primeira coisa que diz, assim que cruzo a cozinha e me sento na cadeira, deixando minha cabeça na mesa logo em seguida. "O que foi?"
Outra coisa engraçada é que ela tinha aquela coisa de adivinhar que havia algo estranho só de olhar. Eu não consegui entender se era um dom ou algo do tipo, mas todas as vezes que a mesma passava os olhos em mim e arqueava a sobrancelha em julgamento, eu sabia que ela havia notado e embora tentasse, não adiantava eu dizer que não era nada porque sempre, sempre mesmo, ela descobria o que tinha acontecido por bem ou por m*l.
"Eu estou sentindo como se um caminhão tivesse passado por cima de mim e, depois disso, meu corpo tivesse rolado uma escada de mil metros até parar em cima de uma plantação de cactos." murmurei, ouvindo-a rir.
Logo o barulho de tampas batendo se fez presente e, em seguida, uma sombra apareceu diante dos meus olhos, fixos no mármore da mesa. Levantei minha cabeça a tempo de ver minha amiga se sentar à minha frente, dando-me aquela encarada de quem estava prestes a me meter uma bronca.
E lá vamos nós...
"Sabe o dia que você vai sossegar? Quando ficar de cama de verdade, doente." Resmunga, fazendo-me um cafuné fraco.
Admirava a sua habilidade de brigar e mimar ao mesmo tempo. Quase que automaticamente, sinto meus olhos pesando com o ato, mas me recusaria a dormir até que estivesse em casa.
Eu ja estava há quase 24 horas acordada, então, que m*l faria umas horinhas a mais?
"Foi você que me convidou pra vir." Acuso. "Eu nem viria antes."
Faço Dandara rir com isso, mesmo que no fundo ambas soubéssemos que havia um porquê maior de eu não querer ficar sozinha por lá.
Ouço ela empurrar a cadeira para trás e, em seguida, a olho ir até a geladeira e tirar um remédio lá de cima, como se já estivesse esperando. Em seguida, entrega-me um comprimido, junto com um copo de água.
"É pra dor. Você tem andado tomando os outros por conta da gripe? Avisei que se você parasse não melhoraria."
"Eu tomei e nessa parte já estou melhor." digo. "Acho que essa semana tem sido pior do que eu esperava. Muita correria, sem contar que mamãe está vindo para cá e eu tirei a tarde inteira para fazer uma faxina."
A mulher a minha frente suspira, entregando-me uma expressão dura. Sei que estou prestes a ouvir outra bronca, típica das quais mamãe também me daria.
"Falando nela, ela te mandou um beijo. Disse que está ansiosa para te ver de novo..." sorrio amarelo.
Minha mãe costumava me fazer visitas constantes entre intervalos de, pelo menos, dois meses. A última vez que havíamos nos visto, no entanto, tinha sido três meses atrás e a saudade que eu sentia agora era quase sufocante. Ela havia adorado Dandara, mesmo com esse jeitinho doido, desde o primeiro momento em que seus olhos bateram nela e eu simplesmente entendia o porquê.
Eu também estava ansiosa pela sua chegada. Não podia negar o quanto ainda me sentia dependente dela e da sua presença. Desde pequena havia sido nós duas contra o mundo e nossa separação repentina deixava tudo pior. Éramos muito apagadas uma à outra para passar muito tempo distantes.
"Ária, eu sei que você gosta de estar no controle e todas essas coisas aí. Mas você sabe que se esgotar da maneira como você está fazendo só vai te adoecer." diz. "Você se cobra demais, cara. Relaxa um pouco! A faculdade não é esse monstro de sete cabeças também, ela não vai te afundar e você sabe disso. Não é pra viver como se dependesse dela, não é a sua primeira vez em uma. As vezes é bom sair do controle um pouco, relaxar..."
Apesar de eu ser quase um ano mais velha que ela, Dandara ainda conseguia ser muito mais centrada do que eu no que se dizia respeito a vida. Não sei era porquê nossas realidades até se chocaram tinham sido completamente diferentes, se era porquê ela realmente tinha muito mais coragem do que eu para enfrentar o desconhecido ou pelo fato de que talvez eu ainda tivesse muito o que aprender mesmo. Ela sabia das coisas e eu nunca discutia sobre. No fim, mesmo que fizesse mais merdas, a razão sempre estava com ela.
Apesar de tudo, ela era tipicamente aquela pessoa ótima em dar conselhos, mas que só sabia fazer bagunça na própria vida. Como sempre, eu sabia ao que ela se referia e que estava certa. Desde quando eu me mudara, minha vida havia tirado totalmente em prol do meu curso e eu tinha uma dificuldade enorme em relaxar. Sempre me doava o máximo para as coisas e enquanto nada saísse perfeito, não me dava um descanso. No fim, acabava esgotada, sem forças e minimamente recompensada. Era exaustivo ter medo de perder o controle, mas não conseguia fazer diferente.
"Semana que vem eu já estarei melhor." anuncio a mesma promessa que havia feito anteriormente. "Vou passar a semana inteira vegetando, você vai ver. E então, na próxima, eu serei uma nova Ária."
Com um olhar totalmente desacreditado, ela assentiu. Sabia que era difícil de acontecer, mas… não custava nada, não é?
"Aliás, onde está Gabriel, hein?" Como se não tivesse o visto minutos atrás, depois de atropelar o mesmo garoto de outro dia, comento.
