Christopher
O sol estava começando a nascer quando eu saí de casa. Fui andando até a praia e comecei a caminhar com as ondas cobrindo meus pés. A brisa do oceano chicoteava meu rosto e eu fechava meus olhos, respirando fundo para sentir aquele ar puro me inundar.
A cerca de trinta metros de distância, eu avistei alguém saindo da água. Era uma mulher e estava completamente nua. Parei de andar e a observei com a testa franzida. O que diabos aquela mulher estava fazendo nadando pelada?
Quando ela correu até algumas rochas e pegou roupas que pareciam estar escondidas, eu reconheci a Dulce. Esperei que ela estivesse devidamente vestida e fui andando até lá.
— Dulce? — chamei me aproximando. Ela me olhou assustada e correu até mim, me empurrando antes que uma onda tocasse meus pés. Acabei caindo na areia e ela caiu sobre mim. — O que foi isso? — perguntei confuso.
— Er... Eu... — ela estava ofegante como alguém que nadou por horas.
Esperei uma resposta da parte dela, mas ela só me encarava aflita, respirando fundo e com a boca levemente aberta, possivelmente sem saber o que dizer. Quando do nada, ela me beijou. Foi um beijo desesperado, do qual eu não correspondi de início, mas foi inevitável me entregar a ela.
Agarrei sua cintura e a apertei contra mim, deixando que minha língua travasse uma batalha viciante com a dela. A rolei para o lado e fiquei sobre ela. Enlaçamos nossas pernas e continuamos um beijo que parecia que jamais cessaria.
Ela passava suas mãos por minhas costas e dava leves apertadas, movendo seus lábios com maestria, num ritmo perfeito.
Paramos o beijo já sem fôlego e eu deixei minha testa colada na dela, encarando os seus olhos.
— Se queria me beijar, era só pedir, não precisava me jogar na areia. — dei risada. Ela sorriu de lado e acariciou o meu rosto. Antes de levantar, eu dei um último selinho longo nela. Depois, fiquei de pé e a puxei pela mão. — Estava nadando?
— Pois é. — respondeu rápida.
— Achei que tinha medo do mar.
— Você queria que eu tentasse, não é? Estou tentando.
— Precisa de biquínis novos? — ela me olhou confusa. — Você estava pelada!
— Você me viu nua? — corou, arregalando os olhos.
— Relaxa, eu não sou nenhum pervertido. Só fiquei muito confuso.
— Bem... — desviou o olhar. — Eu queria ter uma experiência mais direta com o mar. Achei que me sentindo mais vulnerável a ele eu poderia superar os meus medos. É isso.
— E como se sente?
— Salgada. — rimos. — Ainda não estou pronta pra ir tão fundo.
— Tudo ao seu tempo. — sorri para ela. — Já tomou café da manhã?
— Não.
— Quer ir comigo até uma cafeteria? — ela pendeu a cabeça para o lado e me olhou como se pedisse desculpa. — Você acabou de me dar o melhor beijo da minha vida e não vai aceitar tomar café da manhã comigo? — cruzei os braços.
— Seria estranho, não é?
— Estranho e injusto.
— Bem, que m*l há? — deu de ombros. — Eu só preciso de um banho antes.
— Acho que eu também. — eu estava coberto de areia. — Eu passo na pensão daqui a vinte minutos.
— Ok, até mais.
Fui para casa e quando entrei, Alfonso estava sentado no sofá, vestindo seu uniforme de capitão e analisando um mapa que estava sobre o centro. Ele levantou a cabeça e me olhou de cima a baixo.
— Quem te atropelou na praia? — riu.
— A Dulce. — ri junto. — Eu acho que agora eu vou conseguir dar um passo à mais com ela.
— Você está gostando da Dulce? — me olhou de relance.
— Eu não sei... bem, eu penso muito nela e eu gosto de estar perto dela, me sinto bem. Sem contar que ela beija muito bem!
— Vocês se beijaram? — ficou boquiaberto. — Não é possível, sabe quantas vezes eu chamei ela pra sair?
— Todo mundo sabe que eu sou o irmão mais bonito. — eu disse, convencido.
— Nem pensar. — balançou a cabeça negativamente.
— Tudo bem ter um pouco de inveja. — brinquei.
— Vai sonhando!
— Que rota é essa? — cheguei mais perto e olhei para o mapa. — Ei, essa é a cratera onde aconteceu o acidente! O que está fazendo?
— A marinha parou as buscas, mas eu ainda quero respostas.
— Alfonso, ninguém sabe o que aconteceu, pode ser perigoso. Deixa isso pra lá, o papai já está descansando nos braços do oceano, como ele sempre quis.
— Não se preocupe, se eu achar o corpo dele não vou retirar do mar. Eu só quero saber o que aconteceu.
— Pra que?
— Pra ter paz.
