Lobo
O dia seguinte à saída do Tito foi um dos mais longos da minha vida. A casa, trancada por fora, virou um mundo à parte, um barco à deriva num mar de silêncio e tensão. O recado do vapô ecoa na minha cabeça:
"Confie no Lobo."
O que diabos o Tito quis dizer com isso? Foi um reconhecimento? Uma admissão velada de que ele sabe que eu sou o único capaz de proteger o que é dele? Ou é a peça final de um jogo doentio que eu ainda não entendi?
O Miguel sente a mudança. Criança é como animal, percebe o clima. Ele veio até mim na sala, onde eu tava olhando pela fresta da janela, tentando enxergar alguma movimentação lá fora.
— Pai? — a voz dele, pequena e séria.
— E aí, campeão? — respondo, me virando e me forçando a relaxar a postura.
— Por que a gente não pode sair? Por que eu não fui pra escola? — os olhos dele, tão parecidos com os meus, me encaram cheios de uma confusão genuína.
A pergunta me acerta em cheio no peito, com a força de um soco. p***a. Como explicar para uma criança que o mundo lá fora virou um campo de batalha, que o homem que ela acha que é o pai pode ser um alvo, e que a gente tá trancado aqui pra não ser pego no fogo cruzado? Como dizer que a infância dele, que já era uma merda, agora tá sendo soterrada de vez por um monte de segredo e medo de adulto?
Eu me ajoelho na frente dele, ficando no nível dos seus olhos.
— É... tá tendo umas confusões lá fora, Miguel. Coisa de gente grande. É melhor a gente ficar aqui dentro por um tempo, onde é seguro.
A expressão dele não se convence. Ele vira o rosto, olhando pra janela com uma saudade que dói de ver.
— Eu queria brincar lá fora.
Essa frase simples, cheia de um desejo tão puro, me esmaga por dentro. Eu tô destruindo a infância do meu próprio filho. Tô trocando os risos e as brincadeiras por grades invisíveis e medo. Tudo para mantê-lo vivo. E tudo para manter viva a esperança, cada vez mais fraca, de encontrar a Joana. O peso dessa escolha é uma âncora presa no meu pescoço, me puxando pro fundo.
Nada, nada na minha vida de soldado, nas missões mais perigosas, me preparou para a dor de ver o medo nos olhos do meu filho. Um medo que ele nem entende direito, mas que já é parte dele. É um veneno lento, e eu sou o responsável por administrar a dose.
A Soraia tá pior ainda. Ela m*l consegue se manter em pé. O estresse, o medo constante, a gravidez... tudo tá pesando nela. Ela anda pela casa como um fantasma, pálida, as mãos sempre buscando apoio nas paredes. Eu tento manter ela calma, mas é como tentar segurar a água com as mãos.
— Ele não voltou, Lobo — ela sussurra pra mim, na cozinha, enquanto tenta tomar um gole de água. A mão dela treme tanto que um pouco derrama. — O que será que aconteceu? E se... e se o Centauro...?
— Não pensa nisso — corto, mas a mesma dúvida me corrói por dentro. O que será que rolou naquele encontro? Ele tá vivo? E a Joana? O "acordo quebrado" era sobre ela?
— Eu não aguento mais — a voz dela sai quebrada, as lágrimas começando a escorrer. — É como se a gente tivesse esperando o próprio funeral. Eu sinto... sinto que algo muito r**m vai acontecer.
Ela leva a mão à testa, os olhos se fecham.
— Tô ficando tonta...
Antes que eu possa reagir, as pernas dela cedem. Eu a seguro num pulo, o corpo dela mole e leve nos meus braços. Ela desmaiou. O susto me dá um calafrio. Levo ela pro sofá, deitando ela com cuidado, chamando o nome dela baixo.
— Soraia? Soraia, me ouve?
Ela geme, os olhos se abrem, vidrados, sem foco. O desmaio foi rápido, mas o terror que ele causa é profundo. Ela tá no limite. A gente tá no limite.
Fico ao lado dela, segurando a mão gelada, sentindo a impotência me consumir. Eu jurei proteger ela, proteger nosso filho, e aqui estou, incapaz de fazer qualquer coisa além de esperar. Esperar por um veredicto de um homem que pode já estar morto.
A noite chega, trazendo consigo uma escuridão mais densa, mais ameaçadora. É no crepúsculo, quando a luz já tá quase sumindo, que a gente ouve. O ronco de um carro. Diferente. Mais abafado. Ele para do lado de fora do portão.
Todos nós congelamos. O Miguel se encolhe no sofá, perto da mãe. Soraia segura a respiração, os olhos arregalados.
Os passos se aproximam do portão. Uma chave gira na fechadura. A porta se abre.
É o Tito.
Mas não é o Tito de sempre. Ele entra e fecha a porta atrás de si, e a primeira coisa que eu noto são os olhos. Eles estão... diferentes. A fúria habitual deu lugar a algo mais profundo, mais assustador. É um olhar de exaustão total, de um homem que viu o abismo e quase caiu dentro. E ele está sujo, com a roupa manchada de terra, e há um corte raso no rosto, sangrando ainda.
Ele não diz uma palavra. Ele olha pra mim, e o olhar dele... p***a, não é de raiva, não é de desafio. É de... avaliação. Como se ele estivesse me vendo pela primeira vez. É um olhar pesado, carregado de um significado que eu não consigo decifrar.
Ele ignora a Soraia, que tá pálida no sofá, e ignora o Miguel. Ele simplesmente atravessa a sala e vai direto para um quarto vazio, aquele que só tem um colchão velho no chão, que a gente usa pra guardar tranqueira. Ele entra e fecha a porta atrás de si.
Ficamos os três na sala, em silêncio, ouvindo o nada. O que caralhos aconteceu com ele? Por que ele tá assim? E por que ele me olhou daquele jeito?
A única coisa que eu sei é que o Tito voltou diferente. E um homem diferente é um perigo imprevisível. A tempestade não passou. Ela só mudou de direção. E agora, ela tá aqui dentro, trancada num quarto vazio, e eu não faço ideia do que vai sair de lá quando aquela porta se abrir.
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