Christopher
Dulce acabou adormecendo e eu desliguei a televisão. Com a cabeça em meu ombro, sua perna enroscada na minha e parte do seu corpo sobre o meu, ela respirava fundo, adormecida como uma pedra.
Eu fiquei olhando para ela, acariciando seu rosto com o meu dedo indicador. Eu poderia ficar horas aqui olhando aquela mulher tão linda dormir. Ela parecia em paz, com um pequeno sorriso de canto. Vez ou outra, ela me apertava de leve e se aconchegava ainda mais em meu peito.
O relógio já marcava dez da manhã e eu já imaginava que no oceanário, estivessem se perguntando onde eu estava. E eu estava certo, já que meu celular começou a tocar, fazendo Dulce acordar.
— Continua dormindo, é só a minha irmã. — afaguei seus cabelos e ela voltou a fechar os olhos. — Oi, May. — falei ao atender o celular.
— Onde você está?
— Acredita que eu estou com a Dulce?
— O que? E onde ela estava esse tempo todo?
— Ela não me disse e eu não quero pressionar.
— Meu Deus, essa garota quase mata todo mundo do coração, ela tem que se explicar!
— May, por favor, não faz nenhuma pergunta. Quando ela quiser contar, ela vai.
— Bom, eu vou ficar quieta, mas você sabe que o Christian não. Ele está tão aflito!
— Eu sei... — suspirei.
— Onde está está agora?
— Dormindo. Parece que não dorme a dias.
— O que você acha que aconteceu?
— Não faço a mínima ideia.
— Eu tenho que voltar ao trabalho. Talvez o Christian vá aí depois que eu contar que a Dulce voltou.
— Só pede pra ele vir com calma.
— Pode deixar.
Com cuidado, eu tirei Dulce de cima de mim e coloquei um travesseiro debaixo da sua cabeça. Saí do quarto e fui até a cozinha da pensão. Cumprimentei algumas pessoas que estavam ali e perguntei se poderia preparar um chá para a Dulce. Eles permitiram e se mostraram dispostos a ajudar.
Preparei um chá de camomila e voltei para o quarto dela. Dulce ainda dormia e pelo jeito, não acordaria tão cedo. Fui até ela e acariciei seu rosto.
— Dulce? — chamei.
— Me deixa sair... — resmungou, no meio de um possível sonho. — Eu não gosto do escuro! — sua respiração acelerou. — Está frio... Que tipo de amor materno é esse?
— Ei, Dulce! — falei mais alto e ela acordou ofegante. — Com o que estava sonhando?
— Eu não estava sonhando... — desviou o olhar.
— Estava sim. Era com a sua mãe? — ela ficou séria e não me respondeu. — Você me disse que a relação entre vocês era difícil. O que ela realmente fazia com você?
— Isso é chá? — ignorou totalmente os meus questionamentos e pegou a xícara da minha mão. — Eu adoro camomila! — sorriu.
— Sempre vai fazer isso?
— Fazer o que?
— Quando eu te faço uma pergunta séria, você simplesmente decide que não quer responder. Uma hora você vai ter que se explicar.
— Disse que eu só precisava fazer isso se estivesse confortável.
— E eu sinto que você nunca vai estar. Sumiu por três dias e voltou sem nenhum arranhão, como se nada tivesse acontecido. O que quer que a gente pense sobre você? — ela olhou para baixo e suspirou.
— Christopher, eu acabei de chegar aqui e não vou ficar pra sempre. Sinceramente? Eu não me importo com o que pensam de mim porque uma hora ou outra eu vou embora e vocês vão ficar pra trás. Eu não tenho que explicar nada da minha vida a nenhum de vocês. — eu estava mesmo ouvindo aquilo? Ela simplesmente não tinha nenhum tipo de apego com as pessoas que conheceu aqui?
— Então, é isso? Somos só uma experiência pra você? Não sente nenhum tipo de carinho que te faça ser um pouco transparente com a gente? Você tem noção do quanto está sendo egoísta?
— Tenho. — assentiu. — É só uma questão de proteção.
— Você tem problemas com a sua mãe. Ela fez alguma coisa com você que te deixou assim. Não precisa ficar pulando de cidade em cidade, Dulce. Você precisa é de terapia!
— Mesmo? Diga-me, como a sua terapia tem funcionado? Por acaso você tirou a lembrança daquela sereia da sua cabeça? Ainda acha que um ser místico matou o seu pai? — ela disse aquilo em tom de deboche e vindo dela, aquilo me magoava muito.
— O maior erro que eu cometi desde que saí daquele hospital psiquiátrico foi ter me permitido gostar de você. — fui seco e no rosto dela, um olhar de arrependimento surgiu.