— Não precisa se arriscar fazendo isso.
— Não? Então, me ajuda, Christopher. Conta o que aconteceu, você estava lá. — me encarou.
— Você sabe que eu não me lembro.
— Você não quer lembrar. Criou uma fantasia pra poder lidar com isso e não consegue tirar essas imagens da sua cabeça, não é? Ainda se lembra daquele acontecido como sendo culpa de uma sereia.
— Eu não quero falar sobre isso. — fiquei incomodado.
— A única coisa que mudou é que agora você n**a essa falsa memória, mas continua com ela na sua cabeça. Continua tão louco quanto quando o internamos. — eu não queria mostrar, mas esse tipo de comentário vindo de alguém que eu amava me deixava extremamente triste.
— Você diz como se eu tivesse culpa do que aconteceu... — mirei o chão.
— E se tiver? Afinal, você não lembra do que realmente aconteceu. — ele parecia irritado. — O papai só fez aquela expedição porque você pediu.
— Não é culpa minha. — fui firme.
— Enquanto eu não descobrir o que aconteceu, você será o principal culpado. — ele ficou de pé e dobrou o mapa, o colocando debaixo do braço. — Tenha um bom dia, Christopher.
O meu irmão conseguia ser o pior no quesito sensibilidade. Desde a infância, nós nunca fomos muito amigos. Brigávamos demais, não como irmãos brigam normalmente, simplesmente não suportávamos conviver um com o outro.
Depois que a Maitê nasceu, eu finalmente soube o que era o amor fraternal. May era a pessoa que eu mais amava no mundo e ela sim sabia como me deixar bem e confortável. Nós dois sempre fomos inseparáveis.
Indo em direção ao banheiro, passei pelo quarto de May e vi que ela tinha acabado de acordar.
— Bom dia, maninho! — ela sorriu para mim.
— Bom dia! Como dormiu?
— Como uma pedra! — riu. — Você está todo sujo de areia.
— Pois é, você não vai acreditar. A Dulce me beijou.
— Sério? — arqueou as sobrancelhas.
— Sim! Eu vou tomar café da manhã com ela agora.
— Depois de muito insistir, você conseguiu. — balançou a cabeça positivamente.
— Ainda não vou comemorar. Ela ainda me deixa muito confuso.
— Eu entendo.
— Ei, sabia que o Alfonso vai continuar a procurar o corpo do papai e dos marinheiros?
— Sabia... — desviou o olhar.
— E você não me disse nada?
— Não era pra te dizer, eu não queria envolver você nisso. Ainda não se recuperou totalmente do trauma.
— Mas é claro que o Alfonso não ia ligar nenhum pouco se isso me afetasse! — eu disse irritado. — Por que vão fazer isso?
— Eu quero saber o que aconteceu com o papai.
— E eu quero que ele descanse!
— Ele está descansando, mas nós não!
— May, seja lá o que aconteceu, deve ter sido muito horrível pra eu ter que chegar ao ponto de criar uma falsa memória, não acha?
— Não importa, eu quero saber!
— Tudo bem. Só me faz um favor e não me conta!
— Como quiser. — deu de ombros. Fui direto para o banheiro, tomei um banho e vesti minhas roupas.
Já na pensão, Dulce me esperava na entrada. Ela usava um vestido vermelho que ficava no meio das suas coxas. Ela ficava linda com esses vestidos de boneca que usava. Parecia uma mulher saída de um filme dos anos 50.
Fomos caminhando até a cafeteria e eu tentava me concentrar só nela, mas estava abalado com a minha recente conversa com meus irmãos. Dulce falava sobre como foi o começo do trabalho dela no oceanário e parecia animada enquanto detalhava a evolução da sua i********e com os animais.
Já na cafeteria, nós fizemos nossos pedidos e aguardamos. Ela me encarou, me analisando por um longo tempo.
— Tem alguma coisa no meu rosto? — perguntei.
— Tem, você está estranho demais. O que aconteceu?
— Eu tive uma conversa desagradável com o Alfonso e outra com a Maitê. — suspirei. — Alfonso vai refazer a rota que o meu pai fez no dia do acidente e a Maitê apoia isso. Eu queria que essa história fosse enterrada.
— Eles sabem o quanto isso te faz m*l?
— O Alfonso nunca ligou pro que eu sinto, mas a May... eu não sei... Ela está muito obcecada por tudo isso. Não vai sossegar enquanto não souber o que aconteceu.
— O que o seu irmão está fazendo é uma loucura. E se acontecer o mesmo? Não gosto nem de imaginar! — ela pareceu ficar nervosa. — Tem que convencê-lo a não fazer isso!
— Nada do que eu digo é válido pra ele.
— Mas vocês são irmãos. — ela segurou minha mão e ergueu o meu queixo para olhá-la. — Precisa tentar convencê-lo. — senti todos os meus músculos travarem, como se uma força maior me induzisse a prender meus olhos nela.
