Soraia
Acordei com o sol batendo na janela e um silêncio estranho. Um silêncio que não era só falta de barulho, era uma falta de presença. Saí do quarto devagar, sentindo o peso do mundo nas costas, e foi aí que eu percebi: a casa tava vazia. Vazia daquela energia pesada e opressora do Tito.
Ele tinha saído.
A cadeira da varanda, onde ele passou a noite toda vigiando com o fuzil, tava vazia. A xícara de café dele, que ele sempre deixa pela metade na pia, não tava lá. O ronco do carro dele não ecoou pela manhã.
Uma sensação gelada correu por dentro de mim. Não era alívio. Era um medo diferente, mais profundo. É aquele negócio, né? Às vezes, o perigo que a gente conhece pesa menos que o perigo que a gente não conhece. E a ausência dele, naquele momento, pesava mais que toda a violência dele junta. O morro inteiro parecia ter parado, segurando a respiração, prestes a desabar.
Encontrei o Lobo na cozinha. Ele tava parado na janela, olhando pro portão, a postura dele mais tensa do que o normal.
— Ele saiu cedo hoje. — falei, e minha voz saiu um sussurro rouco.
Ele se virou, e nos olhos dele eu vi a mesma confusão que tava sentindo.
— Foi. Deve ter ido encontrar o Centauro.
— Mas ele não te levou? — perguntei, lembrando do aviso, de que ele ia levar o Lobo pra "resolver um problema".
O Lobo balançou a cabeça, um misto de alívio e frustração no rosto.
— Não. E eu... — ele hesitou, olhando pra mim como se eu fosse quebrar — ...eu tinha esperança de que ele me levasse. Pra eu finalmente ter alguma resposta sobre a Joana.
O nome dela caiu entre a gente como uma pedra. Joana. A mulher dele. A mulher que o Tito sequestrou. A mesma mulher que o Centauro, segundo os comentários que o Lobo andava juntando, tinha trancado em casa, e agora batia nela. A história era tão parecida que dava um nó no cérebro.
Será que era a mesma pessoa?
Como duas mulheres diferentes iam cair em situações tão iguais. Não fechava. Nada nessa casa fecha, tudo é um quebra-cabeça com peças de caixas diferentes.
— Toda essa história... — eu comecei, tentando juntar os pedaços na minha cabeça. — Parece que gira em volta dela. Da Joana. Não entendo o Centauro querer uma mulher grávida de outro, muito entranho, né?
O Lobo não respondeu.
Ele só ficou me olhando, e eu vi a dor e a incerteza nos olhos dele.
Ele ama essa mulher.
E ao mesmo tempo, ele tá aqui, comigo, grávida do filho dele. E a gente não sabe se ela tá viva, se sofre, se o Tito fez algo com ela, ou se o Centauro tem ela. É uma confusão do c*****o, e no meio disso tudo, a gente é refém de um segredo que nem é nosso.
O dia foi passando, e cada minuto era uma agonia. O silêncio na casa era pesado, carregado. Dava pra sentir a morte no ar, uma espera angustiante por uma notícia que a gente sabia que ia ser r**m, de um jeito ou de outro. Se o Tito voltasse, o perigo voltava com ele. Se ele não voltasse... o que seria de nós? O Centauro viria atrás do que ele queria? E o que ele queria, exatamente?
Fiquei andando de um cômodo a outro, sem conseguir parar. O Miguel tava quieto, sentado no sofá, como se também sentisse o clima. Ele me olhava de vez em quando, com aqueles olhos sérios, e eu me perguntava quanto essa criança já entendia do inferno que a gente vivia.
Foi no fim da tarde que a porta da frente se abriu. Meu coração deu um pulo. Não era o Tito. Era um dos vapôs, o Dedé, aquele mais quieto. Ele entrou rapidão, olhou em volta e veio direto pra mim.
— Dona Soraia — ele falou, a voz baixa e urgente. — O chefe mandou um recado. É pra senhora se trancar. Não abre pra ninguém. E... — ele fez uma pausa, olhando pro Lobo, que tinha aparecido na porta da cozinha — ...o chefe mandou a senhora confiar no Lobo.
Ele falou e saiu tão rápido quanto entrou, fechando a porta atrás de si. Eu ouvi o barulho da fechadura girando por fora. A gente tava trancado de novo.
Fiquei paralisada, olhando pra porta, as palavras do Dedé ecoando na minha cabeça. Confiar no Lobo.
O que isso significava? Por que o Tito diria uma coisa dessa? Era um teste? Uma armadilha? Ou ele, no meio da loucura dele, realmente acreditava que o Lobo era a única proteção que me restava?
Virei pra olhar pro Lobo.
Ele tava com a expressão séria, os olhos fixos na porta como se pudesse ver através dela. Ele também não entendia. Mas uma coisa era clara: o perigo lá fora era real, e iminente. E o Tito, por mais filho da p**a que fosse, tinha me jogado nos braços do único homem que eu realmente confiava nesse inferno.
Agora, a gente tava trancado aqui dentro, juntos, com uma tempestade se formando lá fora, e a única direção que a gente tinha era um pedido de um homem que pode muito bem já estar morto: confiar um no outro. E torcer pra que essa confiança fosse suficiente pra sobreviver ao que quer que estivesse vindo.
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