— Eu... não queria ter dito isso... não é sua culpa... mas você me magoou primeiro!
— Eu não disse pra você fazer terapia porque queria te ofender. Disse porque me preocupo com você.
— Desculpe...
— Eu concordei que não te pressionaria, então é melhor eu ir embora e parar de insistir nisso. — olhei meu relógio de pulso. — O Christian deve estar vindo te ver. Até mais, Dulce. Espero que se recupere. — ela assentiu.
Saí pela porta e fui para o oceanário. Eu tentava entender a Dulce, deixá-la viver como quisesse, mas até quando eu teria que me conformar em não conhecê-la? Suas palavras me deixaram chateado e me sentindo uma carta fora do baralho, um passatempo numa viagem de férias. Eu não queria ser passageiro na vida dela, eu queria ser eterno. Mas tinha que admitir que a cada novo encontro, parecia que me apaixonar por ela seria um erro.
Chegando ao oceanário, avistei Alfonso saindo pela entrada. Ele veio até mim com um sorriso no rosto.
— Ei, Christopher! Já que a Dulce voltou, podemos retornar ao mar, ok? Vamos continuar a expedição! — animou-se.
— Não pode deixar pra depois? Eu passei três dias bem aflito, queria poder descansar.
— Não precisa ir se não quiser.
— Eu não vou deixar você ir sozinho pra matar um bicho que não tem culpa nenhuma dos instintos que tem. — cruzei os braços.
— Biólogos marinhos são insuportáveis! — revirou os olhos. — Fica aqui e continua tentando conquistar a Dulce.
— Eu acho que vou parar de fazer isso. — dei de ombros.
— A quem você quer enganar? — riu. — Não resiste à ela e eu te entendo, se ela me desse mole, eu jamais pararia de correr atrás dela.
— Não vou deixar você ir sozinho. — mudei de assunto.
— Meu barco sai às cinco da tarde. Apareça, ou não. — deu dois tapinhas em meu ombro e seguiu seu caminho.
Depois de um dia longo de trabalho, eu fui até o cais. Meu irmão convocou dois barcos. O primeiro deles saiu antes do nosso. Dessa vez, ele preferiu chamar uma equipe de pesquisadores e mergulhadores que entrariam na cratera. Eu nem ousaria questionar ele de como aquilo era perigoso. Alfonso era cabeça dura demais.
Dulce
Tive que ouvir um sermão do Christian sobre como foi irresponsável da minha parte sumir sem avisar a ninguém. Para ele, eu disse que havia ido por livre e espontânea vontade, apenas para relaxar a minha cabeça que estava cheia de coisas.
Poderia ter dito o mesmo ao Christopher, mas por algum motivo que eu não conseguia entender, mentir para ele era como enfiar uma faca em mim mesma.
Passei o resto do dia deitada dormindo, levantava apenas para comer. Meu corpo pesava e até eu estar disposta, não iria sair do meu quarto.
E no fim de tarde, eu fui até o mar. Não tive uma conversa com a Água desde que ela me liberou daquele castigo infernal.
— Olá, meu bem! — Ela disse quando a primeira onda tocou os meus pés. — Como se sente?
— Como um saco de pancadas desgastado.
— Me dói ter que fazer isso com você, mas você entende, não é?
— Eu tento...
— Há uma forma de nos acertarmos. Naquela mesma cratera há um barco com vários homens.
— De novo? — franzi a testa.
— Parece que resolveram voltar. Vamos fazer o que já deveríamos ter feito!
— Claro, tudo bem... — eu dizia andando devagar para trás. — Vou fazer o que Você quiser que eu faça.
— Dulce?
Meus pés saíram do mar e eu corri para longe da praia. Atrás de mim, eu vi o tempo fechar e o mar se agitar como se uma tempestade estivesse prestes a acontecer. Ela estava furiosa comigo por ter saído correndo. Mas e se Christopher tivesse retornado com o Alfonso e os outros? Se eu voltasse para o mar, não teria como fugir dos comandos Dela.
Meus pés descalços doíam enquanto eu corria pelas pedras em direção ao cais. Não desacelerei, mesmo sentindo que eu começaria a sangrar.
Quando cheguei, avistei o barco e os marinheiros arrumando as coisas para viajar. Christopher estava na proa, como o vi antes. Ele lia um livro com um semblante concentrado.
E já que o barco que estava na cratera não era o dele, eu poderia ir lá e fazer o que a Água queria.
Tomando cuidado para não ser vista, eu entrei no mar e nadei até ficar debaixo do cais.
— Por que correu? — Ela perguntou com um tom irritado.