— Tá. — eu disse, sem pensar muito sobre aquilo.
— Espero que consiga. — ela sorriu e eu assenti, sem conseguir desviar o meu olhar do dela.
Era algum resquício da minha loucura ou Dulce realmente tinha o dom de influenciar? Eu jamais cogitaria em tentar convencer o Alfonso de algo por mais de uma vez, mas depois que ela me pediu, eu quero fazer aquilo o mais rápido possível.
— Dulce?
— Sim?
— Por que você me beijou lá na praia?
— Eu fiquei com vontade. — deu um sorriso fraco.
— Então, mudou de ideia? Vai tentar algo comigo? — me animei.
— Eu gosto de você. Acho que é uma pessoa maravilhosa e que seria incrível tentar te conhecer melhor. Mas... — ela parou de falar e uma sombra de melancolia desceu por sua face. — Eu não posso...
— Nunca vai saber se não tentar.
— Essa é a questão, Christopher. Eu já tentei. Já me apaixonei antes e foi terrível. Nunca mais quero experimentar isso de novo.
— O que aconteceu?
— Eu prefiro não falar sobre isso, ok?
— Ok. — assenti. — Não me beija mais, tá? Por favor. — fiquei sério. Dizer aquilo era difícil, mas eu não queria fazer papel de i****a. Se ela continuasse a alimentar as dúvidas na minha cabeça, eu jamais colocaria um freio em mim mesmo, porque ninguém jamais me atraiu tanto quanto ela. Parecia impossível resistir.
Dulce ficou me encarando enquanto eu olhava para os lados e batia meus dedos ansiosamente na mesa. Eu queria que o pedido chegasse logo pra gente comer e eu poder ir embora.
— Desculpe. — ela disse.
— Não tem que se desculpar por não me querer. Você não tem a obrigação de alimentar os meus desejos. — falei com sinceridade.
— Tudo o que eu queria agora era não te querer. — ficamos nos encarando por alguns segundos, em completo silêncio.
— Eu nunca vou entender você. — ri pelo nariz.
— Eu sei.
Tomamos café da manhã e falamos de outras coisas que não tivessem nenhuma relação com nós dois. Acho que eu conseguiria ser só amigo da Dulce e tentar ignorar o desejo que eu tinha de tomá-la em meus braços a todo instante.
Depois de comer, a acompanhei até o trabalho e antes de começar os meus serviços, eu fui para o cais, onde o barco onde meu irmão trabalhava ficaria.
Chegando lá, eu observei bastante correria. Os marinheiros andavam para todos os lados como se estivessem se preparando para uma grande navegação.
Alfonso estava na proa, com o mapa aberto em mãos, analisando uma bússola e rabiscando todo o papel.
— Ei, Alfonso! — o chamei.
— Ah, oi! — ele veio até mim. — Eu ia mesmo te ligar. Talvez eu fique alguns dias no mar, uma semana no máximo. Avise à Maitê.
— Não vai fazer isso, não é?
— Christopher, eu não vou mudar de ideia.
— Isso não vai trazer o papai de volta!
— Se você não é capaz de entender, eu sinto muito. — deu de ombros.
— O que você realmente quer?
— Eu acho que alguma coisa pegou aqueles homens e por sorte, essa coisa ainda está lá. Eu vou fazer uma grande pesca. — esfregou uma mão na outra, como um vilão criando um plano maléfico.
— Quer matar o suposto animal que supostamente matou todos eles? — ironizei.
— O seu terapeuta disse que tudo indica que você viu um tubarão. Afinal, uma alucinação precisa ter fundamento. É bem provável que havia um predador lá.
— E se foi um predador, que culpa ele tem de seguir seus instintos? Não pode matar um animal que não tem consciência dos seus atos, não seja i****a! — eu odiava a ideia de machucar um animal marinho sem nenhuma necessidade.
— Vá embora. — ficou sério.
— Eu vou com você. — fui firme.
— Christopher... — o interrompi.
— A que horas vocês vão sair?
— Daqui meia hora.
— Ok, é o tempo que eu vou até em casa e separo algumas coisas pra viagem.
— Tem certeza que quer voltar pra lá? — me olhou de relance.
— Eu não vou deixar você ir sozinho e quem sabe eu não te convença a deixar aquele animal, ou seja o que fez isso, em paz?
— Melhor você correr. — ele disse olhando seu relógio de pulso.
— Eu já volto.
Corri até em casa e preparei o básico na minha mochila do que eu precisaria para uma semana de viagem. Seria difícil ter que voltar ao local onde tudo aconteceu, mas por mais que Alfonso não se importasse tanto assim comigo, eu não conseguia fazer o mesmo com ele. Não queria que ele perdesse sua dignidade como capitão assassinando um animal marinho só pra se sentir um pouco melhor.