Capítulo 6 - Dante

901 Words
Dante A ausência de dor continuava sendo a parte mais inquietante de toda aquela situação, não porque me trazia algum tipo de alívio, mas porque indicava que algo no meu corpo não estava reagindo como deveria, como se a gravidade do ferimento estivesse sendo temporariamente mascarada por substâncias que mantinham meus sentidos em um estado artificial de estabilidade. Eu conhecia bem o próprio limite físico e sabia reconhecer quando algo estava fora do lugar, e aquilo definitivamente estava. Ainda assim, minha mente permanecia lúcida, observadora, e foi justamente essa lucidez que me levou a concentrar minha atenção nela de forma inevitável. A médica. Havia algo profundamente incompatível entre a presença dela e o ambiente ao redor, como se tivesse sido deslocada de um mundo completamente diferente e lançada ali sem preparação alguma. Não era apenas uma questão de aparência, embora isso fosse impossível de ignorar, mas sim a forma como ela se mantinha, tentando controlar o medo, sustentando uma postura firme mesmo diante de uma situação que claramente a ultrapassava. Os cabelos claros contrastavam com o ambiente escuro e desgastado da cela, e os olhos atentos revelavam uma mente em constante avaliação, como alguém que se recusava a se perder completamente, mesmo estando cercada por algo que não podia controlar. — Você tem família? Perguntei em tom baixo, sem pressa, observando atentamente a forma como ela reagia, porque, mais do que a resposta, me interessava compreender o que havia por trás dela. Ela demorou alguns segundos antes de falar, como se estivesse ponderando se deveria ou não me dar qualquer tipo de informação, e quando finalmente respondeu, a voz saiu firme, ainda que carregada de tensão. — Tenho uma filha. A maneira como ela sustentou o olhar indicava que aquilo não era apenas uma resposta simples, mas uma linha que ela não permitiria que fosse cruzada. — Foi por isso que aceitou vir até aqui. Não havia necessidade de formular aquilo como uma pergunta, porque a conclusão era evidente. Ela não respondeu imediatamente, mas a leve alteração na expressão foi suficiente para confirmar. — Disseram que eu não sairia daqui se você morresse — completou, com a firmeza de quem se obriga a não demonstrar mais do que o necessário. Assenti de forma quase imperceptível, absorvendo a informação com calma. — Ninguém toca em crianças. A resposta saiu direta, sem margem para interpretação, e pela primeira vez percebi uma mudança sutil na forma como ela me observava, ainda desconfiada, ainda tensa, mas menos reativa. — Então me deixe sair — disse ela, recuando um passo, como se precisasse reafirmar algum tipo de controle sobre a própria posição. — Eu fiz o que vocês queriam. — Não depende apenas de mim. — Eles obedecem você. — Nem sempre. O silêncio que se formou entre nós carregava mais significado do que qualquer resposta direta, porque ali havia um reconhecimento implícito de limites que nenhum dos dois podia ultrapassar naquele momento. Ela se afastou um pouco mais, apoiando-se contra a parede, como se tentasse organizar os próprios pensamentos enquanto lidava com a realidade ao redor. — Eu preferia não conversar — disse, desviando o olhar. Observei por alguns segundos antes de mudar o rumo da conversa de forma sutil, não por desinteresse, mas porque já tinha obtido o suficiente naquele ponto. — O calor aqui é insuportável. Ela não respondeu de imediato, mas o desconforto era evidente, não apenas pelo ambiente fechado, mas pela tensão acumulada que parecia tornar o ar ainda mais pesado. — Ninguém deveria se acostumar com isso — respondeu por fim, com um leve cansaço na voz. — E ainda assim você escolheu estar aqui. Ela voltou a me encarar. — Eu achei que conseguiria lidar. — E consegue? A pergunta ficou suspensa por alguns segundos antes de ser respondida. — Não da forma que imaginei. Assenti levemente, reconhecendo a sinceridade na resposta. — Você é jovem para alguém que trabalha em um lugar como este. — Tenho vinte e seis anos. — E já carrega responsabilidades que muitos evitariam. Ela não respondeu diretamente, mas a expressão indicava que aquela não era uma escolha simples. — Eu não tive muita opção — disse por fim. Aquilo explicava mais do que qualquer detalhe adicional. — E o pai da sua filha? Ela desviou o olhar de imediato. — Isso não diz respeito a você. Não insisti, porque havia perguntas que não precisavam ser respondidas para serem compreendidas. Alguns segundos de silêncio se passaram até que ela se aproximasse novamente, desta vez focada apenas no trabalho, verificando o curativo, ajustando a medicação, mantendo uma distância que parecia calculada, mas que, inevitavelmente, se tornava menor do que deveria a cada movimento necessário. Quando a mão dela tocou meu rosto para avaliar a temperatura, o gesto foi técnico, preciso, mas durou o suficiente para que algo mudasse, ainda que de forma sutil, quase imperceptível. A proximidade deixou de ser apenas funcional. Havia tensão. Havia curiosidade. Havia algo que nenhum dos dois verbalizava. E foi nesse instante que qualquer linha racional deixou de existir. Sem planejamento, sem cálculo, apenas impulso, levei a mão ao rosto dela, segurando com firmeza suficiente para impedir que recuasse imediatamente, aproximando-a sem pressa, mas sem espaço para dúvida. O beijo aconteceu de forma direta, intensa, carregando tudo aquilo que não havia sido dito até então. Por um breve momento, o tempo pareceu suspenso. E então voltou a seguir seu curso.
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