capítulo 2

1434 Words
Naquela noite, quase não dormi. O vento atravessava as paredes da cabana, mas o frio que eu sentia vinha de dentro. Antes do amanhecer, peguei meu arco e fui para a mata. Caçar sempre me ajudava a calar os pensamentos. Mas, naquele dia, nem a floresta conseguiu me trazer paz. Quando voltei, o cheiro de pão assado e carne na brasa tomou conta do ar. Ela já estava de pé. Como todas as manhãs. Assim que me viu entrar, abriu um sorriso. — Achei que você voltaria só ao meio-dia. Entregou-me uma tigela de caldo quente. — Você saiu sem comer de novo. Olhei para a tigela. Depois para ela. — Obrigado. Ela cruzou os braços, fingindo estar brava. — Obrigado, nada. Senta e come. Brandão apareceu logo atrás dela, ainda sonolento. Passou o braço pelos ombros da esposa e beijou sua testa. — Bom dia, meu amor. Ela sorriu daquele jeito que fazia qualquer lugar parecer um lar. Meu peito doeu. Não por inveja do meu irmão. Mas porque aquele sorriso nunca poderia ser meu. Brandão olhou para mim. — Hoje vamos até a aldeia do norte negociar peles. Quero que venha comigo. Assenti. — Como quiser. Ela logo interrompeu. — Não esqueçam de levar água. Da última vez vocês voltaram quase desidratados. Brandão riu. — Está vendo, Durval? Ela cuida de mim... e de você também. Forcei um sorriso. — Eu sei. Ela caminhou até mim e ajeitou o colar de dentes de lobo que eu usava. — Você sempre deixa isso torto. Por um segundo, os dedos dela tocaram meu pescoço. Meu corpo inteiro enrijeceu. Ela não percebeu. Para ela, era apenas um gesto de carinho. Para mim... Era uma tortura. Afastei-me um passo. — Já está bom. Ela me olhou sem entender. Brandão observou a cena em silêncio. Foi a primeira vez que vi uma pequena sombra surgir em seu olhar. Muito discreta. Quase imperceptível. Mas suficiente para me fazer sentir um peso ainda maior na consciência. Enquanto seguíamos pela trilha, Brandão quebrou o silêncio. — Você anda estranho com ela. Meu coração quase parou. Mantive os olhos na estrada. — Estranho como? — Antes vocês conversavam o tempo todo. Agora você m*l entra em casa. Respirei fundo. — Estou ocupado. Brandão ficou alguns segundos calado. Depois sorriu de lado. — Ela está preocupada. Disse que acha que fez alguma coisa para te magoar. Fechei a mão ao redor da lança. Cada palavra era como uma facada. Ela sofria... Por causa de um sentimento que nunca deveria ter existido. Naquele instante, tomei uma decisão. Se fosse preciso, eu deixaria a tribo. Era melhor viver longe dos dois... Do que permitir que um amor proibido destruísse a única família que eu tinha. Naquela mesma tarde, quando voltamos para a aldeia, eu já tinha tomado minha decisão. Eu iria embora. Pediria ao chefe tribal autorização para liderar um grupo de guerreiros nas terras do leste, onde as fronteiras viviam sob ameaça. Talvez passasse meses. Talvez anos. Qualquer distância era melhor do que continuar vivendo sob o mesmo teto que ela. Quando entrei na cabana, encontrei Brandão sentado à mesa. Ela terminava de servir o jantar. Assim que me viu, sorriu. — Ainda bem que chegaram. A comida já estava esfriando. Sentei em silêncio. Os três comeram por alguns minutos, até Brandão quebrar o silêncio. — Tenho uma notícia. Ela levantou os olhos. — O que foi? — O conselho dos chefes quer que eu viaje para as montanhas do norte. Há rumores de que outra tribo está invadindo nossas terras. Ela franziu a testa. — Por quanto tempo? Brandão deu de ombros. — Ninguém sabe. Pode ser uma semana... ou alguns meses. Meu coração afundou. Ela tentou esconder a preocupação, mas não conseguiu. — Então eu vou esperar você voltar. Brandão sorriu e segurou sua mão. — Eu sei que vai. Depois olhou para mim. — Enquanto eu estiver fora, quero que cuide dela. A colher escapou da minha mão e caiu sobre a mesa. O silêncio tomou conta da cabana. Ele continuou, sem imaginar a guerra que acontecia dentro de mim. — Você é o homem em quem mais confio, Durval. Se eu tiver que deixar minha esposa sob os cuidados de alguém, será sob os seus. Senti um nó na garganta. Ele estava me entregando o bem mais precioso