Capítulo 7 - Valentina

1095 Words
Valentina O beijo não fez sentido no primeiro segundo. Nem no segundo seguinte. Foi rápido, intenso e inesperado demais para que eu conseguisse reagir como deveria, e quando percebi o que estava acontecendo, já estava correspondendo, como se meu corpo tivesse tomado uma decisão antes da minha consciência conseguir impedir. Aquilo durou apenas alguns instantes, mas foi o suficiente para que, quando nos afastamos, o impacto viesse de uma vez, pesado, confuso, impossível de ignorar. Eu fiquei parada, olhando para ele, tentando entender o que tinha acabado de acontecer, enquanto ele mantinha um leve sorriso no canto dos lábios, como se estivesse analisando cada reação minha com calma. — Não faça isso de novo — falei, firme, mesmo sentindo o coração acelerado. — Você ultrapassou um limite. Ele inclinou levemente a cabeça, observando. — Você poderia ter me afastado. — Eu deveria ter feito isso. — Mas não fez. A resposta veio sem provocação, apenas como constatação, e aquilo me irritou mais do que qualquer outra coisa. — Isso não muda nada — retruquei, cruzando os braços, tentando recuperar o controle da situação. — Eu não estou aqui por escolha. E definitivamente não estou aqui para isso. Ele não respondeu imediatamente. Apenas continuou me observando, como se estivesse registrando cada palavra, cada reação, cada tentativa minha de me manter distante. — Você está tentando convencer a mim… ou a si mesma? Aquilo me fez perder a paciência por um segundo. — Eu estou deixando claro que isso não vai se repetir. — Veremos. Ignorei a resposta, me aproximando novamente apenas para verificar o soro, trocando a medicação com movimentos rápidos, objetivos, mantendo distância sempre que possível. Eu precisava terminar aquilo e sair dali. Não fazia sentido permanecer mais tempo do que o necessário. — Meu trabalho aqui terminou — disse, já me levantando. — Você está estável. Eles podem cuidar do resto. Ele não tentou me impedir. Aquilo, por si só, já foi estranho. Caminhei até a porta da cela e, ao perceber que não havia ninguém do lado de fora, hesitei por um segundo. O silêncio no corredor não combinava com o caos que tinha acontecido há pouco tempo, mas, ainda assim, era a minha chance. Saí. Não havia ninguém. Comecei a andar sem olhar para trás, seguindo pelo corredor que parecia interminável, tentando manter a calma, tentando lembrar o caminho, mas eu nunca tinha estado naquela área antes. Meu trabalho sempre ficava restrito à ala médica. Aquilo era território desconhecido. E foi então que eu dei de frente com um dos carcereiros. Ele me olhou de cima a baixo com um sorriso que imediatamente fez meu corpo enrijecer. — Doutora… o que você está fazendo aqui? — Eu estou tentando voltar para a enfermaria — respondi rápido, mantendo distância. — Preciso que me indique o caminho. Ele não respondeu de imediato. Apenas se aproximou. Devagar demais. — Alguém sabe que você está aqui? A pergunta veio carregada de intenção. — Sim — respondi, firme. — A outra médica viu quando me trouxeram. O sorriso dele mudou. Ficou pior. Antes que eu conseguisse reagir, ele me empurrou contra a parede, prendendo meu corpo com força. Tentei afastá-lo, empurrar, reagir, mas ele era mais forte, e a forma como segurava meus braços deixava claro que aquilo não terminaria bem se eu não conseguisse sair dali. — Ninguém vai saber o que aconteceu — murmurou próximo ao meu ouvido. — E, se souberem, vão culpar os presos. Meu estômago virou. — Me solta! Tentei me desvencilhar, mas ele puxou minha roupa com força, rasgando o tecido sob o jaleco, e o pânico veio de forma brutal, tomando conta de tudo. — Socorro! — Fica quieta. Ele tentou me calar, mas eu continuei gritando, lutando, tentando ganhar qualquer segundo possível, até que uma voz cortou o corredor com força. — Solta ela. O homem parou na mesma hora. Eu também. Virei o rosto. Dante estava ali. A postura dele era diferente de antes. Não havia ironia, não havia provocação. Havia algo muito mais frio. Muito mais perigoso. Os homens dele surgiram logo atrás, ocupando o espaço, fechando qualquer possibilidade de reação do carcereiro. Eu me soltei e recuei imediatamente, indo para trás dele sem nem pensar. — O que devemos fazer com ele? — perguntou um dos homens. Dante não respondeu de imediato. Apenas encarou o carcereiro por alguns segundos, como se estivesse avaliando algo além do óbvio. — Você sabia quem ela era — disse, por fim. O carcereiro começou a falar, desesperado. — Eu… eu não sabia, eu achei que… — Mentira. A palavra saiu baixa, mas definitiva. O silêncio que veio depois foi pior do que qualquer grito. — Pessoas como você não cometem erros — continuou Dante. — Fazem escolhas. O carcereiro começou a implorar, falando sobre família, sobre filho, sobre arrependimento, mas nenhuma daquelas palavras parecia ter qualquer efeito. — Leve-o. Não houve grito de ordem. Não houve violência imediata. Apenas obediência. Os homens o puxaram para longe, e eu ouvi os gritos começarem segundos depois, ecoando pelo corredor, fazendo meu corpo inteiro arrepiar, mas eu não olhei para trás. Não consegui. — Você não deveria ter saído — disse Dante, já começando a andar. — Eu precisava sair dali. — E acabou em um lugar pior. Aquilo não era uma crítica. Era um fato. Ele deu alguns passos e, de repente, o corpo cedeu levemente, a força falhando por um instante. Eu me aproximei automaticamente, apoiando ele antes que caísse. — Você não deveria estar andando. — Eu precisava verificar. — Verificar o quê? Ele me olhou de lado. — Se você ainda estava viva. Aquilo me pegou desprevenida. Mas não respondi. Apenas ajudei ele a caminhar de volta. No meio do caminho, percebi o olhar dele descendo rapidamente para a minha roupa rasgada, e automaticamente tentei cobrir, mas ele se aproximou um pouco mais, com movimentos lentos, ainda claramente debilitado, e fechou meu jaleco com cuidado, botão por botão, sem pressa, sem qualquer intenção além daquilo. — Fique tranquila — disse, em tom baixo. — Eu não toco em alguém contra a vontade. Eu apenas assenti. Quando voltamos à cela, ajudei ele a se deitar novamente, reorganizei o soro, ajustei o curativo e me afastei, tentando recuperar o controle da situação, mesmo sabendo que nada ali estava sob meu controle. — Tente descansar — falei, mantendo a voz estável. Ele me observou por alguns segundos antes de responder. — Você também deveria. Eu não respondi. Mas, pela primeira vez desde que tudo começou… Eu não estava mais com medo dele.
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