Soraia
O carro anda, e o silêncio dentro dele é mais pesado do que qualquer porrada que eu já tomei. Cada segundo que passa, a notícia queima a minha língua. Eu olho pro Lobo, pro perfil dele, duro, fechado pro mundo. Ele tá a um milímetro de mim, mas parece que tá do outro lado de um abismo.
Eu não aguento.
Não dá pra chegar em casa com isso dentro de mim. A casa do Tito não é lugar pra uma revelação dessas. Aquilo é um cemitério de segredos, e esse aqui é grande demais pra ser enterrado lá.
— Para o carro — a voz sai de mim, mais firme do que eu esperava.
Ele vira o rosto, rápido, um estranhamento nos olhos.
— O quê?
— Para o carro, Lobo. Por favor.
Ele não questiona de novo. Dá uma olhada no retrovisor e puxa o carro pro acostamento, perto de uma pracinha vazia.
Desliga o motor.
O silêncio volta, mas agora é diferente.
É expectativa.
Eu abro a porta e saio. Minhas pernas tremem, mas eu ando. Atravesso a calçada e entro na pracinha, me sento num banco de madeira meio podre. Fico olhando pros pés, tentando juntar coragem. Ouço a porta do carro abrir e fechar. Os passos dele se aproximam, devagar. Ele para na minha frente, não senta.
— Tá tudo bem? — a voz dele é mais suave do que eu ouvia há tempos, mas ainda cautelosa. — Tá sentindo alguma coisa? Passou m*l no médico?
Eu levanto os olhos e encaro ele.
O sol bate de lado, iluminando metade do rosto dele. Vejo a preocupação genuína ali, por trás de toda a dor e da frieza. É agora ou nunca.
Respiro fundo, o ar saindo tremulo.
— Estou grávida.
As duas palavras ecoam na pracinha vazia. Elas saem de mim e ficam pairando no ar entre a gente, pesadas, enormes.
O rosto do Lobo congela.
Por uma fração de segundo, é como se ele não tivesse entendido. Os olhos dele se arregalam, a mandíbula fica levemente aberta.
Ele para de respirar.
Eu me preparo para o pior. Para a rejeição, para o nojo, para ele virar e ir embora.
Mas então, acontece algo que eu nunca, em um milhão de anos, teria imaginado.
Os olhos dele enchem de lágrimas.
Não é uma lágrima de tristeza.
É... de alívio.
De uma emoção tão forte que transborda. Ele dá um passo pra frente, e antes que eu possa dizer qualquer coisa, ele me puxa do banco num abraço. Um abraço tão forte, tão apertado, que quase tira meu fôlego. Sinto o coração dele batendo descompassado contra o meu.
— Meu Deus... — ele sussurra, a voz embargada, falando no meu ouvido. — Meu Deus, Soraia.
Ele se solta do abraço, mas segura meus ombros, olhando pra mim como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo. E então, ele se ajoelha. Ali, na terra da pracinha, na frente de todo mundo que pudesse passar, ele se ajoelha na minha frente.
Ele levanta minha blusa, bem pouquinho, só o suficiente para expor a pele lisa da minha barriga, onde aquela vida minúscula está crescendo. Ele inclina a cabeça e pressiona os lábios quentes contra minha pele, num beijo tão terno, tão cheio de reverência, que as minhas próprias lágrimas começam a escorrer.
— Meu filho — a voz dele é um choque baixo, cheia de um amor que eu nem sabia que ele era capaz de sentir. — Papai já te ama. Juro. Papai proteger você e sua mãe. Juro.
Eu fico paralisada, olhando para aquele homem durão, aquele segurança, ajoelhado na minha frente, chorando e beijando minha barriga como se fosse um milagre. É a cena mais linda e mais dolorosa que eu já vi. Porque no meio daquele amor todo, a dúvida ainda está lá, fincada no meu peito como uma farpa.
— Lobo... — eu gaguejo, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. — Como... como você tem tanta certeza de que é seu?
Ele levanta o rosto, os olhos vermelhos mas luminosos. Ele se levanta, se senta no banco me puxando pro seu lado e segura minhas mãos, que estão geladas e trêmulas.
— Eu encontrei um exame — ele diz, a voz firme agora, os olhos fixos nos meus. — No escritório dele, esses dias. Um exame médico. Era do Tito.
Ele faz uma pausa, e eu seguro a respiração.
— Ele é estéril, Soraia. — as palavras saem claras, cortantes. — O exame dizia que ele é estéril. Não pode ter filhos.
O mundo para.
Estéril.
Tito é estéril.
A farpa é arrancada. A dúvida monstruosa que estava me devorando por dentro some, e no lugar... no lugar fica um alívio tão grande, tão avassalador, que é quase um novo susto.
É dele. O bebê é do Lobo. É nosso.
Um soluço que eu não sabia que estava segurando escapa da minha garganta. Eu me jogo nos braços dele de novo, e agora sou eu que choro, de alívio, de medo, de uma felicidade doida e aterrorizada.
— É seu — eu sussurro, soterrada no ombro dele. — É seu, Lobo!
— Eu sei — ele sussurra, me apertando contra ele. — Eu sei, gata. É nosso.
Ficamos abraçados ali, na pracinha, por um tempo que não dá pra medir. Dois perdidos no meio do inferno, achando um pedaço de céu no lugar mais improvável. O filho que a gente fez no meio do desejo, da culpa e da dor, é a única coisa pura nessa bagunça toda.
Mas então, a realidade, sempre filha da p**a, volta a bater.
— E agora? — eu pergunto, a voz ainda embargada. — O Tito... se ele descobrir...
O abraço do Lobo fica mais forte, mais protetor.
— Ele não vai descobrir. Não agora. — a voz dele é baixa, mas cheia de uma determinação feroz. — Eu jurei que ia proteger vocês. E eu vou. A gente vai sair daqui. Os quatro.
Os quatro. Ele, o Miguel, eu e o nosso bebê. A família que a gente criou sem querer, no meio do caos.
A gente fica mais um pouco sentado, em silêncio agora, mas um silêncio diferente. Não é mais pesado. É cheio de promessas não ditas, de um futuro que de repente parece possível. Ele passa a mão na minha barriga de novo, com um cuidado que me faz querer chorar de novo.
Mas o medo não foi embora.
Só deu uma trégua. Porque a gente sabe que a parte mais difícil ainda tá por vir. Contar pro Tito sendo que ele é estéril? Nunca. Mas esconder uma gravidez dele? Dentro da casa dele? É uma missão quase impossível.
A gente se levanta e volta pro carro. Dessa vez, quando ele liga o motor, o clima é outro. Ele coloca a mão na minha perna, um toque rápido, mas que diz tudo. Estamos juntos nessa.
Eu olho pela janela, a mão no ventre. O alívio ainda é maior que o medo, mas os dois tão brigando dentro de mim. A gente tem um segredo agora. Um segredo lindo e perigoso. E o preço pra guardar esse segredo pode ser a nossa vida.
ADICIONE NA BIBLIOTECA
COMENTE
VOTE NO BILHETE LUNAR
INSTA: @crisfer_autora