Dandara tira seu olhar de mim para o relógio na parede, provavelmente para contar os minutos de quando ele havia saído até agora.
"Ele e o Lucas foram comprar alguma coisa pra beber na conveniência aqui em frente, já que eu tinha pedido o tonto pra trazer e ele esqueceu." disse.
Lucas. Algo em mim vibrou de ansiedade e uma alegria contra.
"Tonto quem, hein? Tá muito pra frente pro meu gosto." interrompendo nossa conversa, vejo Gabriel parado na porta com duas sacolas na mão. Do seu lado, Lucas, parecia concentrado demais no celular para qualquer outra coisa. "E ai, Ária. Mais calma?"
Sorrio timidamente, revirando os olhos.
"Como assim?" Dandara pergunta, puxando as sacolas da mão dele antes de dar as costas para guardar tudo na geladeira.
Mesmo que fossemos tirar em alguns minutos, existia um toc terrível nela contra coisas fora do lugar.
"Ária atropelou o Lucas na entrada do prédio, amor, cê' tinha que ver. Os dois até rolaram no chão." disse, gesticulando exageradamente com as mãos.
Gabriel conseguia ser foqueiro e exagerado demais quando queria, tal como ela também. Eles eram o típico casal perfeito um para o outro.
Nego, soltando um "não foi bem isso" baixinho, fazendo eles rirem novamente e, consequentemente, eu também dessa vez. Mando um olhar rápido a minha amiga. Eu conseguia ser um desastre quando queria.
"Não foi culpa minha! Você já experimentou se atrasar pra' algum compromisso com Dandara? Tinha umas vinte chamadas dela no meu celular." me sinto na obrigação de me defender.
"Pior que a maluca é chatona mesmo, da não." Gabriel pirraça, levando um tapa no braço em resposta. "Tô brincando, pô. Brincadeira.."
Ainda rindo, levo meu olhar para o outro na porta, quieto. Ele tem tempo de me devolver o mesmo olhar, tirando-os do celular que até então ocupava uma de suas mãos. Meu rosto esquenta.
Por Deus! Eu era uma espécie de adolescente agora?
"Hã, então… vocês ainda não foram apresentados, não é? Ária, esse é o Lucas e Lucas esta é a Ária." Dandara sorri, segurando no braço de Gabriel no processo. "Agora nós meio que vamos ali arrumar a sala e tal, então... Vocês poderiam ajeitar as coisas aí para levar, né? É, podiam. Conversem aí, tchau."
Antes mesmo que nós pudéssemos responder, ela sai puxando o seu quase namorado junto consigo. De longe, a voz de um Gabriel reclamando ainda era possível de ser escutada, tirando uma risada nossa.
"Desculpe pela Dandara, ela as vezes é um pouco..." tento procurar uma palavra certa. "Sem filtro."
Bem, essa não era a definição, mas chegava perto de ser.
"É, mas pra quem está saindo com o Gabriel, ela até que é controlada." Diz, indo em direção aos copos.
Balanço a cabeça. Nisso eu até tinha que concordar, mesmo não conhecendo Gabriel há muito tempo. Peguei um balde de pipoca grande, derramando elas dentro.
"Ah, então! Eu meio que não tive tempo de agradecer direito aquele dia, pelo casaco e tal e… hã… obrigada! Acho que ele me salvou de uma hipotermia no meio do caminho!"
Como se não tivesse sido nada, ele n**a, dando de ombros. Para de ser bonito, homem, pelo amor de Deus!
"Eu não fiz nada demais." parando um pouco mais distante para me olhar, diz, tentando conter o sorriso de canto que começava a aparecer na boca. "Eu tinha que arrumar uma forma de te encontrar de novo, então..."
Ouvir isso faz meu braço vacilar, acabando derramar um pouco da pipoca da vasilha. Sei que pareço chocada o suficiente quando o ouço rir e então, encolho meus olhos na sua direção.
Ok. Acho que estou apaixonada!
"Eu estava brincando, Ária. Me desculpe!" riu. Acalma coração. "Eu não consegui ficar quieto. Não sou bom com isso, principalmente quando eu tô nervoso."
Se ele estava nervoso, imagina eu.
Dou de ombros afim de amenizar o clima, acabado por rir.
"Engraçadinho! Bem, pelo menos então eu o trouxe para te devolver. Seu plano deu certo." Jogo o verde, entrando na sua brincadeira e não consigo decifrar o sorriso que me dá logo em seguida, mas também não me importo.
Sua resposta, no entanto, parece explicar um pouco melhor.
"Deu mais certo do que eu esperava."
Ele estava flertando mesmo comigo? Assim, de verdade? Não que eu quisesse, mas se ele quisesse eu queria, entende?
Pigarreio, pensando em uma resposta à altura, mas nada vem à mente.
No mesmo segundo, parecendo ser o momento perfeito, a campainha toca, chamando nossa atenção para sala. m*l o noto passando por mim porque então, de repente, estou querendo entender o que ele queria realmente dizer com isso.
Mas as risadas inconfundíveis de Sol e Bruno tomam conta do lugar, assim como a voz de Lucas soa alto pela primeira vez na noite e eu sou forçada a sair do devaneio, ainda sem acreditar que aquilo foi um flerte.
Fingindo que nada havia acontecido, me pego sacudindo a cabeça e deixando a pipoca em cima da mesa para limpar a bagunça antes que Dandara me matasse.