capítulo 1
A Mulher do Irmão
No nosso povo, existiam leis que ninguém ousava quebrar.
A palavra do chefe era absoluta. A honra vinha antes da vida. E a mulher de um irmão... era sagrada.
Meu nome é Durval.
Mas quase ninguém me chamava assim.
Para todos, eu era o Gigante.
Meu irmão mais velho era Brandão.
Conhecido como Urso.
O homem mais respeitado da tribo depois do grande chefe. Forte, inteligente e temido pelos inimigos. Desde pequeno, ele foi meu exemplo. Meu protetor. O homem por quem eu daria a minha própria vida.
Foi por isso que meu castigo começou no dia em que ele se casou.
Ela chegou à aldeia como a luz depois de uma tempestade.
Doce.
Meiga.
Carinhosa.
Ela não cuidava apenas do marido.
Ela cuidava de nós dois.
Se eu voltava de uma caçada ferido, ela limpava meus machucados enquanto brigava comigo por ter sido imprudente.
Se eu passava o dia inteiro treinando os guerreiros e esquecia de comer, ela aparecia com um prato quente nas mãos.
— Durval... você precisa se cuidar. Um dia ainda vai encontrar uma boa mulher para cuidar de você.
Ela sorria daquele jeito que aquecia qualquer coração.
E eu apenas respondia com outro sorriso.
Porque jamais poderia dizer a verdade.
Não era fácil.
Como eu poderia procurar outra mulher...
...se meu coração já havia escolhido justamente aquela que nunca poderia ser minha?
Eu me apaixonei pela esposa do meu irmão.
E esse era o meu maior tormento.
Todos na aldeia acreditavam que eu nunca me casava porque era exigente demais.
Outros diziam que nenhum coração suportava um homem do meu tamanho.
Mal sabiam eles...
Que meu coração já pertencia a alguém.
À única mulher que eu jamais poderia amar.
Porque ela era a esposa do Urso.
A mulher do meu irmão.
E eu preferia morrer em silêncio...
Do que destruir a única família que eu tinha.
Os dias passaram.
E eu transformei o amor em distância.
Sempre que ela entrava em algum lugar, eu saía.
Quando ela preparava o jantar, eu dizia que já tinha comido.
Se ela queria conversar, eu inventava qualquer desculpa e desaparecia pela mata para treinar ou patrulhar as fronteiras da tribo.
Ela começou a perceber.
Numa tarde, enquanto eu afiava minha lança embaixo de uma árvore enorme, ouvi seus passos leves se aproximando.
— Durval...
Continuei olhando para a lâmina.
— Hum?
Ela sentou ao meu lado.
— Eu fiz alguma coisa?
Meu peito apertou.
Levantei os olhos e encontrei aquele rosto tão sereno, tão cheio de bondade.
— Não.
— Então por que você está me evitando?
Fiquei em silêncio.
Ela sorriu de leve.
— Antes você passava horas conversando comigo. Agora m*l olha para mim.
Apertei o cabo da lança com tanta força que meus dedos ficaram brancos.
— É impressão sua.
Ela balançou a cabeça.
— Não é.
Mais alguns segundos de silêncio.
Então ela colocou uma das mãos sobre meu antebraço.
Um gesto simples.
Inocente.
Mas que fez meu coração disparar como se eu estivesse em uma batalha.
Afastei o braço imediatamente.
Ela arregalou os olhos.
— Durval...
Levantei-me depressa.
— Eu tenho trabalho.
— Você está bravo comigo?
Respirei fundo.
— Nunca.
— Então olha para mim.
Eu não consegui.
Se olhasse mais alguns segundos para aqueles olhos, talvez toda a minha força desaparecesse.
— Você é uma mulher boa demais.
Ela sorriu.
— Obrigada...
Balancei a cabeça.
— Justamente por isso... fique longe de mim.
Ela franziu a testa, completamente confusa.
— Eu não entendo.
Eu também não queria que entendesse.
Porque, se entendesse...
Ela descobriria o pecado que eu escondia havia anos.
Sem dizer mais uma palavra, caminhei para a floresta.
Atrás de mim, senti o olhar dela me acompanhando até desaparecer entre as árvores.
Naquela noite, Brandão percebeu meu comportamento.
Enquanto os guerreiros comemoravam ao redor da grande fogueira, ele se aproximou e entregou uma caneca de bebida.
— O que está acontecendo com você, Gigante?
— Nada.
Ele riu.
— Você mente muito m*l.
Fiquei calado.
Brandão passou a mão no meu ombro.
— Você é meu irmão. Se existe algum peso no seu coração, divide comigo.
Fechei os olhos por um instante.
Se ele soubesse...
Se descobrisse que o homem em quem mais confiava carregava um amor proibido pela própria esposa...
Eu perderia meu irmão.
Perderia minha honra.
E talvez nem merecesse continuar vivendo naquela tribo.