que possuía. Porque confiava em mim cegamente. Baixei a cabeça. — Eu... Minha voz falhou. Brandão sorriu. — Eu sabia que podia contar com você. Ela também sorriu, aliviada. — Não vou dar trabalho nenhum. Olhei para os dois. Naquele instante, senti vergonha de mim mesmo. Brandão me oferecia confiança. Ela me oferecia carinho de irmã. E eu escondia um sentimento que jamais deveria existir. Naquela noite, saí da cabana e caminhei sozinho até o penhasco que ficava acima da aldeia. As estrelas iluminavam o céu. Ajoelhei-me sobre a terra e fechei os olhos. — Me dê forças... — sussurrei. — Porque eu nunca vou tocar nela. Nunca vou trair meu irmão. Mesmo que esse amor me destrua por dentro. Atrás de mim, ouvi passos leves. Não precisei me virar para saber quem era. — Durval... Era ela. Sua voz carregava preocupação. — Você anda sofrendo sozinho... e eu não sei como ajudar. Continuei olhando para o horizonte. Se eu me virasse... Se encarasse aqueles olhos mais uma vez... Talvez minha última barreira começasse a ruir. Continuei de costas para ela. O vento balançava as árvores e fazia os cabelos dela dançarem, mas eu não tinha coragem de olhar. — Você não deveria estar aqui. Ela deu mais um passo. — E deixar você sozinho desse jeito? Fechei os olhos. — Eu gosto de ficar sozinho. Ela soltou uma risada baixa. — Não gosta, não. Você apenas aprendeu a esconder o que sente. Aquilo me atingiu em cheio. Ela me conhecia. Talvez mais do que eu gostaria. — Brandão está preocupado com você. — Eu sei. — E eu também. Meu peito apertou. Ela parou ao meu lado, olhando para o horizonte. Ficamos em silêncio por alguns minutos. Até que ela falou: — Sabe... quando me casei com seu irmão, achei que estava ganhando apenas um marido. Sorriu de leve. — Mas ganhei um irmão também. A palavra ecoou dentro de mim. Irmão. Era assim que ela me via. E era assim que deveria continuar sendo. Ela continuou: — Você sempre me protegeu. Sempre cuidou de mim quando o Brandão estava longe. Nunca deixou faltar nada. Eu tenho muito carinho por você. Engoli em seco. Se ela soubesse que cada gesto de proteção era, na verdade, uma tentativa desesperada de mantê-la segura... Porque eu a amava. Ela nunca mais olharia para mim da mesma forma. — Durval... Ela tocou meu braço. — Promete uma coisa? Respirei fundo. — O quê? — Que não vai embora da tribo. Meu coração falhou uma batida. Então ela sabia. — Quem disse isso? — Ouvi você conversando com um dos guerreiros. Ela abaixou a cabeça. — Esta casa já perdeu pessoas demais. Não quero perder você também. Apertei os punhos. Cada palavra dela aumentava minha culpa. — Às vezes... ir embora é a única forma de proteger quem a gente ama. Ela franziu a testa. — Proteger de quê? Olhei finalmente para ela. Nossos olhos se encontraram. Foi apenas um instante. Mas bastou para eu perceber o quanto era perigoso permanecer ali. Desviei o olhar imediatamente. — Existem batalhas que acontecem aqui dentro. Levei a mão ao peito. — E ninguém pode lutar por nós. Ela permaneceu em silêncio, tentando entender aquelas palavras. Depois sorriu com a mesma doçura de sempre. — Seja qual for essa batalha... você não precisa enfrentá-la sozinho. Meu coração quase cedeu. Por um segundo, tive vontade de contar tudo. De confessar que cada noite era uma tortura. Que cada sorriso dela me fazia feliz e me destruía ao mesmo tempo. Mas eu jamais faria isso. Porque amá-la já era um pecado. Obrigá-la a carregar esse peso comigo seria uma crueldade ainda maior. Dei um passo para trás. — Volte para casa. — E você? — Vou ficar mais um pouco. Ela hesitou. Depois assentiu. — Não demora. O Brandão ficaria bravo se soubesse que você passou a noite toda aqui em cima. Sorri pela primeira vez em muitos dias. — Eu sei. Ela foi embora sem imaginar que, naquele momento, eu estava me despedindo da vida que conhecia. Antes do amanhecer, eu pediria ao conselho permissão para partir. Se o destino fosse misericordioso... Eu voltaria quando meu coração finalmente aprendesse a esquecer a única mulher que nunca poderia ser minha.
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