Lobo
A pressão tá me esmagando.
Cada dia que passa dentro dessa casa é um segundo a mais que a gente tá brincando com a morte. E a Soraia... p***a, a Soraia não tá aguentando mais. Eu vejo ela tentando disfarçar, mas é inútil. O cansaço tá estampado no rosto dela, mais pálido a cada dia. Os enjoos vêm em qualquer hora, e ela some no banheiro fingindo que tá passando m*l de outra coisa. Mas o Tito não é i****a. Ele pode não saber o que é, mas sabe que tem algo errado.
Hoje de manhã foi o cúmulo. A gente tava na cozinha, o Miguel comendo cereal, e ela tentando tomar um café. Do nada, ela levanta da mesa e corre pro banheiro, tampando a boca. O Tito tava lendo alguma merda no celular, mas eu vi o olhar dele.
Rápido, mas desconfiado.
Ele não falou nada, mas a semente tá plantada.
É agora. Não dá mais pra esperar. A gente tá num beco sem saída, e a única saída é pela frente, mesmo que seja no tiro.
Encontro ela no corredor, depois que o Tito sai. Ela tá encostada na parede, os olhos fechados, respirando fundo. Parece que vai desmaiar a qualquer segundo.
— Soraia — chamo baixo.
Ela abre os olhos, assustada.
— Lobo...
Puxo ela pelo braço, devagar, e levo pra dentro do meu quarto.
Fecho a porta.
Ela tá tremendo.
— Escuta aqui — falo, segurando o rosto dela pra ela me encarar. — Não dá mais. Não podemos esperar.
O olhar dela enche de medo.
— Mas... a Joana...
— Encontrando a Joana ou não, nós precisamos fugir — corto, a voz saindo mais áspera do que eu queria. — Temos que ir. Esta semana. Com ou sem Joana.
Ela me olha, e eu vejo a guerra dentro dela. A esperança de encontrar a minha mulher, o medo de ir embora e deixar ela pra trás, e o desespero de saber que o tempo do nosso filho tá acabando. Logo ele será notado.
— E se ela ainda tiver aqui, Lobo? — ela pergunta, a voz um fio.
— Se ela tiver, eu vou voltar. Juro por tudo. Mas você e o Miguel não podem ficar mais um dia aqui. O Tito tá ficando mais louco. É questão de tempo até ele ligar os pontos.
Ela engole seco e balança a cabeça, as lágrimas escorrendo.
— Tá. Tá bom. A gente vai.
Eu começo a traçar um plano, já no meu quarto. O jeito mais fácil é no carro, quando eu for levar o Miguel pra escola. A Soraia vai fingir que precisa ir no postinho e vai junto.
A gente some no caminho. Só preciso de um lugar pra deixar eles escondidos, longe daqui, enquanto eu...
O pensamento é cortado por um estrondo.
A porta do quarto dela, lá do corredor, estava batendo como se estivesse sendo arrombada.
O meu sangue gelando nas veias.
O Tito.
Ele devia ter voltado.
Subo as escadas de dois em dois degraus, rápido, desesperado.
O Tito tá no corredor, com a cara vermelha de ódio. Ele já arrastou a Soraia pro quarto dela e tá trancando a porta por fora.
— O que foi, chefe? — pergunto, tentando soar normal.
Ele se vira pra mim, os olhos injetados.
— Você. Amanhã cedo. Vai comigo resolver um problema pessoal.
O coração dispara.
— Qual problema?
— Problema MEU — ele rosna, chegando perto. O hálito dele cheira a cachaça e ódio. — E é melhor ela — ele aponta pra porta trancada — estar aqui quando eu voltar. Entendeu?
Ele me encara, e não é um olhar de chefe pra funcionário. É um olhar de homem pra homem. De desafio. Ele sabe. Pode não saber de tudo, mas sabe que tem traição no ar. E amanhã, ele vai me levar pra algum lugar isolado e vai tentar arrancar a verdade de mim, seja na porrada ou na bala.
Ele vira as costas e vai embora, deixando a Soraia trancada e eu aqui, com a minha decisão tomada.
A fuga tinha que ser daqui a dias. Agora, tem que ser hoje. Antes que amanhã chegue e eu vire estatística.
O relógio agora marca horas, não dias. E a merda tá prestes a atingir o ventilador.
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