Soraia
Acordei com o estômago embrulhado. Não foi o enjoo comum, não. Foi uma coisa mais funda, um nó de ansiedade que já veio pronto, apertando minha garganta antes mesmo de eu abrir os olhos.
A noite foi longa.
Fiquei ouvindo cada barulho, cada passo do lado de fora do meu quarto. A casa, que já era uma prisão, agora parece um bunker. Um bunker abafado, onde o ar pesa uma tonelada.
Desço pra cozinha, tentando parecer normal, mas minhas pernas estão moles. O Tito já tá lá, tomando café.
Ele não me olha.
Tá vidrado no nada, a xícara tremendo levemente na mão dele. É isso que me assusta mais. O Tito é muitas coisas – violento, controlador, um monstro – mas ele sempre foi firme. Agora, ele parece... frágil. Como se qualquer vento mais forte fosse derrubar ele. E um homem desses, quando se sente encurralado, é capaz de qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo.
Meu instinto grita.
Ele tá no limite.
E eu, grávida, sou o alvo mais fácil. Um empurrão, uma pancada mais forte... meu Deus, eu não posso perder esse bebê. Não depois de tudo. A mão vai instintivamente pro ventre, um gesto que já virou costume, uma tentativa desesperada de proteger essa vida minúscula que m*l começou.
— Você tá bem? — Tito pergunta me olhando com curiosidade.
— Tô, tô sim. — respondo no automático.
— Tá com a mão na barriga, tá sentindo dor? Ainda não melhorou do m*l estar? — ele parece realmente preocupado comigo.
— Eu estou com fome Tito, só isso. Meu estômago tá roncando. — Minto, disfarçando pra ele não perceber nada.
Me sirvo de leite com ceral e depois ainda faço ovos mexidos, na verdade eu nem menti pra ele, pois eu estava realmente faminta.
Encontro o Lobo no corredor, quando o Tito some pro QG. Ele tá com a mesma cara de preocupação que a minha deve ter. Puxo ele pra dentro da lavanderia, o único lugar que parece um pouco mais longe dos ouvidos curiosos.
— Você viu ele? — pergunto, em voz baixa e urgente. — O Tito. Ele tá totalmente fora de controle.
O Lobo faz que sim com a cabeça, os olhos escaneando o corredor vazio.
— Tá mesmo. E com medo. É a pior combinação que poderíamos ter nesse momento. — Ele acaricia a minha barriga com ternura.
— Eu tenho medo que ele me bata, Lobo. De verdade. E se... se eu perder o nosso bebê? — a minha voz falha, e os meus olhos enchem d’água na mesma hora.
É um terror tão real, tão físico, que dói.
Ele segura meus braços, firme.
— Isso não vai acontecer.
— Como você pode ter tanta certeza? — revido, o desespero tornando a voz mais aguda. — Ele tá imprevisível! Precisamos fugir. Agora. Hoje. Não dá mais pra esperar!
O rosto do Lobo fica tenso. Ele solta um suspiro profundo, de frustração.
— Soraia, é impossível. O morro tá blindado. Tem homem pra todo lado, tranca nova nas portas. — Lobo segura meu rosto com as duas mãos me fazendo encarar ele. — A gente não sai daqui sem passar por cima de meia dúzia de caras armados. É suicídio.
— E ficar aqui não é? — retruco, a voz saindo num sussurro cheio de raiva. — Ficar aqui é esperar a bomba estourar na nossa cara! Ele tá com medo de alguma coisa, Lobo! E quando ele tem medo, ele descarrega em mim! Você sabe disso! Você já viu isso!
A discussão esquenta.
Nossos sussurros se tornam mais ásperos, cortantes. Eu tô desesperada, e ele tá preso na lógica de soldado dele, calculando riscos, vendo apenas as barreiras físicas. Ele não tá vendo o perigo que tá dentro de casa, que dorme do meu lado e acorda com os olhos escuros de pânico.
— Eu não posso arriscar você, o bebê e o Miguel num tiroteio! — ele diz, a voz contida, mas cheia de uma angústia que eu também sinto.
— E eu não posso arriscar esse bebê nas mãos dele! Ele vai querer sexo comigo Lobo, e eu não vou querer, aí já viu, ele vai me bater como sempre faz e me forçar. Antes eu não me importava, mas agora, com o bebê crescendo aqui dentro de mim, eu não posso deixar isso acontecer! — Esbravejo baixo, as lágrimas escorrendo.
É nesse momento que eu vejo.
Uma sombra pequena no corredor.
É o Miguel.
Ele tá parado ali, de pijama, os olhos arregalados, ouvindo tudo. A cara dele é um misto de confusão e medo. Ele ouviu a gente discutindo, ouviu a minha voz cheia de pânico.
Meu coração dá um salto.
Porra.
Expusemos ele.
Expusemos tudo.
O Lobo também vê. Ele se afasta de mim, recompondo a postura num segundo, mas o estrago tá feito.
— O que foi, Evandro? Tá com fome? — pergunto, tentando forçar uma calma que não existe dentro de mim.
Ele não responde.
Só fica me olhando, e depois olha pro Lobo, com aquela expressão inteligente que vai além da idade dele. Ele vira e volta pro quarto dele, sem falar uma palavra.
O silêncio que fica é pior que a discussão. A gente se olha, e eu vejo no rosto do Lobo a mesma culpa e o mesmo desespero que eu tô sentindo. Vivendo aqui virou uma tortura lenta.
Cada minuto é uma agonia.
O medo é um companheiro constante, um gosto amargo na boca. A calma que eu tentava manter, por mais frágil que fosse, tá se esfarelando. A pressão tá quebrando tudo.
Olho pra ele, as lágrimas escorrendo silenciosamente. O desespero fala mais alto.
— Se a gente esperar mais... — minha voz é um fio, trêmula, carregada de um cansaço que vai até a alma — ...talvez não dê tempo, Lobo. O Tito vai descobrir a minha gravidez. E aí vai ser o fim de tudo... vai ser o fim de nós
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