Vigília Forçada

1101 Words
Lobo A noite caiu pesada, igual a um cobertor molhado em cima de todo mundo. O Tito não dormiu. Ele tá na varanda desde que escureceu, encostado na parede, com o fuzil no colo. Não é uma pose de quem tá relaxando, não. É uma postura de vigia, de soldado na trincheira. Os olhos dele tão fixos no escuro lá fora, scanneando cada sombra, cada movimento. Ele tá esperando alguma coisa. Ou alguém. Eu fico de longe, na sala, observando ele pela janela aberta. A pergunta que não sai da minha cabeça: esse homem é uma ameaça pra gente, ou é a nossa proteção? Por um lado, ele é o carcereiro. É o cara que tá nos trancando aqui, que bate na Soraia, que roubou meu filho. Por outro, o desespero dele é genuíno. O medo no olho dele quando ele sussurrou pro Miguel "não vou deixar ele pegar você" não era fingimento. Ele tá com medo de algo maior, algo que nem eu consigo enxergar direito. E nessa loucura toda, ele é a única barreira entre a gente e o tal "ele". Mas essa barreira tá cheia de cracks. A Soraia tá me pressionando, e eu não posso culpar ela. Ela veio me encontrar mais cedo, no mesmo canto da lavanderia, os olhos vermelhos de noites m*l dormidas e de um pânico que tá corroendo ela por dentro. — Ele não dorme, Lobo — ela sussurrou, a voz trêmula. — E eu não consigo fechar os olho. Toda vez que ele vem pro quarto, eu fico dura. Tenho medo que ele queira... que ele me force. E se ele fizer alguma coisa... se ele me bater... — ela não terminou, mas a mão dela foi direto pra barriga, num gesto de proteção instintivo que partiu meu coração. O olhar dela era uma súplica. Uma coisa brutal, desesperada. Ela não tá mais pedindo, tá implorando. Ela vê a mesma coisa que eu: o Tito tá uma verdadeira bomba prestes a estourar. E quando estourar, quem vai estar no caminho é ela. E o nosso bebê. — Eu sei — foi tudo que consegui dizer, a voz saindo rouca. — Eu tô vendo. Mas, Soraia, olha lá fora. Apontei discretamente pela fresta da janela. Dois vapôs na frente, outros dois circulando a casa. Câmeras que o Tito mandou instalar às pressas. O morro inteiro virou uma fortaleza, e a gente tá no centro dela. Fugir agora não é só arriscado, é praticamente uma sentença de morte. A gente não chega a dez metros do muro. — Então a gente vai ficar aqui esperando ele surtar de vez e matar nós todos? — a voz dela saiu num fio, cheia de uma raiva impotente. Eu não tive resposta. Porque no fundo, é isso que a gente tá fazendo. Esperando. E não sei o que é pior: o que a gente sabe que o Tito é capaz, ou o que a gente não sabe que tá vindo de fora. O silêncio na casa é o pior de tudo. Não é um silêncio de paz. É um silêncio que grita. Grita o medo da Soraia, a confusão do Miguel, a paranoia do Tito e a minha própria impotência. Cada segundo que passa, o peso fica mais insuportável. E o Tito... o Tito é a fonte de tudo. Ele não fala, não se mexe daquele lugar. Só fica lá, vigiando. É como se ele soubesse de um segredo mortal, um segredo que só ele conhece, e que tá prestes a cair em cima de todo mundo. O medo que eu sentia antes, de ser descoberto por ele, agora se transformou em outra coisa. É a certeza de que o Tito tá jogando um jogo muito maior, e a gente é só peça no tabuleiro dele. Ele sabe de algo. Algo que deixou aquele homem, que não tem medo de p***a nenhuma, trancado na própria casa com um fuzil no colo. Fico rodando pela casa, fingindo que tô fazendo minha ronda, mas na real, tô é tentando juntar os pedaços quebrados desse quebra-cabeça doido. O Centauro. A recusa do Tito em "matar criança". O medo dele de alguém "pegar" o Miguel. A mulher grávida do Centauro que veio de fora... Tudo se conecta de um jeito que eu não consigo ver direito, mas que forma uma imagem sombria pra c*****o. É nesse momento, enquanto eu passo pela varanda, fingindo ajustar a câmera perto da porta dos fundos, que o rádio na cintura do Tito chia. A voz que sai é a do Jacaré, e ela tá carregada de uma urgência que faz o Tito se endireitar na cadeira na mesma hora. — Chefe... — a voz do Jacaré corta o estático. — O Centauro mandou um vapor aqui no QG, disse que quer falar contigo... urgente. O ar para. O Tito não se mexe por um segundo. Ele olha pra tela do rádio, e eu vejo os músculos da mandíbula dele contraindo. Ele levanta o rádio devagar, como se fosse uma cobra prestes a atacar. — Fala. — a voz do Tito sai seca, sem emoção, mas eu sinto a tensão rolando dele como uma onda de calor. O silêncio no rádio é mais assustador que qualquer gritaria. E então, a resposta do Jacaré vem, e ela congela o meu sangue nas veias. — Ele não quer falar por rádio, chefe. Ele mandou o recado. Quer te ver. Pessoalmente. Amanhã, no ponto neutro. Disse que é sobre... — a voz do Jacaré baixa, como se ele mesmo tivesse com medo de dizer — ...sobre o acordo quebrado. Sobre a mulher e a criança. O mundo desaba em câmera lenta. A mulher. Joana. Tem que ser. O Tito desliga o rádio com um estalo seco. Ele não olha pra trás, não olha pra mim. Ele só fica ali, imóvel, olhando pro escuro de novo. Mas a postura dele mudou. Antes era vigilância. Agora é resignação. É o olhar de um homem que sabe que a hora dele chegou. E eu, aqui, parado no escuro, percebo uma coisa: amanhã, quando o Tito for encontrar o Centauro, ele vai me levar. E nesse encontro, sobre a "mulher" e o "acordo quebrado", todas as cartas vão ser colocadas na mesa. E eu, o Lobo, o segurança, o pai, o amante... eu vou estar lá. No olho do furacão. E talvez, só talvez, eu finalmente descubra o que aconteceu com a minha Joana. Mas o preço pra descobrir... o preço pode ser a vida de todo mundo que eu tô tentando proteger. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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