capítulo 3

1062 Words
O sol ainda nem havia nascido quando me levantei. Peguei minha lança, meu arco e caminhei em direção à casa do grande chefe tribal. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. Quando cheguei, encontrei Brandão saindo de lá. Ele sorriu ao me ver. — Eu estava justamente procurando você. Parei diante dele. — Aconteceu alguma coisa? — O chefe nos chamou. Entramos juntos. O grande chefe estava sentado sobre uma pele de urso. Os anciãos da tribo ocupavam seus lugares ao redor da fogueira. Assim que nos aproximamos, ele ergueu os olhos. — Tenho uma missão. Brandão cruzou os braços. — Estamos ouvindo. O velho respirou fundo. — Uma tribo inimiga foi vista perto do Rio n***o. Nossos batedores encontraram rastros de mais de cinquenta guerreiros. O silêncio tomou conta da cabana. — Eles não vieram caçar. Vieram conquistar. O chefe olhou diretamente para mim. — Durval. — Sim, meu chefe. — Você liderará vinte guerreiros até a fronteira. Meu coração acelerou. Era a oportunidade perfeita para partir. Mas antes que eu respondesse, Brandão falou. — Eu vou com ele. O chefe balançou a cabeça. — Não. Brandão franziu a testa. — Por quê? — Porque você partirá amanhã para as montanhas do norte. Não podemos deixar duas fronteiras desprotegidas. Meu irmão respirou fundo. Sabia que discutir seria inútil. Então caminhou até mim. Segurou meu ombro com firmeza. — Confio essa missão a você. Assenti. — Não vou decepcionar você. Ele sorriu. — Eu nunca duvidei disso. ... Na volta para casa, encontramos ela preparando ervas medicinais. Assim que nos viu, levantou o rosto. — O que o chefe queria? Brandão respondeu primeiro. — Vamos nos separar por um tempo. O sorriso dela desapareceu. — Como assim? — Amanhã sigo para o norte. Ela olhou para mim. — E você? Respirei fundo. — Vou proteger a fronteira do Rio n***o. Os olhos dela se encheram de preocupação. — Então... vocês dois vão embora? Brandão segurou seu rosto com carinho. — É nosso dever. Ela apenas concordou, mas era impossível esconder a tristeza. Naquela noite, ela preparou nosso jantar favorito. Queria que nossa última refeição juntos fosse especial. Enquanto servia a comida, seus olhos passeavam entre mim e Brandão. — Prometam que vão voltar. Brandão sorriu. — Eu prometo. Ela voltou-se para mim. Demorei alguns segundos para responder. Porque, pela primeira vez, não tinha certeza se voltaria. — Eu... prometo que vou lutar para isso. Ela sorriu, mas parecia sentir que minhas palavras escondiam algo. Depois do jantar, enquanto Brandão saía para conversar com os guerreiros, ela ficou recolhendo os pratos. Sem pensar, aproximei-me. — Deixa que eu levo. Ela sorriu. — Você nunca gostou de fazer isso. — As pessoas mudam. Ela me entregou uma tigela. Nossos dedos se tocaram por um instante. Ela retirou a mão devagar. — Quando vocês voltarem... Vou preparar um banquete. Olhei para ela. — Você sempre acredita que tudo vai terminar bem, não é? Ela respondeu com um sorriso calmo. — Alguém precisa acreditar. Naquele instante, eu desejei, mais do que qualquer outra coisa, que ela estivesse certa. Porque uma guerra se aproximava. E eu ainda não sabia se o maior perigo estava na fronteira... ...ou dentro do meu próprio coração. Na manhã seguinte, toda a aldeia se reuniu para a despedida dos guerreiros. As mulheres entregavam amuletos de proteção. As crianças corriam entre os cavalos. Os anciãos faziam orações ao redor da fogueira sagrada. Brandão seria o primeiro a partir. Ela caminhou até ele segurando um pequeno colar feito de couro trançado e uma presa de lobo. — Eu fiz para você. Brandão sorriu. — Então ele vai voltar comigo. Ela mesma colocou o colar em seu pescoço. Depois segurou seu rosto entre as mãos e o beijou. Desviei os olhos. Aquela cena nunca deveria me machucar. Mas machucava. Porque ela estava exatamente onde deveria estar. Nos braços do meu irmão. Brandão montou em seu cavalo. Antes de partir, olhou para mim. — Cuida da nossa casa. Assenti. — Com a minha vida. Ele sorriu. — Eu sei. Os cavalos começaram a se afastar. Ela ficou olhando até Brandão desaparecer entre as árvores. Só quando não conseguiu mais vê-lo, uma lágrima escorreu por seu rosto. Ela a limpou rapidamente, tentando ser forte. Aproximei-me em silêncio. — Ele vai voltar. Ela respirou fundo. — Eu sei... Mas o coração da gente nunca obedece à razão. Não respondi. Porque o meu também não obedecia. ... Duas horas depois, chegou a minha vez. Os vinte guerreiros já estavam prontos. O grande chefe colocou a mão sobre meu ombro. — Que os espíritos caminhem ao seu lado, Gigante. — Eles caminharão. Montei no cavalo. Quando ia dar a ordem para partirmos, ouvi sua voz. — Durval! Puxei as rédeas. Ela vinha correndo. Parou ofegante diante de mim. Nas mãos, carregava uma pequena bolsa de couro. — Você saiu sem isso. Entregou-me a bolsa. Dentro havia carne seca, ervas medicinais e um pedaço de pão que ela mesma havia feito antes do amanhecer. Sorri de leve. — Você pensa em tudo. Ela deu de ombros. — Alguém precisa cuidar de você. Meu peito apertou outra vez. Ela levantou a mão e ajeitou uma mecha do meu cabelo, como fazia desde que chegou à aldeia. — Volta inteiro, está bem? Olhei para aqueles olhos cheios de bondade. Naquele momento, tive vontade de dizer que ela era a melhor parte da minha vida. Mas apenas assenti. — Vou voltar. Ela abriu os braços. — Posso te dar um abraço? Por um segundo, o mundo inteiro pareceu parar. Desci do cavalo lentamente. Ela me abraçou sem qualquer malícia. Como uma irmã abraça um irmão. Fechei os olhos. Com muito cuidado, retribuí o abraço. Sem apertá-la além do necessário. Sem permitir que ela percebesse o quanto aquele simples gesto significava para mim. Quando nos afastamos, ela sorriu. — Que os espíritos protejam você também. Voltei para o cavalo. Sem olhar para trás, ergui a mão. — Vamos! Os cavalos dispararam pela trilha. Só quando a aldeia desapareceu no horizonte, permiti que uma única lágrima escorresse pelo meu rosto. Eu estava indo para a guerra. Mas, pela primeira vez na vida... Eu tinha a sensação de que não era dos inimigos que eu estava fugindo. Era dela. E, por mais quilômetros que eu percorresse... Havia uma mulher que eu jamais conseguiria deixar para trás.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD