Capítulo 12

1219 Words
  Quando entrei na clínica com o capuz do moletom puxado, esperava uma visita rápida. Esperava que tudo se resolvesse ali, que a intervenção fosse imediata. Não foi.   Pela manhã, acordei ansiosa – quase aliviada – com a ideia de me "livrar" do problema. Mas cada vez que a realidade batia, a culpa afundava suas garras. Queria algo meu. Se tivesse essa criança, nunca mais estaria sozinha. Mas seria mais uma boca para alimentar. Os custos, aquela cifra assustadora de treze mil dólares por ano, pesavam na balança.   A conversa telefônica não fora suficiente. Havia outra consulta de avaliação antes de qualquer data ser marcada. A cada dia, eu me apegava mais ao ser minúsculo dentro de mim. Às vezes, tocava minha barriga ainda plana, procurando um sinal.   Entendia que o conselheiro e o médico faziam seu trabalho. Mas perguntas sobre meus motivos e o paradeiro do pai semeavam dúvidas. Seria apenas medo? Medo do dinheiro, de fazer tudo sozinha, da rejeição de Christian? A última coisa que esperava dele era que aceitasse um bebê de braços abertos. Ele gostava de crianças? Queria ser pai?   De vez em quando, o conselheiro perguntava se eu ainda tinha certeza. Provavelmente porque minha expressão mudava ao ouvir sobre procedimentos, riscos, complicações… e, acima de tudo, ao descobrir que meu seguro não cobria nada.   Não estava preparada para outro ultrassom. Prometi a mim mesma não olhar a tela. Mas não pude evitar quando um som encheu a sala – tum-tum, tum-tum, tum-tum.   Um batimento cardíaco.   Algo dentro de mim, algo que não me trairia, não me abandonaria, tinha um coração que batia.   Só percebi que chorava quando senti a lágrima quente escorrer pela bochecha. Surpreendentemente, não era de tristeza. Chorava de um alívio avassalador, de uma felicidade crua. Não me lembrava da última vez que ouvira um coração bater – nem o meu próprio. E ali estava ele, o coração do meu bebê.   Sempre que essas palavras surgiam em minha mente, tudo mudava. Um bebê de treze semanas, não planejado, tornara-se a primeira coisa em anos a me fazer chorar de alegria.   De repente, senti-me grata por aquela consulta, por não ter assinado nada. Quando o médico retirou o transdutor, quase gritei para ele voltar. Sentei-me rapidamente, cobrindo minha barriga com as mãos, num gesto instintivo de proteção.   "Foi um erro", foi tudo que consegui dizer.   Ele olhou para mim com pena. "Não seja tão dura. Talvez 'indecisa' seja uma palavra melhor…"   "Não, você não entende. Vir aqui foi um erro", retruquei, irritada, puxando o capuz novamente.   "Ah… então sem procedimento?", ele perguntou, confuso com a reviravolta.   "Com certeza não! Esqueça que eu estive aqui. Na verdade, vamos ignorar essas últimas duas horas. Assim você nem precisa me cobrar. Posso usar esse dinheiro para fraldas!", disse, um tom de euforia na voz, enquanto pulava para pegar minha bolsa.   "Hmm?" O médico tentou falar, mas as palavras falharam.   "É, eu sei. Deve estar mais preocupado comigo agora. Mas estou bem. Obrigada por tudo. E pelo ultrassom grátis! Preciso ir. Tchau!", disse, saindo rapidamente enquanto ele chamava meu nome.   Eu ia fazer isso.   Eu ia ser mãe. Vou cuidar do meu filho.   Pessoas no corredor me olhavam estranho, provavelmente achando que eu era doida, enquanto eu quase saltitava com um sorriso largo no rosto. Pela primeira vez desde o teste positivo, conseguia sorrir de verdade. E tudo por causa de um batimento cardíaco. Aquele ultrassom foi diferente do primeiro.   Finalmente livre. O pensamento veio quando saí da clínica. Caminhei até o estacionamento, já pensando em empregos estáveis para o bebê que estava a caminho. Mas, ao me aproximar do carro, uma mão pesou em meu ombro.   