09

2074 Words
Dulce  A manhã passou e eu não vi Christopher em nenhum momento. O que era estranho, já que ele passava a maior parte do dia trabalhando diretamente com os animais. Será que ele havia voltado ao trabalho de campo definitivamente?  O pior era que eu não conseguia explicar a mim mesma o porquê de eu me importar tanto com ele. Eu travava uma batalha contra os meus neurônios pra não ter que pensar o tempo inteiro em como seria poder estar perto dele sem me preocupar com o que uma entidade aquática pensaria.  Avistei Christian saindo do laboratório de pesquisa e corri até ele.  — Estava com a Maitê? — perguntei.  — Sim, ela me chamou pra ajudar ela a limpar os tubos de ensaio.  — E o Christopher? Eu não vi ele por aqui.  — Maitê me disse que o Alfonso foi fazer uma expedição hoje e o Christopher foi junto. Parece que vão tentar descobrir o que aconteceu no acidente.  — O que? — senti meu coração acelerar em meu peito. Marinheiros no mar por muito tempo em áreas de risco eram o alvo preferido da Água.  — Eu particularmente acho loucura voltar pro lugar que matou toda a tripulação de um barco, mas quem sou eu pra achar nada? — deu de ombros.  — Eu tenho que fazer uma coisa, segura as pontas pra mim?  — O que foi? — franziu a testa.  — Er... eu... menstruei! Que cólica horrível estou sentindo! — me esquivei, fazendo cara de dor.  — Pode ir, então. Eu cuido de tudo.  — Obrigada! — saí de lá o mais rápido que pude, nem ao menos tirei o macacão cinza que eu usava para trabalhar.  Fui até o cais e retirei todas as minhas roupas, depois mergulhei no mar, pedindo em pensamento o surgimento da minha cauda. Eu precisava convencer a Água a deixá-los em paz antes que Ela pensasse em me convocar para um trabalho que me faria tão m*l.  — Eu queria mesmo que você viesse. Alguns marinheiros estão ancorando próximo daquela cratera onde você cantou a alguns meses atrás. É um ótimo lugar para um "acidente".  — Água, tem pessoas ali com quem eu me importo.  — Nós vamos ter essa conversa de novo? O que eu disse sobre não criar vínculos?  Não respondi mais nada, apenas comecei a nadar sendo ajudada por Ela a chegar mais rápido. E eu cheguei em poucos minutos, avistando o barco próximo à beirada da cratera. Pude ouvir a voz de Alfonso ordenando que baixassem a âncora.  Eu estava bem no meio da cratera. Abaixo de mim, uma escuridão vazia se estendia por quilômetros. Nenhum corpo que eu deixei ali emergiu na superfície novamente.  — Cante. — Ela ordenou, mas eu me mantive em silêncio. — Dulce, cante!  Na proa do barco, eu avistei Christopher. Ele estava sentado, olhando o horizonte com uma expressão fria e vazia. Eu podia sentir toda a tristeza que o trauma de voltar ali lhe trazia. Vez ou outra, ele mirava o mar e dava um longo suspiro. A dor que ele sentia era culpa minha. Eu lhe causei esse m*l.  Não conseguia parar de observar cada detalhe dele. A sensibilidade em seu olhar, o jeito como os raios de sol reluziam em seu cabelo quase loiro, como o vento balançava seus cabelos, os fazendo ficar desarrumados, porém lindos. O seu rosto, coberto por uma barba por fazer que o deixava com um ar de liberdade que apenas um verdadeiro amante do oceano tinha.  Eu jurei não me apaixonar por mais ninguém, mas até quando isso seria possível estando na presença dele? E se eu não fosse uma sereia? Ele teria tanto interesse em mim? Ou toda aquela atração era puro fruto das dádivas que a Água me havia concebido?  E eu continuei olhando fixamente para ele, pela primeira vez estática com a imagem de alguém que eu acabara de conhecer, mas que já havia mexido comigo de diferentes formas possíveis. Por que entrou na minha vida, Christopher? Eu estava muito bem sem esse tipo de desejo carnal. Agora, eu temia pela sua vida.  — O que diabos está fazendo? Eu já te disse para cantar! — eu conseguia irritar a Água como nenhuma outra sereia.  — Eu não posso. — respondi ainda encarando Christopher.  — Não pode ou não quer?  — Não quero.  — Vai fazer isso comigo de novo?  — Não pode me obrigar. Tem muito pouco tempo que eu fiz o meu último trabalho! Não tem porquê querer que eu faça isso agora!  — Ora essa, eles estão aqui! São um alvo fácil, por que não aproveitar? São mais almas para nos fortalecer!  — Você não precisa ficar ainda mais forte!  — Quanto mais força eu tiver, mais tempo ficarei sem me alimentar. Dulce, não me contrarie novamente!  — Eu sinto muito. — dei as costas ao barco, pronta para nadar para longe.  — Eu também sinto muito. — e foi então que Ela começou a me puxar para dentro da cratera.  — O que está fazendo???? — entrei em desespero, tentando nadar para longe, sem sucesso.  — Às vezes uma mãe precisa castigar o seu filho.  — O que vai fazer comigo??? — comecei a afundar na cratera, perdendo cada vez mais a luz do sol, até não conseguir ver completamente nada. — Me tira daqui!!! Eu não gosto de profundidade, você sabe!!!  — Sente medo, Dulce? Lembra-se da última vez que esteve num lugar tão fundo?  As lembranças de quando eu nadei para salvar o homem que eu amava surgiram. Passei dias num abismo gélido e escuro, abraçada ao cadáver do meu primeiro amor. Desde então, eu só nadava onde a luz do sol podia tocar.  — Por favor... — eu chorava de desespero, me debatendo enquanto tentava nadar para cima.  — Você precisa me obedecer. Vou deixar que você decida. O que prefere? Subir lá e matar aqueles homens, ou passar três dias e três noites aqui?  — Água, eu não posso ficar aqui! Eu odeio o escuro do oceano!  — Basta afogar aqueles homens. — minha pressão subiu e eu ouvi um zunido na minha cabeça. Ficar ali era sufocante e me fazia ter vontade de morrer.  — Não... — desisti de lutar e deixei que meu corpo afundasse ainda mais.  — Fez sua escolha.  Chegando perto do chão, senti meu corpo grudar como um imã na areia. Ela não me deixaria sair dali até o meu castigo acabar. E eu suportaria tudo aquilo, mas não suportaria matar alguém por quem tinha um apresso tão especial. Depois de décadas longe do convívio humano, tudo o que eu podia fazer era tentar proteger aqueles que me faziam sentir normal.  Foram três dias e três noites que pareciam não querer passar. E o pior: Ela impediu que qualquer animal marinho chegasse perto de mim. Nenhum ser vivo pra me fazer companhia, ninguém com quem conversar, nem mesmo Ela falou comigo. Só um abismo n***o, silencioso e frio. Toda essa experiência me fez sentir um cadáver vivo.  Ao nascer do sol do quarto dia, eu senti meu corpo se desprender, voltando a boiar e eu nadei devagar até minha retina ser agraciada pela doce luz do sol. Cheguei até a superfície e respirei fundo, enchendo meus pulmões com oxigênio de novo. Eu não precisava dele para sobreviver, mas era a única parte da humanidade que restava em mim.  O barco não estava mais lá e eu torcia pra que todos estivessem bem e em casa.  — Espero não ter que fazer isso novamente. Você é uma boa pessoa, Dulce. Tente não me decepcionar.  — Desculpe. — falei apenas, começando a nadar em direção ao cais.  Saí da água e acabei caindo de joelhos. Fazia três dias que eu não sabia o que era andar, era fácil me sentir desequilibrada com as minhas pernas e o peso da gravidade.  Azarenta que sou, não encontrei as roupas que usava a última vez que estive ali. Alguém as havia levado. Como ainda estava amanhecendo, eu peguei um tecido qualquer em um dos barcos e enrolei no meu corpo, depois corri o mais rápido que pude até a pensão, torcendo pra que a cidade ainda estivesse dormindo.  Cheguei até a janela do meu quarto e agradeci aos céus por ter deixado aberta. Entrei e fui direto para o banheiro. Eu queria esfregar bem o meu corpo pra tirar toda aquela areia e sal acumulados.  Depois de um banho de quase quarenta minutos, eu vesti um roupão e enxuguei meu cabelo com o auxílio de uma toalha. Travei uma batalha com o pente tentando desatar aqueles nós e acabei com os braços cansados.  Do lado de fora do banheiro, ouvi o barulho da minha janela sendo aberta e alguém saltando para dentro. Fui até a porta e abri apenas uma fresta. Era o Christopher. Sentado em minha cama, segurando o golfinho de pelúcia que ele havia me dado no festival e em seu rosto, um semblante triste. Será que todos achavam que eu havia ido embora ou desaparecido?  — Christopher? — o chamei, abrindo a porta devagar. Ele ficou de pé rápido e paralisou olhando para mim. — Oi. — sorri sem jeito.  — Deus... — ele suspirou e veio até mim, me abraçando apertado. — Eu achei que tinha acontecido algo... — pelo seu tom de voz, ele estava prestes a chorar.  — Eu estou bem. — acariciei seus cabelos e dei um beijo em seu ombro.  — Achamos suas roupas num barquinho velho lá no cais. Eu pensei que tinha feito alguma besteira... — ele parou de me abraçar e segurou meu rosto. — Nem seguimos com a expedição depois que soubemos que havia sumido.  — Me desculpa... — meus olhos encheram de lágrimas. — Eu não queria ter ficado longe, não queria mesmo!  — O que aconteceu?  — Só me abraça, por favor? — fechei meus olhos e uma lágrima correu por minha face. Ele ergueu sua mão e a enxugou.  — Eu sei que a gente se conheceu a pouco tempo, mas por algum motivo, eu sinto como se você já estivesse presente numa parte importante da minha vida. Foi desesperador achar que você não estava mais aqui. — ah, Christopher... não sabe o quão desesperador foi pra mim não poder olhar pra você por esse tempo.  Ele me abraçou novamente e eu encostei minha cabeça em seu peito, podendo ouvir as batidas do seu coração. Esse tempo sendo castigada pela Água me serviu pra mostrar o quanto Christopher me faz falta e isso só significa que estava acontecendo o que eu mais temia.  Eu estava começando a ter sentimentos por ele, sentimentos que eu não podia controlar. E era quase certo que ele só se apaixonaria por mim por conta do meu poder de influência. Eu fui feita para atrair, para causar desejo e um amor quase súbito. Esse sentimento nem era culpa dele, mas tinha o poder de feri-lo.  — Eu sei que você vai me dizer que tenho que ver as outras pessoas, mas não agora, ok? Eu quero relaxar um pouco antes de ter que lidar com todas as perguntas. — falei.  — Eu tenho certeza que você não vai responder nenhuma. — eu ri pelo nariz. — O seu lado misterioso só serve pra me deixar ainda mais atraído, sabia? Eu quero te conhecer, saber o que se passa nessa sua cabeça.  — Você sairia correndo se soubesse. — ou acabaria me matando pelo que fiz.  — Eu duvido muito. — beijou o topo da minha cabeça. — Quer ficar na cama assistindo filmes? Prometo que não vou te perguntar nada enquanto você não estiver confortável para se abrir.  — Você é incrível! — sorri. — Eu vou vestir um pijama confortável.  Peguei um pijama no meu guarda-roupa e fui até o banheiro. O vesti e retornei para o quarto. Christopher já estava deitado mexendo na minha televisão. Deitei ao seu lado, apoiando minha cabeça em seu peito e ele me abraçou de lado.  Eu adorava o modo como ele não se metia nos meus problemas. Qualquer outra pessoa insistiria e ficaria chateada se eu simplesmente não quisesse contar onde estive ao sumir por três dias. E eu sabia que quando visse Christian enfrentaria uma fera bem irritada comigo.  Christopher era paciente, compreensivo e muito carinhoso. Eu diria que ele era um calmante ambulante. Tudo o que uma sereia precisa ter em terra firme.
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