— Precisava ver uma coisa antes, me desculpe. — eu disse, retirando minhas roupas e as deixando num tronco.
— Seus pés estão machucados.
— Sim, mas depois que eu voltar, Você pode curá-los.
— Você ficou estranha quando eu disse para voltar até a cratera. Não gostei da forma como você pareceu fugir!
— Eu já pedi desculpas!
— Desculpas não ensinam ninguém a se comportar.
Eu não disse mais nada, só soltei um longo suspiro, mergulhei e comecei a nadar depois que a minha cauda surgiu. Em poucos minutos, eu já estava no meio da cratera e observava os mergulhadores se prepararem para saltar lá dentro.
Comecei a cantar e instantaneamente, todos eles começaram a se jogar no mar. Depois que todos já estavam boiando na superfície, eu comecei a puxa-los para o fundo, sendo engolidos pela escuridão do oceano.
Depois que tudo estava feito, eu retornei ao cais. Minhas pernas apareceram novamente e eu me vesti ainda dentro da água.
— Eu vou mandar alguns ventos para aquela região, pra que o barco seja naufragado. Não cometerei o erro de mais pessoas tentarem ir investigar. Eu ficaria tentada à afoga-los e você, seria teimosa como sempre.
— Meus pés ainda estão machucados. — reclamei.
— Assim você não vai mais correr de mim.
— Até quando vai continuar ranzinza comigo? Nós nos dávamos tão bem...
— Pois é, Dulce! Você sempre me obedecia, não me questionava. Se continuar assim, não deixarei que fique em terra firme.
— Eu vou melhorar.
— Assim espero. — Ela fez uma pausa. — Bom trabalho hoje.
— Obrigada. — sorri de canto.
Saí do mar e sentei no cais. Meus pés sangravam e doíam. Eu começava a imaginar a dor que seria ter que ir pra casa.
Do barco de Alfonso, eu vi alguns marinheiros saírem, resmungando sobre como o vento estava começando a ficar r**m e o fato de o outro barco não estar mais respondendo aos chamados. Com tudo isso, eles não iriam viajar até o tempo melhorar.
Eu vi Christopher sair do barco. Ele me avistou e veio andando na minha direção. Quando ele chegou perto, eu fiquei de pé, mas meus pés doíam tanto que eu caí e fui segurada por ele.
— O que foi? — perguntou preocupado.
— Eu soube que vocês iriam voltar até a cratera e eu vim correndo. — nós nos sentamos no chão. — Eu não quero que você fique em perigo.
— Dulce... — ele segurou um dos meus pés e me olhou com pena. — Olha o que fez! Isso pode infeccionar. — ele começou a procurar algo em seus bolsos. — Pior que não tenho nada aqui pra fazer esse sangue parar. — vendo que não teria outra alternativa, Christopher tirou a camisa que usava e começou a limpar os meus pés. — Tentou nadar de novo?
— É... eu e o mar temos as nossas diferenças, mas estamos tentando nos acertar. — ele riu fraco.
— Bem... — ele olhou para trás, em direção ao barco e depois para mim. — Creio que não vamos poder sair tão cedo. Eu vou te levar pra casa.
Christopher levantou e me pegou no colo. Sua pele estava quente e eu sentia seu coração bater forte. Ele me encarou e eu o encarei de volta. Estar tão perto dele me causava sensações únicas. Era como se uma corrente elétrica atravessasse o meu corpo, indo direto para o meu coração.
Acariciei sua testa, afastando uma mecha de cabelo. Ele sorriu de lado e eu retribuí o sorriso, não evitando olhar para os seus lábios.
— Você é tão bonito... — era pra eu apenas ter pensado naquilo, mas acabei falando. Levei minha mão até a minha boca e senti meu rosto esquentar. Ele deu risada e beijou minha bochecha.
— Você também é linda, principalmente quando fica tímida. Agora, vamos até a minha casa. Eu tenho um kit de primeiros socorros. Vamos fazer alguns curativos em seus pés.
Ele me levou até a sua casa me carregando nos braços. Chegando lá, ele enfaixou os meus pés e ficamos conversando sobre os nossos gostos musicais, as coisas que gostávamos de fazer no tempo livre e todos os lugares que já visitamos. Ele ficou impressionado com o número de países onde eu já estive e fez várias perguntas sobre as culturas e as coisas que eu mais gostei de conhecer.
Ficamos assistindo alguns programas de humor na televisão enquanto comíamos uma pipoca que ele havia preparado.
Ficar perto dele me fazia sentir viva. Eu não queria perder aquela sensação nunca, por mais perigosa que ela fosse. E talvez eu não precisasse colocá-lo em perigo. Enquanto a Água não soubesse de nada, tudo estaria bem.