Girei rapidamente. "M-Marc?"   Diferente da primeira vez, ele não parecia amigável. Seu olhar era investigativo. "Esquilo. Me conta a verdade. Você fez o aborto?", perguntou, segurando meus ombros.   Empurrei-o levemente e dei um passo para trás, encostando no carro. "N-não. Não vou fazer. Mas espera… o que você está fazendo aqui?"   Sabia que Marc era o guarda-costas de Christian. O medo gelou meu sangue. Christian sabia? Mandou ele me vigiar?   "O Christian te mandou? Ele sabe que—", comecei, mas parei no meio quando os olhos de Marc se arregalaram. Eu mesma tinha me entregado.   "Espera. Você está esperando um filho do Christian?", ele perguntou, a voz carregada de desespero. Fiquei paralisada. "Você planejava abortar e não ia contar pra ele?", ele pressionou, confirmando sua suspeita.   O medo de que ele reportasse a Christian me deixou muda.   "Esquilo, estou te fazendo uma pergunta. Você não ia contar pra ele?", ele insistiu, e desta vez havia decepção em seu tom. A vergonha queimou meu rosto.   "O que você está fazendo aqui?", repeti, desviando.   "O que eu estou fazendo? O Christian me pediu pra ficar de olho em você até você melhorar. Mas, caramba, eu não esperava por isso."   Minha cabeça girou. Christian pediu para ele cuidar de mim? Ele sabia? Invadiu minha casa para ver o teste? Não… ele era da máfia, não um mágico.   "O Lucio mandou ele cuidar de você", Marc explicou, como se lesse meu pensamento. "Como você soube que era do Christian?"   "Eu não sabia. Você que me contou quando perguntou se ele tinha me mandado", murmurou ele.   Por que eu tenho que ser tão ingênua?   "Então… você vai contar pra ele?", perguntei, encarando a realidade.   Marc apenas me olhou, confuso. "Eu pareço um fofoqueiro de gravidez pra você? Por que eu contaria?"   "Então… você acha que eu devia sumir do trabalho e lidar com isso sozinha?", minha voz falhou.   "Olha, Esquilo. Geralmente acho que homens devem ficar fora dos assuntos das mulheres. Mas dessa vez… você precisa contar pra ele."   Balancei a cabeça imediatamente. "Não vou. E concordo plenamente: homens fora. Então vamos fingir que a clínica era uma loja de donuts. Você pode reportar isso pra ele." Virei-me para abrir o carro.   Marc segurou meu braço. "Se é por medo, pode parar. Eu conheço o Christian. Ele faria tudo para te ajudar, e—"   "Você não sabe disso!", retruquei, a emoção transbordando.   Cuidar de mim como funcionária era uma coisa. Assumir a paternidade era outra totalmente diferente. Eu não procurava rejeição.   "Eu sei. Conheço ele há muito mais tempo que você. Sei que ele faria tudo ao seu alcance. É assim que ele é. Não sei o que você ouviu, mas não é verdade. Ele não é esse monstro sem coração que come criancinhas que você tá imaginando!"   Apenas uma palavra grudou em minha mente no meio do discurso. "Espera… você também assiste anime?", perguntei, involuntariamente.   Seus olhos brilharam por uma fração de segundo antes que ele piscasse e balançasse a cabeça, exasperado. "Isso não é o ponto agora! O ponto é que você deve a verdade a ele!"   "Ah, certo…", murmurei, voltando à realidade. Odiando admitir, ele tinha razão. Contando ou não, eu não tinha nada a perder – e talvez algo a ganhar. Não esperava ajuda, mas talvez estivesse julgando Christian m*l. Marc o conhecia melhor. Independente da reação, eu devia a ele a verdade.   "Vou contar pra ele. Amanhã", declarei.   Um sorriso largo abriu-se no rosto de Marc, até que ele notou meu olhar severo.   "Mas se ele me disser para abortar", continuei, a voz baixa e séria, "eu te prometo que você não vai ver os portões do paraíso."
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD