Christopher
Beijar Dulce foi uma experiência melhor do que eu imaginei que seria. Sua boca tinha um gosto doce, era macia e viciante. O que acabou com todo o clima foi sua mudança repentina, saindo de uma mulher cheia de vontade de me beijar, para alguém distante e incomodada.
Respeitei sua vontade e a levei para casa quando ela quis ir. Eu não insistiria em algo que aparentemente só eu queria.
No domingo de manhã, eu fui para a minha sessão de terapia semanal. O meu terapeuta sempre falava comigo sobre a evolução do meu trauma na semana em questão, nada além disso. Por mais que ele estivesse aberto a falar de outras coisas, eu me limitava ao problema que me trouxe até aqui.
— Como foi a semana? — ele perguntou.
— Eu acho que tive uma alucinação, mas passou rápido, eu percebi que não era real. — falei lembrando da sensação r**m ao encarar os olhos de Dulce pela primeira vez.
— Essa alucinação está relacionada com o acidente?
— Creio que sim, já que eu senti que estava me afogando.
— Podem ter sido apenas memórias recorrentes. É completamente normal. Basta continuar o tratamento com os medicamentos e tudo ficará bem. — eu assenti. — E sua relação com as pessoas ao seu redor?
— Tudo bem. Eu e meus irmãos voltamos a nos tratar como sempre. Maitê sempre muito carinhosa, Alfonso sempre muito indiferente. — dei de ombros.
— A indiferença do seu irmão não o incomoda?
— Eu já estou acostumado.
— E no trabalho?
— Estou muito feliz por ter voltado a trabalhar, eu sentia muita falta daquilo!
— Alguma diferença?
— Bem... — desviei o olhar. — Eu conheci uma garota, me interessei por ela e nós tivemos até um momento legal, mas parece que ela não está no mesmo ritmo que eu.
— Isso o incomoda muito?
— Me deixou um pouco chateado, mas eu não diria que estou incomodado. Eu acabei de conhecê-la e se eu ver que realmente não vai dar em nada, me conformo com a amizade. Ela é muito legal.
— Mesmo que as suas expectativas iniciais não estejam sendo cumpridas, é bom que você conheça novas pessoas, tenha um círculo de amizades diferente e teste coisas novas. Focar a sua mente em algo novo também pode servir para curar o seu trauma.
— Nós temos muitas coisas em comum. Amamos os animais marinhos, amamos o oceano e infelizmente ela também perdeu os pais num acidente marinho.
— Ela guarda algum trauma?
— Sim. Ela não se disponibiliza a tentar amar alguém porque tem medo de perder essa pessoa. Talvez seja por isso que ela reagiu tão m*l quando eu a beijei... — concluí.
— Christopher, você está pronto pra voltar ao mar?
— Não sei exatamente. Acho que eu teria que tentar.
— Por que não começa indo com essa garota? Talvez ela também tenha problemas com o oceano por conta da família.
— Pode ser. — lembrei de quando fui até a pensão e a vi encharcada, voltando do mar com uma expressão de quase dor em sua face.
— Tente começar o trabalho de campo amanhã.
— Ok.
Depois das últimas conclusões dele e um discurso que pareceu durar horas, eu terminei a sessão e fui direto para casa. Tirei o dia para me concentrar na minha ida para o mar no dia seguinte. Planejei uma rota simples e rápida, tinha que começar devagar.
No dia seguinte, assim que cheguei ao oceanário, avisei ao Albert que pretendia ir até o mar e pedi pra levar um ajudante junto. Ele concordou na hora e se mostrou animado com a ideia de eu tentar voltar ao meu trabalho de campo.
Escolhi uma das lanchas do oceanário e separei todo o material que eu iria levar. Depois disso, comecei a procurar Dulce pelo oceanário e a encontrei na parte de cima dos aquários, acabando de sair de um deles.
Esperei ela retirar o equipamento de mergulho. Ela me olhou e deu um sorriso tímido, que quase não apareceu. A noite do festival ainda parecia um peso entre nós.
— Dulce, eu preciso que você me ajude em uma coisa, não está muito ocupada, não é? — perguntei.
— Não. — ela tirou a parte de cima da sua roupa de mergulho, ficando de biquíni. Notei que ela usava o colar que eu havia ganhando pra ela no festival.
— Ficou muito bonito em você. — apontei para o seu pescoço e ela levou sua mão até o pingente.
— É muito bonito mesmo. — sorriu.
— Então... — cocei a nuca. — Não precisa tirar a roupa de mergulho, eu ia te chamar pra ir até o mar. Vou tentar começar o meu trabalho de campo.
— Até o mar? — ela pareceu ficar tensa. — Eu não sei se quero mergulhar no mar.
— Mas você já nadou lá, não é?
— Sim... eu tentei...
— Tem medo do mar?
— Não sabe o quanto...
— Dulce, eu estou indo até lá pra tentar me recuperar, tentar superar tudo o que eu passei. Por que não vem comigo e tenta também?
— Eu não quero nadar lá, desculpa. — pelo seu tom, nada do que eu dissesse a faria mudar de ideia.
— Não precisa nadar, você fica na lancha e me auxilia de lá. É melhor assim? — ela pareceu pensar.
— Eu não sei...
— Eu vou estar com você, nada de r**m vai acontecer. — segurei as mãos dela. — Confia em mim? — ela suspirou e assentiu com a cabeça. — Ótimo!
Nós dois fomos até o cais e eu vi ela frear ao chegarmos até onde a lancha estava atracada. Olhava constantemente para a água e mordia seu lábio inferior tão forte que eu já estava vendo a hora em que sangraria.
— Ei. — segurei seus ombros e a fiz olhar pra mim. — Vamos fazer isso juntos, tudo bem? — sua expressão de medo começou a ir embora e ela me olhou com atenção, relaxando o seu olhar. — Vem. — peguei em sua mão e a ajudei a entrar na lancha.
Dulce ficou encolhida bem no meio e não parava de olhar em volta, abraçando o seu corpo.
— Dá pra gente ir devagar? Eu não quero que a água toque em mim. — ela disse.
— Como quiser. — fui devagar o suficiente para que a água não fosse jogada em nós.
Chegamos ao ponto que eu queria e eu me preparei para mergulhar. Coloquei todo o meu equipamento e fiquei na beirada da lancha, observando a água. Alguma coisa ainda me travava e eu não conseguia parar de lembrar da última vez que estive aqui.
— Tudo bem? — Dulce perguntou.
— Isso é difícil pra mim, sabe? Também é difícil pra você.
— Christopher... — ela ficou de pé e andando devagar, ficou ao meu lado. — Seu pai amava o oceano, certo? Ele tinha muito orgulho de você por ter se tornando um biólogo marinho que se aventura no mar. Ele iria querer que você continuasse. O oceano não é seu inimigo, é o seu segundo lar. — Dulce segurou minha mão. — Mas só faça isso se estiver realmente pronto, não se pressione.
— Alguém já te disse que você é maravilhosa?
— Muita gente. — riu.
— Todas essas pessoas têm razão. — nos olhamos por alguns segundos e eu voltei a dar atenção no que estava prestes a fazer. — Ok... vamos fazer algumas pesquisas rápidas.
Ela se afastou e eu pulei dentro da água. No primeiro momento, senti um peso em meu peito, mas respirei fundo e tentei me concentrar em coisas felizes. Me concentrei no sorriso da mulher que agora me observava da lancha.
Me aprofundei e comecei a fazer coletas, fotografar alguns recifes e até apenas observar algumas espécies de peixes que passavam por mim. Eu podia fazer aquilo, pelo menos aos poucos.
Voltei para a superfície e observei Dulce com o olhar distante para o horizonte.
— Não quer tentar? — perguntei para ela.
— Não. — respondeu rápida.
— Só molha a mão. — estendi minha mão para ela.
— Eu não quero que a água toque em mim, desculpa.
— Não quer que o oceano saiba que você está aqui? — eu ri de leve, mas fiquei sério quando vi ela endurecer sua expressão. — Desculpe, não gostou do que eu disse?
— Dá pra você subir pra gente ir embora?
— Claro! — subi na lancha e ela jogou uma toalha em mim.
— Se enxuga, por favor. — voltou para o canto onde estava.
Esfreguei a toalha por todo o meu corpo e pilotei a lancha de volta para o cais. Atraquei e ajudei Dulce a sair.
— Nenhuma gota de água na sua pele! — exclamei para comemorar.
— Melhor assim. — tentou sorrir. — Coletou tudo o que precisava?
— É um começo. Eu espero poder melhorar a minha relação com o mar.
— Eu também...
— Agora é hora do almoço, não quer comer comigo? Eu conheço um lugar bem legal e... — me interrompeu.
— Eu vou ter que recusar. — ficamos em silêncio. Então, seria assim? E por que diabos eu não conseguia desistir?
— Eu beijo m*l? — foi a única coisa que saiu da minha boca. Ela riu e negou com a cabeça. — Se eu não beijo m*l, qual o problema?
— Eu não quero me apaixonar por você, esse é o problema.
— Eu sou tão r**m assim?
— Quem me dera se você fosse r**m. Você é bom demais e é por isso que é bem provável que eu me apaixone facilmente por você e acredite, você não vai querer isso.
— Por que eu não iria querer que uma mulher tão interessante e tão linda se apaixonasse por mim? — dei um passo para a frente, me aproximando.
— O que você sente não vem de você. Se eu fosse comum, você jamais me olharia assim.
— "Comum"? — franzi a testa.
— Só desiste, Christopher. A gente vai funcionar mais como amigos.
— É sério?
— Sim.
— Eu não posso fazer nada pra que você repense?
— Por favor, não faça nada. — fiquei calado. — Eu vou voltar pro oceanário, vou almoçar na cantina com o Christian. Vai voltar também?
— Eu vou comer em outro lugar, pode ir. — ela assentiu e passou por mim, evitando encostar demais.
Acabei indo almoçar em casa e não voltei mais para o oceanário. Terminei todo o meu trabalho no escritório de casa. E o tempo todo eu me pegava distraído pensando em Dulce. O que ela quis dizer quando disse que a atração que eu sentia não vinha de mim? Ela era a mulher mais interessante e mais complicada que eu já conheci, seria difícil desistir de correr atrás dela.
Dulce
Estar no mar me deixou aflita. Eu ainda não tinha me acertado com a Água e se ela soubesse que eu estava lá e tomasse consciência dos meus recentes devaneios por Christopher, eu nem queria imaginar o que Ela faria com ele.
Notei que ele não voltou ao oceanário e me perguntei se a culpa era minha. Não queria magoá-lo, mas também não podia dar qualquer tipo de esperança. Eu jamais arriscaria a vida de alguém por quem eu pudesse sentir algo.
À noite, eu fui até o mar falar finalmente com a Água. Não podia evitá-la por muito tempo e gostando ou não, ela era a coisa mais próxima de uma mãe que eu tinha.
— Aí está você! — Ela disse quando a onda roçou meus pés.
— Desculpa ter sumido.
— Ficou brava comigo? Dulce, você sabe que eu faço isso por necessidade.
— Você já me disse isso centenas de vezes ao longo desses setenta anos.
— E você ainda não foi capaz de entender! Dulce, eu salvei a sua vida ao ver como você me implorou por ela. Disse que faria qualquer coisa pra continuar viva e agora, se comporta com tanta teimosia!
— A sereia que tentou me afogar te implorou pra que Você me salvasse. Você não fez nada... — meus olhos encheram de lágrimas. — Diz que me ama, mas sinceramente, eu não sei até onde isso é amor ou interesse.
— Como pode dizer isso? — o mar se agitou, as ondas se estenderam pela areia, empurrando minhas pernas com força. — Eu deixo você se arriscar vivendo com esses humanos porque sei o quanto é importante pra você se sentir parte de uma sociedade. É um perigo pra você e para eles, mas eu deixo porque eu te amo! Me dói ver que duvida do carinho que eu sinto por você!
— Então, deixa eu me apaixonar? — uma lágrima rolou por minha face. — Por favor, me deixa ter uma história com alguém...
— Deixei uma vez, e o que aconteceu? Quase desistiu de nós! Eu jamais vou permitir isso de novo.
— Água... — Ela me interrompeu.
— Conheceu alguém? — o mar esfriou.
— Não. — dispensei qualquer pensamento que me levasse ao Christopher.
— Não me peça mais isso.
— Tudo bem... desculpe... — funguei.
— Querida, eu não quero ficar assim com você. Entre no mar, durma comigo esta noite. — senti a areia direcionar meus pés em direção ao mar. As ondas que retornavam, pareciam me puxar para dentro.
Tirei minhas roupas e mergulhei. Minha cauda surgiu e eu nadei até o fundo, sendo envolvida por um calor protetor. Fechei meus olhos e tentei apagar tudo o que havia em minha mente, me entregando a um sono profundo.