Lobo
A noite tava fechando, e o plano tava na minha cabeça, redondo. Esperar todo mundo dormir, pegar a Soraia e o Miguel e vazar pela estrada de terra atrás do morro. Eu já tinha escondido uma mochila com coisas básicas no mato.
Tava tudo pronto.
Só faltava escurecer de vez.
Aí, o inesperado. O som do carro do Tito chegando de volta, motor gritando, porta batendo.
Porra.
Ele não devia voltar até amanhã. Meu instinto gritou perigo. Ele veio direto pra mim, na varanda. A cara dele tava estranha, vermelha, os olhos brilhando de um jeito doido. Bebeu? Cheirou? Tanto faz. O importante é que ele tava alterado, e isso é sempre uma merda.
— Bora, Lobo. Vamo dar um rolê. Preciso de segurança — ele falou, a voz saindo grossa, sem deixar espaço pra discussão.
Na hora, o coração gelou. Era agora? Ele ia me levar pra um canto e me dar um sumiço? Depois do que aconteceu hoje, trancando a Soraia, a ameaça... era o mais provável.
— Blz, chefe. Onde a gente vai? — perguntei, tentando parecer o mais normal possível, enquanto minha mente calculava todos os cenários.
A nossa fuga ia ter que esperar.
— Baile. No morro do Centauro. Tô com uns negócio pra resolver com ele.
Centauro.
O nome ecoou na minha cabeça. Eu já tinha ouvido falar. Lenda do crime, chefão de uma facção rival que tinha virado aliado recente? Não sabia ao certo. Só sabia que o cara era pesado, e que a polícia federal queria a cabeça dele faz tempo, tinha até recompensa alta.
Entrei no carro. Um dos vapôs, o Dedé, tava no volante. O Tito sentou no banco de trás comigo. O clima tava tenso. A gente desceu o morro em silêncio, o som do funk aumentando a cada curva. O baile era no morro vizinho, uma bagunça organizada de luzes, gente e música alta.
O carro parou na entrada do camarote. Era um cercadinho de madeira no meio da multidão, separando os chefões do povo.
— Se liga, Lobo — o Tito falou, baixinho, antes de a gente descer. — Tô indo encontrar o Centauro. Fica de olho nele e nos homens dele. O cara é o chefão, líder da facção. Não vacila na missão.
— Pode deixar, chefe — respondi, o corpo todo alerta.
Descemos.
O tal Centauro era impossível de não notar. Um cara alto, n***o, com uns músculos que pareciam de pedra e uns olhos que não mostravam p***a nenhuma. Vazio. O Jacaré tava lá também, cumprimentando os caras. Ele me viu e acenou com a cabeça.
— Esse é o Lobo, novo segurança do Tito — o Jacaré apresentou pra um dos seguranças do Centauro. — Tem uma mira perfeita, o viado é bom.
O segurança, um cara com uma tatuagem de cobra no pescoço, me olhou de cima a baixo.
— Tem cara de playboy, mano. Zona Sul — ele falou, num tom de deboche.
Meu sangue ficou gelado por um segundo. Será que o cara tava só tirando, ou será que ele tava sentindo algo? Ri, forçado, entrando no clima.
— E tu tem cara de que é daqui mesmo — retruquei, na mesma vibe.
Os caras em volta riram, e a tensão quebrou um pouco. Mas eu não relaxei. Fiquei observando tudo. Foi quando vi o Centauro.
Uma garota, não devia ter nem dezoito anos, passou pelo lado de fora do camarote, rindo com uma amiga. O Centauro, do nada, esticou o braço, agarrou ela pelo cabelo e puxou com força, trazendo ela pra perto dele, rindo baixo. A menina gritou, assustada.Mas quando viu que era ele só restou o olhar de medo então ele a beijou a força.
Instinto. Minha mão foi pra cintura, onde tava a .40. Num movimento, o segurança da cobra no pescoço colocou a mão por cima da minha, segurando.
— Deixa ele, mano. Não tem autoridade maior que ele nessa p***a — ele sussurrou, sério.
— O poder sobe pra cabeça, mano — outro segurança comentou, num tom de desgosto. — A mulher dele é uma madame que largou tudo pra viver no morro. Veio já grávida, dizem. Agora apanha toda hora, ainda mais depois que o moleque nasceu.
O sangue correu mais frio ainda. A história era estranhamente familiar. Uma mulher de fora, madame, grávida, apanhando...
Não deu tempo de processar. A discussão do Tito com o Centauro esquentou do nada. Eu não tava prestando atenção no que eles falavam, mas a voz do Tito subiu, cortando a música.
— EU JÁ DISSE, NÃO MATO CRIANÇA, p***a! — ele berrou, a veia do pescoço saltada.
O Centauro riu, um som seco e perigoso, e eu vi a mão dele indo pra trás, pra cintura. O Tito foi mais rápido. Num movimento doido, ele agarrou a mão do Centauro, que já segurava uma pistola, e enfiou o cano na própria testa, segurando firme.
— VAMO LÁ, ACABA COMIGO, ATIRA p***a! — o Tito gritou, os olhos arregalados, desafiando o chefão na cara dele.
O ar sumiu.
Todo mundo no camarote congelou. Os seguranças do Centauro se prepararam pra puxar as armas. Eu me preparei pra puxar a minha.
Ia ser um banho de sangue.
O Centauro olhou pro Tito, a arma ainda pressionada na testa dele. E então, ele riu de novo. Dessa vez, um riso mais longo, mais genuíno, mas ainda assim cheio de maldade.
— Você vai implorar pra eu voltar atrás, seu louco — o Centauro falou, soltando a arma e afastando o Tito.
O clima não aliviou, mas a iminência do tiroteio passou. O Tito estava ofegante, suando. A gente saiu do camarote quase correndo, empurrando a galera. Ninguém falou nada até a gente entrar no carro.
Dentro do carro, o silêncio era pesado. O Dedé ligou o motor e saiu dali o mais rápido que pôde. Eu olhei pro Tito pelo retrovisor. Ele estava encostado no banco, olhando pro nada, a respiração ainda acelerada.
Eu não entendi p***a nenhuma daquele papo.
"Não mato criança"?
Do que eles estavam falando? O que tinha acontecido? E a história que os caras contaram sobre a mulher do Centauro... aquilo ficou ecoando na minha cabeça. Uma mulher grávida que veio de fora... igual à Joana.
O carro subia o morro, me levando de volta praquela prisão. A fuga tinha que ser hoje. Não dava mais pra esperar. Porque agora, além de tudo, uma pulga atrás da orelha me dizia que o Centauro tinha algo a ver com a minha Joana. E se ele era o tal "problema pessoal" que o Tito ia resolver amanhã comigo? Eu tava enfiado num jogo muito maior e mais perigoso do que imaginava, e a única saída era correr. Correr com a Soraia e o Miguel, e torcer pra conseguir voltar vivo pra descobrir o que esse inferno todo significava.
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