Valentina
O beijo não fez sentido no primeiro segundo. Nem no segundo seguinte. Foi rápido, intenso e inesperado demais para que eu conseguisse reagir como deveria, e quando percebi o que estava acontecendo, já estava correspondendo, como se meu corpo tivesse tomado uma decisão antes da minha consciência conseguir impedir. Aquilo durou apenas alguns instantes, mas foi o suficiente para que, quando nos afastamos, o impacto viesse de uma vez, pesado, confuso, impossível de ignorar.
Eu fiquei parada, olhando para ele, tentando entender o que tinha acabado de acontecer, enquanto ele mantinha um leve sorriso no canto dos lábios, como se estivesse analisando cada reação minha com calma.
— Não faça isso de novo — falei, firme, mesmo sentindo o coração acelerado. — Você ultrapassou um limite.
Ele inclinou levemente a cabeça, observando.
— Você poderia ter me afastado.
— Eu deveria ter feito isso.
— Mas não fez.
A resposta veio sem provocação, apenas como constatação, e aquilo me irritou mais do que qualquer outra coisa.
— Isso não muda nada — retruquei, cruzando os braços, tentando recuperar o controle da situação. — Eu não estou aqui por escolha. E definitivamente não estou aqui para isso.
Ele não respondeu imediatamente. Apenas continuou me observando, como se estivesse registrando cada palavra, cada reação, cada tentativa minha de me manter distante.
— Você está tentando convencer a mim… ou a si mesma?
Aquilo me fez perder a paciência por um segundo.
— Eu estou deixando claro que isso não vai se repetir.
— Veremos.
Ignorei a resposta, me aproximando novamente apenas para verificar o soro, trocando a medicação com movimentos rápidos, objetivos, mantendo distância sempre que possível. Eu precisava terminar aquilo e sair dali. Não fazia sentido permanecer mais tempo do que o necessário.
— Meu trabalho aqui terminou — disse, já me levantando. — Você está estável. Eles podem cuidar do resto.
Ele não tentou me impedir.
Aquilo, por si só, já foi estranho.
Caminhei até a porta da cela e, ao perceber que não havia ninguém do lado de fora, hesitei por um segundo. O silêncio no corredor não combinava com o caos que tinha acontecido há pouco tempo, mas, ainda assim, era a minha chance.
Saí.
Não havia ninguém.
Comecei a andar sem olhar para trás, seguindo pelo corredor que parecia interminável, tentando manter a calma, tentando lembrar o caminho, mas eu nunca tinha estado naquela área antes. Meu trabalho sempre ficava restrito à ala médica. Aquilo era território desconhecido.
E foi então que eu dei de frente com um dos carcereiros.
Ele me olhou de cima a baixo com um sorriso que imediatamente fez meu corpo enrijecer.
— Doutora… o que você está fazendo aqui?
— Eu estou tentando voltar para a enfermaria — respondi rápido, mantendo distância. — Preciso que me indique o caminho.
Ele não respondeu de imediato. Apenas se aproximou.
Devagar demais.
— Alguém sabe que você está aqui?
A pergunta veio carregada de intenção.
— Sim — respondi, firme. — A outra médica viu quando me trouxeram.
O sorriso dele mudou.
Ficou pior.
Antes que eu conseguisse reagir, ele me empurrou contra a parede, prendendo meu corpo com força. Tentei afastá-lo, empurrar, reagir, mas ele era mais forte, e a forma como segurava meus braços deixava claro que aquilo não terminaria bem se eu não conseguisse sair dali.
— Ninguém vai saber o que aconteceu — murmurou próximo ao meu ouvido. — E, se souberem, vão culpar os presos.
Meu estômago virou.
— Me solta!
Tentei me desvencilhar, mas ele puxou minha roupa com força, rasgando o tecido sob o jaleco, e o pânico veio de forma brutal, tomando conta de tudo.
— Socorro!
— Fica quieta.
Ele tentou me calar, mas eu continuei gritando, lutando, tentando ganhar qualquer segundo possível, até que uma voz cortou o corredor com força.
— Solta ela.
O homem parou na mesma hora.
Eu também.
Virei o rosto.
Dante estava ali.
A postura dele era diferente de antes. Não havia ironia, não havia provocação. Havia algo muito mais frio.
Muito mais perigoso.
Os homens dele surgiram logo atrás, ocupando o espaço, fechando qualquer possibilidade de reação do carcereiro.
Eu me soltei e recuei imediatamente, indo para trás dele sem nem pensar.
— O que devemos fazer com ele? — perguntou um dos homens.
Dante não respondeu de imediato. Apenas encarou o carcereiro por alguns segundos, como se estivesse avaliando algo além do óbvio.
— Você sabia quem ela era — disse, por fim.
O carcereiro começou a falar, desesperado.
— Eu… eu não sabia, eu achei que…
— Mentira.
A palavra saiu baixa, mas definitiva.
O silêncio que veio depois foi pior do que qualquer grito.
— Pessoas como você não cometem erros — continuou Dante. — Fazem escolhas.
O carcereiro começou a implorar, falando sobre família, sobre filho, sobre arrependimento, mas nenhuma daquelas palavras parecia ter qualquer efeito.
— Leve-o.
Não houve grito de ordem.
Não houve violência imediata.
Apenas obediência.
Os homens o puxaram para longe, e eu ouvi os gritos começarem segundos depois, ecoando pelo corredor, fazendo meu corpo inteiro arrepiar, mas eu não olhei para trás.
Não consegui.
— Você não deveria ter saído — disse Dante, já começando a andar.
— Eu precisava sair dali.
— E acabou em um lugar pior.
Aquilo não era uma crítica.
Era um fato.
Ele deu alguns passos e, de repente, o corpo cedeu levemente, a força falhando por um instante. Eu me aproximei automaticamente, apoiando ele antes que caísse.
— Você não deveria estar andando.
— Eu precisava verificar.
— Verificar o quê?
Ele me olhou de lado.
— Se você ainda estava viva.
Aquilo me pegou desprevenida.
Mas não respondi.
Apenas ajudei ele a caminhar de volta.
No meio do caminho, percebi o olhar dele descendo rapidamente para a minha roupa rasgada, e automaticamente tentei cobrir, mas ele se aproximou um pouco mais, com movimentos lentos, ainda claramente debilitado, e fechou meu jaleco com cuidado, botão por botão, sem pressa, sem qualquer intenção além daquilo.
— Fique tranquila — disse, em tom baixo. — Eu não toco em alguém contra a vontade.
Eu apenas assenti.
Quando voltamos à cela, ajudei ele a se deitar novamente, reorganizei o soro, ajustei o curativo e me afastei, tentando recuperar o controle da situação, mesmo sabendo que nada ali estava sob meu controle.
— Tente descansar — falei, mantendo a voz estável.
Ele me observou por alguns segundos antes de responder.
— Você também deveria.
Eu não respondi.
Mas, pela primeira vez desde que tudo começou…
Eu não estava mais com medo dele.