Proteção ou Prisão?

1216 Words
Lobo O carro para na frente de casa e a sensação é de voltar pra cela depois de um dia de trabalho forçado. A gente desce, e o Tito já tá dando ordens antes mesmo de fechar a porta, sua voz um misto de autoridade e um desespero contido que eu nunca tinha visto nele. — Tranca tudo! Imediatamente! Jacaré, bota mais dois homens aqui na frente, dois nos fundos, e quero um de plantão na garagem. Amanhã cedo, primeiro horário, eu quero tranca nova em todas as portas, as mais fodas que tiver no mercado! — ele grita, e os vapôs se espalham como formigas, obedecendo na hora. Em minutos, a casa, que já era uma prisão, vira uma fortaleza. Ouço o barulho das fechaduras sendo giradas com força, as correntes sendo postas, os passos pesados dos homens assumindo seus postos do lado de fora. Cada clique, cada passo, é um prego no caixão do meu plano de fuga. Mais um dia que não vai dar certo. A ansiedade sobe pela minha espinha como um suor frio e persistente. Eu olho pelas janelas, vejo os vultos dos homens armados circulando a casa, e sinto a liberdade, aquela coisa que já era tão frágil, se esvaindo completamente. O Tito se vira pra mim, seus olhos ainda escuros da discussão com o Centauro, a respiração ainda um pouco ofegante. Ele me encara, e pela primeira vez, eu vejo algo além de ódio ou posse no olhar dele: vejo medo. Medo real. — É pro bem de todos aqui, Lobo. Você não tá vendo a merda que tá fora, a guerra que pode estourar a qualquer momento — ele diz, e a voz dele tem um tom quase de justificativa, como se ele precisasse que eu entendesse, que eu concordasse. Pro bem de todos. A maior mentira que esse filho da p**a já contou. Isso não é proteção, é puro e simples controle. É o medo dele de perder o que ele acha que é seu se materializando em grades invisíveis. E eu tô aqui, obrigado a assistir, impotente, cada janela, cada porta, sendo selada, e com elas, as últimas chances da gente sumir em silêncio, sem alarde, sem tiros. — Lobo — ele fala, colocando a mão pesada no meu ombro, um gesto que deveria ser de camaradagem, de confiança, mas que só faz meus músculos ficarem tensos. — Você é meus olhos dentro dessa casa. Seu dever, sua única função agora, é proteger o Evandro e a Soraia. Com a própria vida se for preciso. Entendeu? Até o último suspiro. O olhar dele é intenso, quase selvagem, suplicando por uma lealdade que ele acredita que tem. Ele tá com medo de verdade. Mas de quê? Da ameaça vaga do Centauro? De alguma guerra de facções que tá prestes a engolir o morro? Ou de algo mais específico, mais pessoal? De perder o menino que ele sequestrou e a mulher que ele mantém como troféu? — Entendi, chefe — respondo, a voz saindo plana, controlada, enquanto por dentro uma revolta fervilha. Proteger eles de quê? De você? Do mundo lá fora? Ou de mim mesmo, do pai que quer levar seu filho e a mulher que ama pra longe dessa loucura? Ele me dá um tapa nas costas, um gesto que deveria solidificar nossa aliança, mas que só me deixa mais alerta, e vai em direção ao quarto do Miguel. Fico parado no corredor, ouvindo. A porta do quarto do menino abre e fecha. Eu me aproximo, silencioso como um fantasma, meu corpo tenso. A porta não tá totalmente fechada. Uma fresta mínima me permite ver dentro. Tito tá ajoelhado do lado da cama, sua figura grande e imponente parecendo estranhamente vulnerável. Ele olha pro Miguel, que dorme profundamente, alheio a todos os demônios que cercam seu sono. Ele passa a mão com uma estranha suavidade pelos cabelos do menino, num gesto que, em outro contexto, poderia ser de um pai amoroso, mas aqui, soa doentio, possessivo. E então, ele sussurra. Tão baixo que é quase um sopro, mas no silêncio opressivo da noite, as palavras chegam até mim, nítidas e geladas como lâminas de gelo: — Não vou deixar ele pegar você. O ar congela nos meus pulmões. Eu me afasto da porta, me apoiando na parede do corredor, tentando processar. Ele. Quem? Quem é "ele"? O Centauro? É disso que ele tem tanto medo? Do Centauro vir e pegar o Miguel? Por que? O que essa criança inocente tem a ver com a guerra entre esses dois monstros? O que o Tito fez, ou o que ele sabe, que faz dele um alvo? A conversa deles no baile, o "não mato criança", tudo isso volta à tona, formando um quebra-cabeça macabro que eu não consigo montar. Ou... será que é de mim? Será que, no fundo, ele já sabe, ou desconfia com uma certeza quase animal, que eu sou o pai verdadeiro? Que o sangue do Miguel é meu, e que um dia, inevitavelmente, eu vou "pegar" meu próprio filho de volta? Será que esse "ele" sou eu, e ele só está se adiantando, tentando se proteger de uma traição que ele sente no ar? Não, se o Tito soubesse que eu sou o pai do Miguel, ele mesmo já teria me apagado. Fico ali paralisado por um longo momento, o coração batendo com tanta força que parece que vai sair pelo meu peito. O medo do Tito não é encenação. É real, é profundo, é o tipo de medo que faz um homem como ele trancar a família numa fortaleza. Mas ele não é um homem que se assusta com sombras. Se ele tá com esse pânico todo, é porque a ameaça é tangível, é iminente, e é monstruosa. E agora, eu tô trancado aqui dentro com ele. Com a Soraia, grávida do meu filho, dormindo (ou tentando dormir) em outro quarto, com o nosso futuro preso nessas paredes. E lá fora, além dos homens do Tito, existe um inimigo invisível, um "ele" que assusta até o dono do morro. A casa não é mais só uma jaula. É um bunker. E o Tito não é mais só o carcereiro. Ele é o general de um exército de um homem só, tentando se proteger de um inimigo que ele nem nomeia. E eu... eu tô no meio desse campo de batalha louco, sabendo que a única chance de salvar minha família é escapar dessa prisão dupla, mas sem saber mais de quem a gente precisa escapar primeiro: do Tito e seus demônios, ou do tal "ele" que deixou o homem mais perigoso que eu conheço tremendo de medo no quarto de uma criança. O peso daquela frase, "não vou deixar ele pegar você", ecoa na minha cabeça. É uma promessa. Uma ameaça. E uma condenação. Seja quem for esse "ele", a batalha já começou. E a gente tá no olho do furacão, sem nem saber de que lado o vento vai vir. O morro virou um tabuleiro de xadrez onde as peças são vidas, e o Tito acabou de fazer um movimento de puro desespero. E eu, o Lobo, o segurança, o pai, o amante, o infiltrado... eu preciso fazer o meu. E rápido. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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